Perguntório #01: Quais os 3 espectáculos de 2017 que mais te marcaram?

Estreamos hoje uma nova rubrica no Coffeepaste, que baptizámos de “Perguntório”. Todos os meses lançaremos uma pergunta a 5 agentes culturais. A pergunta varia e os agentes também. O desafio de lançamento, e em jeito de balanço de 2017, foi pedir um Top3 de espectáculos. Sabemos e assumimos que é uma pergunta difícil. E que as respostas são as de 5 de milhares de possíveis interlocutores. É uma amostra pequena do que de melhor que fez em 2017 na opinião das cinco pessoas que escolhemos. Esperamos que gostem.

Lígia Soares (Dramaturga e coreógrafa)

1) Thriple Threat de Lucy McCormik no pequeno auditório da Culturgest
Ao ver Lucy dispor todo o seu corpo ao serviço da representação e reprodução de cenas bíblicas, fez-me pensar por oposição em como as constrições culturais que nos fizeram crescer tendem a determinar o quanto e o quando somos ou não o nosso próprio corpo: agora és corpo, mas agora não és, agora podes ser, mas agora não podes.

2) As Bacantes- Prelúdio para uma Purga de Marlene Monteiro Freitas no Teatro Nacional Dona Maria II
A liberdade total de criação de movimento a alegria da descoberta animal e infantil de todos os materiais levou-me a pensar em como o sublime depende do grotesco.

3) Triste in English from Spanish de Sónia Baptista no grande auditório da Culturgest
A Sónia ao apresentar a tristeza como um conteúdo, uma estética, uma possibilidade de criação está a exercer um ato de resistência. Já que as noções de sucesso, a construção, produtividade têm renegado a maravilhosa e justa tristeza para o campo inerte da depressão.

Guilherme Gomes (Actor)

1) 9 ANOS DEPOIS, a partir da Ilíada de Homero, um espectáculo dos AUÉÉÉU (Fevereiro)
De um grupo de pessoas tão inspiradoras não surpreende que o espectáculo saia tão inspirado; ainda tenho bem presente a tarde em que o vi: o aquecedor nas costas, uma corda rente à cabeça, a sala cheia de atenção; um fotógrafo silencioso, inquietante personagem; a permanente discussão, problematização, inconformismo. Em italiano, francês, português, companheiros, Auéééu! E venham mais, que nós precisamos. (Este espectáculo volta a cena em Fevereiro de 2018)

2) A História Assombrosa de Como o Capitão Michel Alban Perdeu o Seu Braço, a partir de Une Histoire Épouvantable ou Le Dîner des Bustes, de Gaston Leroux, enc. Bruno Bravo, Primeiros Sintomas (Maio/Junho)
O cuidado, o pormenor, o sentido de humor, a contagiosa inquietação, a poesia, a inteligência e a generosidade. Um mundo inteiro inundou a sala da Ribeira. (O espectáculo, creio, será reposto em 2018; já no novo espaço dos Primeiros Sintomas, em Santa Apolónia, o não menos especial CAL.)

3) A VERTIGEM DOS ANIMAIS ANTES DO ABATE, de Dimítris Dimitriádis, enc. Jorge Silva Melo, Artistas Unidos (Setembro/Outubro)
Porque, aos meus ouvidos, respondendo à pergunta de Blind Willie Johnson (“what is the soul of a man?”) com um discurso onírico inquietante, surpreendente e inspirador, sei que tão depressa não o esquecerei.

António Torres (Bailarino e performer)

1) Bacantes – Prelúdio para uma purga (Marlene Monteiro Freitas)
Um espectáculo complexo, cheio de jogo e deixa o espectador com vontade de o assistir mais que uma vez.

2) El conde de torrefiel
Um mundo infinito de possibilidades e um conjunto de situações inusitadas, mas bastante humanas, fazem com que este espectáculo transborde para fora do edifício e nos sugue ou cuspa de dentro dele (do teatro).

3) Adorabilis (Jonas & Lander).
Um espectáculo repleto de energia e diversão, através de 3 personagens caóticos (preenchidos por movimentos assertivos, repetitivos e sedutores).

Hugo Barros (Produtor)

1) Rosa Mimosa y Sus Mariposas no Disgraça
Daqueles concertos em que vais à última da hora, convidado de repente a aparecer, que por acaso encaixam no teu ‘horário de vida’, para o qual não tens qualquer expectativa, ao qual chegas cedo e te apercebes que a amplificação está presa por um fio e, quando te dizem isto vai ser um caos, tu respondes, oh, quando começarem a tocar tudo se compõe. É raro, muito raro (talvez de 10 em 10 anos) que considere um concerto um momento puramente extraordinário, em que sinto a banda a 150%, em que sinto que ali está aquela centelha que faz as rodas da música girar.

2) Adorabilis de Patrick Lander e Jonas Lopes no PT’17
Também sem grande expectativa atendi a esta récita. Cerca de 60m que passaram como de 5 se tratassem. A múltiplicidade de camadas, o objecto de estudo, a sua abordagem, o irrepreensível trabalho técnico e sobretudo o ímpeto criativo e dimensão artística desembocam numa irresistivel vontade de desatar a dar festinhas ao sacana do polvo.

3) Apagão de Tiago Cadete e David Marques no Negócio/ZDB
Tenho o péssimo defeito de me atrasar e este caso não foi excepção, portanto foi por uma ‘unha negra’ que consegui atender a um (salvo erro, o último) ensaio geral desta peça. Tiago e David pegam no que parece ser uma ideia insípida, embora bem fundamentada e conseguem em cerca de 60m explorar muito bem o tema, que afinal tem muito que se lhe diga. Recordo a vertigem do escuro, do agarrar-me à cadeira e dizer a mim próprio, ‘pronto, daqui já não saio, mas também daqui ninguém me tira’.

Pedro Mascarenhas (Assessor de imprensa/assistente de comunicação da Companhia Nacional de Bailado)

1) Júlia. Direção artística e plástica de Daniel Gorjão (Teatro do Vão). No São Luiz Teatro Municipal
A partir de “A menina Júlia” de Auguste Strindberg. Destaco as extraordinárias interpretações de Teresa Tavares e João Villas-Boas e também a visão poética impressa não só na encenação como na realização plástica do espectáculo

2) Sopro, De Tiago Rodrigues, no Teatro Nacional de D. Maria II
Os actos de amor tocam-nos sempre, sobretudo quando os sabemos serem reais. Destaco o amor da Cristina Vidal e a forma como, ao longo do espectáculo, somos levados a amar a Cristina.

3) iTMOi – In The Mind of Igor, De Akram Khan, Companhia Nacional de Bailado, no Teatro Camões
Duvida, ruptura, morte e sacrifício são o mote deste espectáculo que vai para além da mente de Stravinski. Destaco, assumindo a minha falta de isenção, as interpretações dos bailarinos da Companhia Nacional de Bailado

(Foto de Charlie Foster)

Comments

  1. myrna renaud says:

    Trilogía Antropofágica de Tamara Cubas fue para mi la performance más honesta, artísticamente impresionante y absolutamente creativa del 2017 en Lisboa—Teatro San Luis.

  2. Elisabete Cardoso says:

    Para mim eu diria 3x Turandot, pelo São Carlos, no Coliseu de Lisboa.

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