Perguntório #04: Como analisas o processo de apoio às artes e os resultados recentemente conhecidos?

Numa altura em que os resultados dos concursos de apoio às artes estão a ser muito contestados, com vozes a levantarem-se um pouco por todo o país, o Perguntório deste mês teria de recair neste tema. Perguntámos a alguns agentes culturais o que opinam sobre este processo.

Cristina Carvalhal (Actriz e encenadora)

Durante um ano os concursos de apoio às artes estiveram fechados para reformulação. O novo modelo foi lançado com 3 meses de atraso, revelando-se igualmente complexo, com verbas muito aquém das esperadas e com resultados catastróficos a vários níveis.

Como reparar agora, de forma justa e sem atrasar mais o processo, os danos causados? Não será, com certeza, exagerado pedir a imediata afectação a este concurso dos 8 milhões que estão previstos serem acrescidos ao longo dos próximos 4 anos e começar já a trabalhar na revisão do modelo.

(contributo recebido a 3 de abril de 2018)

José Capela (Cenógrafo e co-director artístico da Mala Voadora)

É importante não fazer análises fáceis do que está a acontecer. Antes de mais, é necessário distinguir qualquer discussão sobre os resultados dos concursos e, por outro lado, os aspetos estruturais da política cultural do Estado.

Os resultados foram polémicos, antes de mais, porque não repetiram os “resultados do costume” – o que implica necessariamente que alguém fique descontente. Não estou a dizer com isto que a continuidade do serviço público prestado pelas estruturas deva ser ignorado, mas também não pode valer por si, como aconteceu durante anos, quando a avaliação qualitativa das candidaturas era filtrada por um perverso fator de “razoabilidade” de modo a que os efetivos resultados financeiros se aproximassem de ser uma ordenação das estruturas por antiguidade. Agora, as gerações misturaram-se. A mala voadora, por exemplo, ficou várias vezes nos primeiros lugares dos concursos e nunca tinha visto essa avaliação traduzida em apoio correspondente. Contudo, alguma coisa me parece errada quando vejo estruturas cujo trabalho é artisticamente muitíssimo relevante sem apoio. O que estará na origem deste fenómeno? Os concursos exigem-lhes que sejam competentes em coisas em que não são? Mas o que pode ser mais determinante do que a sua relevância artística? Eu diria que nada.

Depois há a política vista globalmente, no âmbito da qual a governação escolhe que relevância quer atribuir à cultura, e designadamente à criação artística. Aí é que a classe estar a unir-se assume a maior importância. E claro que a escassez financeira dos concursos também está na origem da penalização de algumas companhias. Não defendo o direito ao apoio financeiro generalizado, e por isso é que existe um procedimento chamado “concurso”, mas certamente que o país só teria a ganhar com mais atividade artística. É também através da quantidade que se chega à qualidade. E, claro, é preciso pensar no território nacional como um todo, e nos modos como a “arte” pode ou deve democratizar-se.

(contributo recebido a 7 de abril de 2018)

José Russo (CENDREV)

Cendrev – uma das companhias que o governo quer apagar do mapa do teatro português

A surpresa foi enorme, não só pelo que fizemos ao longo de mais de quarenta anos, mas sobretudo pelo enorme esforço dos últimos anos para manter as actividades deste projecto profissional da descentralização cultural neste país, onde os governantes continuam a não querer valorizar o trabalho dos artistas nem a salvaguardar o nosso património colectivo.

O Cendrev é um colectivo artístico cujo percurso se tem pautado sempre pelo cumprimento do serviço público, garantindo uma constante relação com a cidade, um regular envolvimento das comunidades educativas, frequentes deslocações no território rural do Alentejo e, a partir deste universo, desenvolve também a sua intervenção no país e no estrangeiro. Das cerca de 130 sessões que a companhia apresenta em cada ano, 60% são realizadas em digressão.

No plano de trabalho que apresentámos para os próximos anos são muito claras as opções estratégicas que perseguido no Cendrev, uma companhia de reportório que procura sempre novos desafios ao implicar no trabalho outras estruturas artísticas ou concretizar parceria com a Escola de Artes da Universidade de Évora e, neste ciclo, também com a Escola Secundária André de Gouveia. Também não deixámos de evidenciar o trabalho com os Bonecos de Santo Aleixo porque se trata de um espólio do teatro popular de bonecos do Alentejo, que se apresentam todos os anos nas aldeias da região, em muitos palcos do país e em festivais internacionais da especialidade, nem deixámos de fazer referência ao papel do Cendrev na preservação e valorização do Teatro Garcia de Resende, bem como, organizando o dia-a-dia deste equipamento cultural que recebe todos os anos milhares de espectadores.

Estamos a organizar a audiência de interessados para poder conhecer os fundamentos que justifiquem esta tão penalizante decisão.

