Perguntório #02: Qual a tua opinião sobre as curtas temporadas dos espectáculos?

Este mês, a pergunta que lançamos teve a ver com as curtas temporadas dos espectáculos em Portugal. Será positivo? Será negativo? Quais as vantagens e desvantagens?
Todos os meses lançaremos uma pergunta a 5 agentes culturais. A pergunta varia e os agentes também.

Francisco Frazão (Programador)

1. It’s complicated.

2. As temporadas curtas são más: são más para os espectáculos, que não têm tempo de evoluir com a presença do público; são más para os artistas, que assim trabalham menos e recebem menos (ou têm de produzir mais para compensar); são más para os espectadores, que têm menos oportunidades para ir ver o que lhes interessa; são más para a cidade, porque provocam uma aceleração insustentável e um clima ansiogénico de festival permanente.

3. As temporadas curtas não são assim tão más: servem para experimentar; podem lançar um espectáculo que depois circule e até regresse; se não forem a solução hegemónica que todos aplicam o tempo todo, aumentam a diversidade e permitem que mais artistas mostrem e financiem o seu trabalho; são a melhor maneira de mostrar a criação internacional, que influencia a produção local e faz da cidade ponto de passagem apetecível para artistas estrangeiros, dos mais importantes aos menos evidentes; e no fim de contas talvez não seja assim tão complicado organizar a vida para ir ver o que realmente importa (afinal, os concertos têm datas únicas e não é por isso que não esgotam).

Mariana Tengner Barros (Criadora e performer)

Quando se cria uma peça, está-se num espaço alternativo, no qual a criadora/criador se move, entre desejos, intuições, afirmações, questões e devaneios, num mundo próprio que se vai transformando até ao momento-chave: a estreia. Só depois deste “parto”, se pode realmente começar a conhecer a coisa. Infelizmente, não é comum no meio em que opero, termos temporadas longas. Normalmente, para meses e meses de trabalho, há uma ou duas apresentações e muito pouca circulação. Sinto que muitas das peças que faço e que vejo de outras pessoas, sofrem uma espécie de cristalização, que se estanca um fluxo natural quando este está a começar a ganhar velocidade. As temporadas longas permitem que uma peça viva, que continue a transformar-se, a ganhar consciência de si mesma, e para quem a faz, é uma oportunidade sem igual de crescimento, de elevação, de auto-conhecimento. Na minha opinião quase nenhuma peça está realmente madura na sua estreia, e não nos é dada a possibilidade de vermos crescer aquilo para o qual vivemos intensamente tanto tempo. Há um investimento brutal para quem faz, que não é proporcional ao retorno: a informação que se troca quando se partilha o que fazemos com “o outro”. Muitas vezes, por termos apenas uma ou duas apresentações, há muita gente que acaba por não conseguir sequer ir ver a peça. Ou se o local de apresentação tem uma lotação pequena, se estiver lotação esgotada, muita gente fica sem ver também…

Penso que temos capacidade para podermos ter mais apresentações quando fazemos uma peça, mas o sistema assim não o permite. Principalmente na dança. Acho que devíamos ter pelo menos uma semana de apresentações. Há sempre a desculpa de que não há público, mas os públicos formam-se com os contextos que se criam. Também há a falta de financiamentos, obviamente, que afecta em grande escala esta situação. É tudo uma questão política no final, e o facto de estarmos aqui a meter o dedo nesta ferida, prova que se está a manifestar uma vontade de mudança.

Cristina Correia (Coordenadora e produtora da RdG6)

A curta duração das temporadas dos espectáculos na Rua das Gaivotas 6 prende-se com o facto de por um lado tentarmos conseguir acolher quase todas as propostas que nos chegam e por outro, muitas vezes os artistas / estruturas que acolhemos preferem apresentar durante uma curta temporada de tempo.

A curta duração das temporadas confere uma vida muito particular ao espaço, que por estar constantemente a acolher eventos muito diferentes entre si, é sucessivamente alterado, garantindo a afluência e o dinamismo da Rua das Gaivotas 6.

Em alguns casos os artistas que acolhemos não têm qualquer tipo de apoio de criação ou produção, pelo que não têm condições suficientes para apresentar o seu trabalho por um longo período de tempo.

