Perguntório #05: Há territórios diferentes nas artes em Portugal? Grandes centros urbanos vs interior?

A descentralização está na ordem do dia, no discurso politico e não só. Também no meio cultural é uma discussão recorrente. Será que há territórios diferentes nas artes em Portugal? Será muito notória a diferença entre os grandes centros urbanos e o interior? Quisemos procurar respostas para as questões. Assim, pedimos o testemunho a cinco agentes culturais, todos com projectos descentralizados. Aqui ficam os seus contributos.

Elisabete Paiva (Directora Artística, Materiais Diversos)

Em grande medida, sim. A falta de pensamento transversal e a longo prazo nas políticas culturais a nível nacional agravou a natural concentração de profissionais e de meios nos centros urbanos maiores. Durante muito tempo, estes centros protagonizaram a inovação na criação e na programação artísticas.

Hoje já não é exatamente assim. Há projetos que, pela sua continuidade e qualidade, conduziram à fixação de profissionais em certas zonas – é o caso de Viseu, de Guimarães ou da região entre Porto e Coimbra. Outros projetos surgiram, um pouco por todo o país, graças à persistência de artistas e programadores.

Em suma, existem projetos de grande vitalidade e qualidade em diversos pontos do país, mas as condições de produção, de apresentação e de receção são, genericamente, muito assimétricas.

Em todo o caso, do ponto de vista do potencial não acredito que haja territórios diferentes. Acredito muito nos públicos. Já não podemos aceitar os chavões “Isto não é para estas pessoas.” ou “Isto não é o que as pessoas querem”. Quem saberá o que as pessoas querem se não houver diversidade de oferta e inventividade no desenho dos programas culturais locais? A criação artística, seja onde for, é uma experiência de descoberta e de invenção, quer para quem cria, quer para quem frui.

Outra das razões que vejo para as assimetrias entre pequenos e grandes centros urbanos é a falta de autonomia na gestão de muitos equipamentos municipais, o que limita o trabalho dos programadores, sujeitos à aprovação de um público médio abstrato, e burocratiza processos que perdem em adequação e perturbam as relações entre programadores, produtores e artistas.
Recentemente, acendeu-se o debate sobre descentralização e correção de assimetrias territoriais. Parece-me uma tarefa tão urgente quanto delicada. É preciso que o poder local seja sensibilizado e os profissionais especializados sejam reconhecidos. Creio que é preciso legitimar quem trabalha bem, formar quem quer trabalhar melhor e responsabilizar quem tem a responsabilidade de decidir. E, de igual modo, gerar condições para que os criadores possam escolher onde trabalhar e fazer o seu trabalho circular pelo país.

Depois, o que se espera, é que haja dezenas de territórios diferentes, fruto de inscrições consequentes em cada lugar, para daí ver e contar o mundo de formas diversas.

Luís Ferreira (Diretor, 23 MILHAS)

Sim. Contudo, acredito cada vez mais que as pessoas respondem da mesma forma quando envolvidas nos processos e pensamentos artísticos. Bastaria reverter a ausência de empatia entre as comunidades e as práticas artísticas profissionais para que as assimetrias fossem rapidamente revertidas. Será também preciso mudar, simultaneamente, as ideias pré-concebidas que temos sobre nós próprios. Os territórios estão muito reféns de bandeiras e chavões.

Hoje, com a crescente profissionalização das artes e, posteriormente, dos eventos culturais, há um distanciamento enorme entre quem faz e quem poderia usufruir. Um distanciamento que tolda a necessidade e a curiosidade de ambos os lados. Os artistas não conhecem o nosso território, uma vez que estão concentrados nos mesmos pólos culturais, e as populações nem sempre pensam a cultura como um bem essencial. Este desfasamento resulta da ausência de políticas culturais estruturadas que colocaram as artes, uma vez mais, num território do supérfluo, do extra e do acessório. Assim, as artes em Portugal ficam reféns de políticas de gosto de muitos municípios; dos inconsequentes resultados de uma ideia de luxo e, na melhor das hipóteses, reféns de rostos missionários que, dentro da boa vontade, são picos efémeros de esperança.

Infelizmente, existem poucos projectos de território que possam ser um exemplo e um estímulo. Claro que a oferta nos grandes centros é maior mas, percentualmente, também não sei se devemos orgulhar-nos dos seus resultados. Existem novos movimentos que apostam na cultura como um factor decisivo para a atractividade do território, como no esbatimento da noção de interioridade e apostando na criação de novos centros, mas regra geral continuamos a não ver a cultura como uma infraestrutura e vemos nas infraestruturas a cultura.

Os mapas simbólicos, acreditando que existam de outro tipo, são marcados pela forma como nos vemos, como vemos o nosso entorno e como os outros nos vêem. Se concentramos todas as pessoas num só ponto, a perspectiva tende a normalizar-se e a criar uma maior desigualdade. Em Portugal, vivemos um modelo centralizador, pela concentração de pessoas e respectivos poderes de decisão.

