Perguntório #03: Os museus devem ser lugares neutros?

Este mês, a pergunta que lançamos tem a ver com a neutralidade dos museus. Deverão ser lugares neutros? Ou deverão implicar-se nas suas escolhas? Todos os meses lançamos uma pergunta a 5 agentes culturais. A pergunta varia e os agentes também.

José Alberto Seabra Carvalho (Director-adjunto do MNAA-Museu Nacional de Arte Antiga)

Os museus, particularmente os museus de arte, são lugares de representação; através de objetos reproduzem interpretações da história, organizam o tempo que já passou e conferem ao espaço, às suas salas, um significado, um feixe de sentidos, esboçam e ensaiam linhas narrativas com objetos que, em última instância, exprimem ideias. A isto se somam as emoções (estéticas, oníricas, etc.) e uma cumplicidade com as leituras, pessoais, subjetivas, das coisas que dão a ver e que relacionam nas suas salas de exposição. Há nisto alguma “neutralidade”? Claro que não.

Esta palavra também pode ser sinónima de “indiferença”. Mas também, nessa aceção, os museus não são lugares neutros. A recente polémica acerca de neles se exporem imagens que podem ser consideradas “indecentes” é disso uma prova concreta (e o Museu Nacional de Arte Antiga irá, em breve, “atravessar” uma das suas exposições nessa polémica). Numa recente novela, diz-se que a vida é como um museu; o contrário também não pode deixar de ser verdade.

João Pedro Vale (Artista Plástico)

Não. Os museus não são espaços neutros, estão sempre sujeitos a condicionantes estruturais: históricas, políticas, económicas, sociais, etc, que implicam um discurso dominante que condiciona a forma como o museu se constrói e se apresenta ao exterior.

Os museus são lugares para a apresentação, divulgação e consolidação de ideias, e acima de tudo, são espaços que procuram dar respostas a questões fundamentais para a sociedade.

Cabe aos museus interrogar a realidade ao procurar essas respostas, e permitir que o publico, não só a interrogue também, mas que interrogue a forma como esta está a ser apresentada pelo museu, e por isso, os museus não devem ser meros depositários dos objectos apresentados sem que exista um discurso claro que sustente a sua exposição publica e a exposição de um pensamento.

Maria Vlachou (Directora Executiva da Acesso Cultura)

Começo por dizer que a neutralidade não existe. “Neutrality is a fiction” (a neutralidade é uma ficção), afirmava a até há pouco tempo directora do Queens Museum em Nova Iorque, Laura Raikovich.

Os museus todos os dias tomam decisões: sobre o que vão e não vão coleccionar; sobre o que vão e não vão estudar; sobre o que vão e não vão expor, sobre o que vão e não vão dizer em relação aos objectos expostos. Noutras palavras, os museus têm um controlo sobre as narrativas que são ou que não são partilhadas com a sociedade. Há algo de neutro nisto?

A afirmação de que os museus devem ser neutros, outrora dominante, é cada vez mais contestada hoje em dia. Quando usada, as razões são, em termos muitos gerais, duas:

  1. Porque se considera que esta seria a única forma de serem espaços acolhedores (diz-se também “seguros”) para todas as pessoas;
  2. Porque se confunde o político com o partidário.

Os objectos que fazem parte das colecções dos museus nada têm de neutro. Foram criados, usados, acarinhados, odeados, guardados ou descartados por pessoas de várias épocas. Têm histórias por trás; podem despertar emoções e memórias; podem revelar algo que se desconhecia. A suposta neutralidade é aplicada quando se opta por ignorar tudo isto, (sobretudo quando algumas das histórias não vêm apoiar narrativas dominantes) e quando os museus fingem que não sabem o que se passa à sua volta ou que o que fazem nada tem a ver com o mundo “lá fora”.

O que se faz, então, é apresentar objectos sem qualquer contexto, partilhando com os visitantes alguns factos “técnicos”: título ou nome / data / materiais / dimensões / nº de inventário. Se existir um texto, este muitas vezes não passa de uma descrição do que o visitante tem à sua frente, recorrendo a um elevado número de termos técnicos; ou, então, de um ensaio filosófico que nada transmite à pessoa interessada em criar algum sentido a partir do que o museu lhe apresenta.

Mesmo assim, quando questionados sobre o seu contributo para sociedade, muitos museus (se não a maioria) respondem que procuram partilhar conhecimentos, combater a ignorância, promover a tolerância e o respeito. Não será esta uma contradicção?

A vida não é neutra, como é que os museus, que preservam várias vidas, o poderiam ser? Haverá olhares mais válidos que outros? Pode-se promover o conhecimento e a tolerância se os museus não abrem as suas portas para esses olhares se cruzarem?