Nuno Nunes (Actor e encenador)

Enquanto actor, eu gosto da repetição. Uma repetição reveladora, que me aproxima cada vez mais da origem daquilo que estou a fazer, que me reencontra com o sentido original duma leitura, duma visão. Não falo portanto, duma repetição inerte, obediente e atlética. Penso que aqui reside o prazer principal do que faço.

As curtas temporadas em cena alteram essa relação com o trabalho. Quando um espetáculo estreia, revela-se ao espectador mas também aos seus criadores que o olham na perspectiva nova que o público traz. Há uma espécie de alquimia do olhar, um processo qualquer que, na presença do público, me faz ver a mesma coisa doutra maneira. É um momento novo da realização do espetáculo e, eventualmente, é aqui que tudo verdadeiramente começa. A ideia de todo o trabalho terminar após 2 ou 3 apresentações, parece-me amputar a própria natureza dele que é de continuidade e transformação, de diálogo com pessoas, de provocação e contaminação. Esta dimensão perde-se e é substituída pela voracidade das experiências tangentes, sem tempo, sem confrontação.

Por outro lado, temos de reconhecer pelo menos a face visível da mudança de paradigma operada nos últimos anos e que, ao que parece, tem tido consequências positivas dado o aumento de público propagado um pouco por todo o lado, e uma correspondente vitalidade do teatro português. Já conhecia, de outros países, sistemas de programação de salas de espectáculos que chegam a alternar várias propostas durante uma semana, ou até no próprio dia. São teatros com equipas robustas, financeiramente bem suportados e espetáculos concebidos para funcionarem nessa alternância: actores que durante um ano fazem dois, três ou quatro espetáculos diferentes, alternadamente, com contratos de trabalho, salários que garantem um nível de vida razoável, etc. Não sei para que modelo estamos a evoluir, mas se para o espectador se torna mais interessante poder aceder a uma agenda muito mais variada e isso, de alguma forma, o vai cativando e lhe cria o hábito, por outro lado, para os profissionais da área, algo terá de acontecer que, acompanhando esse novo modelo, garanta condições de trabalho satisfatórias como, p. ex., poderem viver do seu trabalho. Este aspecto e a fraca expectativa sobre uma futura melhoria, é o que mais me preocupa.

Conheço pouquíssimas pessoas que vivam exclusivamente do seu trabalho como actores ou encenadores, ou cenógrafos… Dar aulas, limpar e alugar as suas próprias casas, depender da ajuda do cônjuge ou familiares, fazer umas horas no restaurante, no hostel ou a guiar turistas pela cidade, etc, tornou-se normal, compreensível e, o pior, perfeitamente aceitável. Faz mesmo parte da profissão: fazer outras coisas para garantir que se continua a trabalhar na área. Uma das consequências mais imediatas, e contraditórias, é a dificuldade de compromisso dos actores com um determinado processo de criação, dada a gestão de tantas outras coisas que são o garante da sua subsistência, e a conseguinte falta de tempo para 《mergulhar》nesse processo.

Ricardo Neves-Neves (Dramaturgo e encenador)

Imagina investires meses (às vezes anos) a investigar, a escrever e a encenar um espectáculo que resume a sua carreira de apresentações a poucos dias. É desmotivante. E é sobre este sentimento que gostava que houvesse uma certa reflexão, para perceber se isto é útil para alguém ou não.

O facto do Teatro ser uma arte efémera, deixa-me um pouco inquieto. Os espectáculos que fizemos estão arrumados, é uma coisa que fica só na memória de quem os viu. Existem os vídeos, existem fotografias, os figurinos, os adereços, cartazes, recortes de jornais e outros documentos, mas o espectáculo deixa de existir. Se o espectáculo depois da carreira só existe na memória, queremos ter o máximo de espectadores, porque assim o espectáculo vive em mais memórias. Quanto mais nós reduzimos as temporadas, potencialmente menos público temos e, logo, menos memória.

Fazer um espectáculo para ter poucos dias de vida, para além de não ser estimulante, parece-me às vezes injusto. Porque se compararmos com a pintura ou com a escultura ou com a arquitectura, que vivem séculos, o facto de existirmos alguns dias é injusto. Já não é a coisa mais feliz quando dizemos “o nosso espectáculo vai viver 100 dias”. E tu comparas com a Capela Sistina do século XV ou com a Torre de Belém de 1515 e dizes “a Torre de Belém já existe há 503 anos, e nós vamos ter 100 dias. Que injusto”. Agora imagina o que é baixar esses 100 dias para 8, 7 ou 3.

