Pelos palcos de Sidney

OperaSincronia: desde o bom dia à entrada no autocarro ao agradecimento vociferado por cada passageiro que chega ao seu destino. O respeito e a estima pelo outro sente-se e ecoa pelos poros da cidade, um reflexo deste país que espanta, sentido até numa das mais cosmopolitas e movimentadas cidades da Austrália. Tudo parece definido, coreografado. Vestígios de uma organização britânica, memórias de uma Europa aqui recriada.

Mas nos outros palcos de Sidney também muito se representa. São estes que aqui tentarei partilhar, pois que a viagem nem só de monumentos se faz e é bom que o viajante que parta em busca da arte e cultura locais possa saber onde e como procurar espaços de movimento e interacção.

Grandes Palcos

Mais famosos e simples de encontrar são os palcos da célebre Opera House, Sydney Theatre Company e Sydney Dance Company, bem localizados junto ao rio e na Marina de Circular Quay. Haverá sempre um espectáculo a decorrer nestes espaços e é certo que merecem uma visita, nem que seja apenas ao Foyer. Na companhia de Dança é também possível experimentar aulas avulso leccionadas por artistas e bailarinos residentes.

CarriageworksGrandes-Pequenos Palcos

Mais informais e com programação alternativa às grandes produções, são muitos os locais outros onde se pode aceder ao que de mais independente está a ser produzido na Austrália. Em Sidney, o mundo do teatro e  dança dito contemporâneo é pequeno e coeso, mas permeável e aberto a quem procura aprender e partilhar.

Carriageworks é uma antiga estação de comboios transformada em centro de exposições e espectáculos. Bem no centro da cidade, perto do popular bairro de Newtown, é também sede de festivais e workshops variados. Para consultar a programação visite http://www.carriageworks.com.au/

Para quem tenha interesse em assistir em primeira mão à discussão dos temas actuais no recente mundo da performance contemporânea australiana, recomenda-se a procura das conversas informais mensalmente conduzidas no PACT, centro focado na promoção de artistas emergentes. Aqui, na companhia de chá, café ou vinho pode-se ouvir e participar em tertúlias que visam abordar questões relevantes para a situação das artes performativas na Austrália de hoje. Para além destas conversas mensais, é também neste espaço que se podem ver espectáculos e exposições através dos quais jovens e novos artistas têm a oportunidade de expor o seu trabalho.

Uma outra forma de melhor olhar estes palcos de um ponto de vista que não só o de espectador, é trabalhando voluntariamente para o Performance Space, estrutura que suporta artistas contemporâneos interessados na exploração de novos territórios, linguagens e interdisciplinaridade. Aqui, a troco de passe duplos para os eventos a decorrer, os voluntários são envolvidos na organização das exposições, espectáculos e outros eventos apresentados de forma natural e informal, mas não por isso menos profissional. Uma característica forte deste país de surpresas.

Mais e muitos workshops de dança decorrem de forma constante ao longo do ano, nos quais e possível participar independentemente de nacionalidade, género, estado civil ou outro que tal. Estes são na sua maioria divulgados através da plataforma online da Ausdance.

MarinaPalcos Comuns

A inclusão da diversidade cultural e étnica é agora um tema forte na Austrália, o que se pode ver e sentir através dos  apoios orientados para a promoção de arte e cultura oferecidos a centros comunitários dos diversos bairros e subúrbios de Sidney. Não obstante o facto de reflectirem um reconhecimento da negligência que atingiu e afectou populações aborígenes e de imigrantes do Sudeste Asiático , a verdade é que no agora existem e funcionam. Aqui as comunidades locais podem participar em workshops e aulas regulares de dança, teatro ou artes visuais, sendo que estes centros também divulgam e oferecem bolsas de estudo e de pesquisa a qualquer artista ou elemento da comunidade interessado. Um mundo bem aberto e onde se sente que o capital flui não só para o CBD (Central Business District) mas também para outros polos. Estes centros, embora direccionados para as comunidades dos diferentes bairros que representam, são também fãs da palavra integração, e por isso estão igualmente abertos a todos os que manifestem interesse em aprender e partilhar, sendo possível assistir aos espectáculos e participar nos workshops aqui conduzidos. Dou especial destaque ao Blacktown Arts Centre, que abre o seu espaço a residências artisiticas, assim como ao Bankstown Arts Centre, onde são promovidos espectáculos e aulas e de dança integrada:

É de notar o desenvolvimento de projectos de arte acessível e integrada, apoiados por estruturas como a Accessible Arts, que atribuem fundos para criações artísticas direccionados para a geração de espaços e ambientes seguros de expressão e aprendizagem para adultos, crianças e adolescentes com necessidades especiais físicas e/ou mentais. Exisem diversas iniciativas ligadas a esta área, sendo que na Sydney Creative Movement é possível colaborar participando em aulas de dança integrada tanto contemporanea como de Hip-Hop, ou até fazendo trabalho voluntário com a organização, durante um período mínimo de dois meses. Para os mais interessados nesta vertente social e terapeutica, sugiro tambem um contacto ou visita a Shopfront, onde aulas e projectos de artes plásticas, dança e teatro são tambem conduzidos com vista à integração.

Pela minha experiência falando, senti que neste mar de acontecimentos, oportunidades, bolsas e apoios, encontrei um El Dorado. Facto que torna ainda mais interessante ver como mesmo aqui todo o apoio do mundo não é suficiente e existe muito quem note a lenta mas real redução dos fundos necessários para criar. Mas por enquanto aínda muito acontece e está por explorar: haja vontade de mexer, que Sidney está aberta e con(m)vida.

Artigo escrito por Mariana Vieira, Viajante

Comments

  1. Uma muito interessante viagem por um universo artístico de que pouco ou nada nos chega nesta miopia de gente pequenina que nos afunda em conversas infindas sobre negócios e negociatas…Obrigad , Mariana! Conta mais!

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