Os museus que pensam que são neutros, na verdade, não o são. São irrelevantes.

Rui Faria (Museu da Emigração Açoriana)

A vida ensina-nos várias coisas durante a experiência da mesma. Por vezes os livros abrem-nos portas para a vida, outras vezes é a vida que contradiz o que vem nas paginas de compêndios. Seja como for, a vida é dinâmica, orgânica e não quer passar por nós de forma apática ou passiva. A vida, sejamos crentes ou não, dá-nos a oportunidade de viver até ao dia em que deixamos de conviver com a família, amigos e conhecidos. Felizes aqueles que sentem a vida como uma oportunidade. Mas afinal o que tem a haver esta filosofia da vida com o museus? Nada e tudo!

Os Museus já não são isto ou aquilo. A internet deu lugar físico a outras moradas e a realidade virtual deu novo GPS à nossa condição geográfica. Nesta velocidade tecnológica, os museus têm um papel fundamental na sociedade – que seríamos nós sem um espaço de memória. Quer seria Auschwitz sem aquele espaço de memória?

Mas deverão os museus ter o papel deontológico de um jornalista? O de isenção e olhar distante? Será que o jornalista tem? Claro que não. É positivo pensarmos que sim, mas um ser orgânico como o ser humano, ser de emoções, moral, ética e perspicácia, jamais consegue fazer do Homem, um jornalista isento.

Então se os museus são espaços que contam algo sobre a dinâmica humana, pensados, organizados e feitos entre humanos, como poderão ser isentos? É possível, mas não será fácil ou até concretizável.

Mas então os museus servem alguma ideologia? Certamente que museus sérios não servem nada nem ninguém, mas jamais serão isentos na sua essência. Mas deverão os museus ser isentos, sem excepção, em alguma área? Certamente que sim. Mostrar o passado deverá ser a experiência museológica com a maior isenção e o maior cuidado de expormos. Falsear o que veio atrás de nós, pode ser o início de um futuro de crenças erradas com uma base tradicional falseada.

Mas se do passado temos de ser neutros, então que dizer dos nossos museus que exploram o amanhã? Haverá lugar para uma intervenção mais selectiva e com outro tipo de filtro? Não, temos de ser sérios e ser sério é deixar de lado pontos de vista e crenças. É possível que assim seja? Certamente que não, mas se não houver regras, aquilo que pode ser quebrado tenderá a ser norma e não excepção.

Mas depois de tanta jogada e fintas neste texto, deverão, ou não, os museus serem neutros? Sim, claro que sim… o mais que poderem!

Rita Lougares (Diretora artística do Museu Coleção Berardo)

Os museus não são lugares neutros” e devem ser locais de reflexão sobre as questões que são fundamentais para a sociedade. Face ao grande dinamismo e ao ritmo acelerado de transformações que se deram em todas as esferas sociais e que caracterizam as sociedades pós-modernas, a cultura e os museus, em particular, que se definem por uma certa rigidez e estabilidade, têm procurado acompanhar as mudanças que lhe são impostas pelas sociedades onde estão inseridos.

Estas mudanças têm implicado um constante reescrever do museu, das suas práticas, dos seus discursos, dos seus públicos, da sua capacidade de comunicar. Os museus, cuja função social principal era a produção do saber, passaram, num curto espaço de tempo, a ter uma um papel essencialmente (auto)reflexivo, (auto)crítico e (auto)questionador, não só de si mas também das sociedades onde se inserem, criando assim novos sentidos para as coisas e (re)definindo a realidade.

(foto de Mike Kotsch)

Comments

  1. Sérgio Gorjão says:

    Os museus não são lugares “neutros” (embora esta expressão não seja objectiva). São lugares de formação de cidadania, de ciência, cultura… também lugares que por vezes servem propósitos ideológicos (mais ou menos neutros). Na realidade, se são lugares de formação de cidadania, são consequentemente espaços em que valores como a dignidade humana, o respeito, a democracia, etc…. são conscientemente cultivados; depois, se são lugares de ciência, então também são espaços em que se lançam questões / desafios. Os museus não devem ser lugares “neutros”, mas também devem cuidar de que a sua não neutralidade seja um processo equilibrado, que inspire a relação da pessoa com a sua cultura ou com outras culturas. Um “gesto” cultural, como a existência de um museu, ou as actividades que nele ocorrem, são sempre actos deliberados de cultura. Opções que não são (não devem) servir interesses pessoais, mas sobretudo que sejam espaços de comunicação (logo tem de haver emissor, receptor, mensagem, sendo o museu um canal) e de contemplação já que o ser humano necessita de espaços de aprofundamento do seu conhecimento íntimo, de inspiração; aliás, não nos devemos esquecer que um “museu” é a casa das musas…

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