Houve uma mudança tão rápida que acho que nem sequer nos preparámos para isso. A nossa forma de trabalhar não está preparada para isto. O Teatro do Eléctrico está a fazer 10 anos, o nosso primeiro espectáculo teve, só no primeiro ano, 32 apresentações. Em 2017, ano em que fizemos quatro estreias e duas reposições, tivemos 36. Agora temos meios, temos apoios do Estado, de teatros municipais, temos digressões, temos uma equipa mais completa, publicidade, interesse por parte da imprensa etc, e 6 espectáculos, em conjunto, fazem apenas mais quatro apresentações que o nosso primeiro.

Parece-me que daqui saem dois grandes resultados. O primeiro é muito mais imediato que diz respeito aos investimentos, por exemplo: “isto é só para durar uma semana e meia, se calhar não precisamos investir o valor x no cenário certo, vai este provisório que fui ali buscar emprestado”. E então o espectáculo estreia com o cenário provisório.

O investimento financeiro, o investimento em recursos humanos, o investimento de tempo, de energia, de pensamento são tendencialmente inferiores, porque o espectáculo é provisório. O Teatro já não é efémero, é uma arte provisória.

Outra coisa que resulta daqui é algo que aparentemente pode parecer positivo, que é o facto de, quando as equipas já não estão 3 meses em cena, mas 2 semanas, sobra-lhes tempo. Ao sobrar tempo, podemos aceitar mais trabalhos. Entramos numa lógica de linha de montagem estéril ou numa lógica de montra de centro comercial. Os teatros, em vez de receberem um espectáculo novo a cada 3 meses, recebem praticamente um espectáculo por semana: as equipas estão estafadas, já ninguém decora os nomes de ninguém. Entramos num teatro, e como sei que na semana seguinte estou a pôr as coisas de volta no carro, as pessoas que lá trabalham não vão decorar o meu nome e vice-versa. Deixa de existir um envolvimento pessoal que o sucesso do espectáculo exige. Quando isso acontece, é muito mais fácil vir o “não” a um pedido qualquer do cenógrafo, do encenador, do figurinista. Vem o “não” porque as equipas estão cansadas, e vem o “não” porque para a semana há outros e depois outros e depois outros.

A angústia tem essencialmente a ver com isto, com esta coisa que já não é efémera, que é provisória. Às vezes vamos ver espectáculos que são rascunhos. E isso acontece, porque num semestre consegues, com a maior das facilidades de calendário, fazer 3 ou 4 estreias, porque tens esse tempo, só que depois não existe a energia, o envolvimento pessoal, ou até a necessidade artística. Eu não tenho artisticamente a necessidade de estrear 4 espectáculos por semestre. Talvez seja apenas uma necessidade da Produção.

Depois há o lado do público. As pessoas estão mais ligadas à instituição do que aos artistas. O público habituou-se a ir a determinados edifícios que funcionam como montras vibrantes de vários artistas. Como é difícil acompanhar a intensa oferta da cidade, as pessoas já não seguem a programação, mas as instituições. E como os espectáculos não têm tempo de permanência, os artistas deixam de existir. Se os artistas não existem, tu não vais seguir um artista, porque não o conheces. Tu vais é seguir a instituição que recebe os artistas. Ou seja, as instituições substituem gradualmente os artistas. Por exemplo, alguns cartazes actualmente dão tal destaque à instituição, que colocam em segundo plano o espectáculo e a equipa.

É muito comum falar-se da falta de espaços de ensaios. Diz-se às vezes que não há falta de espaços de apresentação. Mas faltam os espaços de apresentação com a possibilidade de receber carreiras que permitam fazer o espectáculo crescer, os espectáculos existirem, os artistas existirem, e haver um objecto artístico que exista com tempo de evolução e reflexão. E esse espaço está a ficar curto.

(foto de Rene Böhmer)

Comments

  1. Excelente ideia de comunicar de forma refletida . É uma tertúlia que ajuda o espectador a entender um conjunto de perguntas , obrigada

  2. José Leitão says:

    Interessantes pontos de vista que no fundo e apesar de alguns argumentos que acham que é positivo o actual panorama das cutíssimas temporadas, o grosso dos comentários deixam bem evidente que para os públicos, criadores e o Teatro enquanto arte mostram o quanto é negativa a actual situação. A sala e instutições onde acontece teatro não é o Teatro.

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