A única razão para que exista interior em Portugal, com toda a acessão negativa da palavra, é a ausência total de planeamento. Uma ausência que vem da falta de visão, de escolhas financeiras com resultados meramente imediatistas e da falta de ego da sua população (geralmente incapacitante). Contudo, se o interior é a margem e a periferia, acredito que, mais cedo do que possamos imaginar, a liberdade que essa invisibilidade lhe confere vai trazer-nos muitas surpresas. O mapa das artes em Portugal está a transformar-se, não pelo investimento, mas pela liberdade – talvez, o único factor positivo da ausência de expectativas.

Madalena Victorino (Directora Artística, LAVRAR O MAR)

Na geografia contemporânea dos territórios, existem cada vez mais centros. O centro já não é só a grande capital. O centro pode ser uma pequena aldeia onde acontece algo central. O centro já não é um local, é um acontecimento.

É neste sentido que vejo a importância de me afastar dos lugares onde muitos acontecimentos camuflam o centro como acontecimento. Os acontecimentos são tantos que se baralham, se confundem, se amalgamam. Quando um acontecimento surge num lugar à espera dele, tudo faz mais sentido. O acontecimento não é mais um, não entra na engrenagem industrial dos acontecimentos dos quais um grande centro tem de ser feito. Pelo contrário. O acontecimento surge iluminado logo. Surge como centro magnético de encontro e fruição, surge necessário, desejado.

LAVRAR O MAR é isso mesmo, um projecto cultural que traz acontecimentos onde eles não existiam. Coloca-se na construção de acontecimentos com o que existe e merece ser iluminado.: a cultura do lugar, a disponibilidade para criar, o desejo de usufruir, a possibilidade de transformar. Entre Aljezur e Monchique inscreve-se hoje uma programação cultural que vai ao sabor do ritmo, da respiração destas terras. Uma de serra e outra de mar. Quando a programação acontece e todos os que aqui estão a ela afluem, sabemos que criámos mais um centro, um centro iluminado pela sua presença e efemeridade.

Jesse James (Director Artístico, Walk & Talk)

Há muitos “territórios” e há sempre distâncias entre “centros” e “periferias”, sejam elas geográficas ou entre disciplinas e contextos de criação mais ou menos marginais. São territórios com escalas e dinâmicas diferentes, e isso não constitui, per si, um problema, antes pelo contrário. Contudo, há muitas diferenças no que toca às acessibilidades, disponibilidades e visões do que é cultura e arte, e acima de tudo da importância que pode ter no desenvolvimento local, a nível social e económico.

Mas gosto de pensar que estamos todos a rever os conceitos de periferia/centro e atribuir novos significados e potencialidades a cada um deles. Sinto-os mais próximos. Há, efetivamente, novas centralidades que, por mais efémeras e temporárias que sejam (no tempo e no espaço), estão a criar regularidade e a trabalhar disponibilidades de públicos e agentes, e isso terá (espero) impactos reais a médio longo prazo.

Basta um tour pelo país para perceber que há cada vez mais cidades e lugares que, embora periféricos na sua geografia, são cada vez mais centrais na sua capacidade de criar discussão, propor ideias e apresentar conteúdos. Sejam projetos autónomos promovidos por artistas ou resultados de políticas municipais ou regionais, notam-se novos circuitos e contextos interessantes. Por sua vez, a relevância e atenção que estes projetos têm angariado localmente e entre pares, torna-os cada vez mais conscientes das oportunidades que os seus territórios oferecem e isso traduz-se numa expansão e ligação com outras periferias ou outros centros. Agora é preciso potenciar essa consciença e sublinhar a importância desses esforços. Caso contrário, vamos continuar fechados nas nossas próprias ilhas.

O Walk&Talk – Festival de Artes vem de uma ilha, mas as suas ambições passam exatamente por ligar-se a outros territórios. É um trabalho de insistência, mas que se tem traduzido em resultados nisto de criar relação com os territórios e potenciar disponibilidades dos públicos e dos agentes. Agora importa-nos pensar na continuidade do trabalho e deste “centro” que se cria na ilha. Ou como diz a investigadora e curadora Ana Cristina Cachola – uma centriferia.

José Laginha (Director Artístico, DeVIR/CApa)

Acredito pouco na estratificação dos territórios e ainda menos nas concessões facilitadoras quando se faz programação. O meu conhecimento e a minha experiência, em particular, obrigam-me a concluir que as especificidades e as diferenças poderão ser esbatidas se o acesso à (in)formação for o mais global, abrangente e diversificado possível, o que não acontece no nosso país.

(foto de Pedro Mendes)

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