Sabemos que esta situação não está só a afectar quem nada recebeu, muitos companheiros já vieram dizer, e muito bem, que também eles sofreram reduções nos seus financiamentos e que estamos muito longe dos valores que tivemos em 2009.

Esses valores é o que temos de retomar e não nos venham falar agora de 2 milhões de euros porque todos sabemos que isso não vai resolver o problema.

É a liberdade que está a ser posta em causa, a dos criadores que ficam sem ferramentas e a do público que se vê privado do direito à fruição cultural.

Reclamamos a dignidade que nos é devida.

(contributo recebido a 4 de abril de 2018)

André Braga (Director Artístico Circolando)

Tarefa difícil esta de escrever sobre um assunto que nos toca tão profundamente quando de dia para dia mudam os pressupostos. De não apoiados a “repescados”, o que nós exigimos mesmo é ser bem avaliados!

Definir uma política cultural de incentivo e apoio à criação artística será sempre alvo de críticas e só com investimento político sério e participação empenhada de todos os agentes nos conseguiremos aproximar de um modelo mais justo. O modelo de apoio agora testado, apesar de bem-intencionado, assim o acreditamos, revelou conter em si erros capazes de determinar exclusões do apoio assentes em avaliações a nosso ver pouco cuidadas e pouco fundamentadas, reveladoras de um profundo desconhecimento por parte do júri dos projectos a concurso e da incapacidade de avaliar de forma justa e séria as candidaturas apresentadas.

Se nos parecem evidentes alguns erros na distribuição de verbas por regiões e concurso; se não compreendemos como não se arranjou solução alternativa para a presença nos cruzamentos disciplinares de duas estruturas com a dimensão do Teatro Viriato e A Oficina; e se a proposta geral dos novos formulários e sua estranha opção por complexificar as fichas de actividade e reduzir ao mínimo os quadros de apresentação geral dos programas nos levanta uma série de críticas e questões; o facto é que, de todo o processo, o que sentimos como mais grave foi mesmo a forma como fomos avaliados. Não percebemos e discordamos profundamente do modo como fomos pontuados em todos os critérios de avaliação, e não será por passar a integrar a lista das estruturas a apoiar que nos conformaremos.

Parece-nos totalmente inaceitável a forma como foi avaliado um programa que só em 2018 apresenta 7 estreias, 5 reposições e um forte programa de circulação nacional e internacional; que articula projectos de grande inovação e experimentação, projectos de território, site specific, comunidade e projectos vocacionados para o público jovem e infantil; que aprofunda a intervenção artística na cidade do Porto e consolida um Centro de Criação e Residências na antiga Central Eléctrica do Freixo; que desenvolve linhas de trabalho ligadas à investigação e à formação; que reúne, de forma comprovada, inúmeras e fortes parcerias, co-produções e apoios; que circula por 5 NUTS e 24 concelhos… Enfim, um programa que propõe o aprofundamento e ampliação do que vêm sendo as nossas linhas de acção, e que foi realizado com o rigor habitual, até aqui sempre amplamente reconhecido pela DGArtes.

Esperamos com confiança pela resposta ao parecer que submetemos em Audiência Prévia e só descansaremos quando tivermos claros os fundamentos da nossa avaliação. Uma boa opção pela transparência seria que as candidaturas se tornassem públicas (mesmo com toda a intimidade que isso revela), assim como os subcritérios de avaliação do júri.

Reconhecendo a abertura do Ministério e Secretaria de Estado de convergir com as exigências do sector, a libertação de verba aos bochechos não nos parece a mais adequada e justa. Há que pensar toda uma política cultural de forma integrada e, no caso dos apoios sustentados, somos defensores do desenvolvimento de um sistema alternativo à lógica dos concursos, assente em patamares de financiamento e numa avaliação contínua e próxima, que de modo bianual assegure a mobilidade das estruturas. Há que pensar num patamar mínimo para que um apoio possa ser considerado sustentado. As estruturas emergentes ou com projectos de menor escala devem ter concursos próprios numa lógica de pontual ou anual.

Os apoios à internacionalização e à circulação nacional devem ter também, a nosso ver, concursos próprios, abertos à totalidade das estruturas. A impossibilidade actual dos projectos que beneficiem de apoio sustentado concorrerem ao apoio à internacionalização parece-nos totalmente infundada, e a grande redução da verba disponível bastante incompreensível.

Face à forma atabalhoada como foi reforçada a verba disponível para os concursos, e perante as injustiças que está a gerar, parece-nos justo e sensato (sendo nós uma estrutura apoiada num quadrienal), que se reúna todo o sector e se perceba rapidamente, se não era preferível restringir este ciclo de apoio a 2 anos, reformulando-se até lá, e com o empenho de todos, os modelos de apoio a implementar.

(contributo recebido a 8 de abril de 2018)

(foto de Edwin Andrade)

 

Comments

  1. Dolores de Matos says:

    Bom trabalho CofeePaste. Abraços

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