Provocador “Circulação e Acesso às Artes em Portugal”

Por Sara Barros Leitão

Texto provocador lido nas Jornadas de Teatro – 13.06.2017
Painel “Circulação e Acesso às Artes em Portugal”

Boa tarde,

Estamos a chegar ao fim destas Jornadas de Teatro, e este será o último painel: “Circulação e Acesso às Artes”. Fui desafiada para ser a figura provocadora. É a primeira vez que faço isto, sou uma espécie de provocadora emergente. E como qualquer emergente, agarro-me às referências.

Enviei dezenas de emails nas últimas semanas a vários criadores. Desde artistas que trabalham em nome individual, a pessoas que têm a seu cargo companhias, colectivos, estruturas. Pessoas com idades muito diferentes – uns estão a começar, outros a pensar em desistir, quase todos a resistir. Criadores que trabalham em várias regiões do país: do Algarve a Trás-os-Montes, do interior ao litoral, não esquecendo os criadores que trabalham (ou vão tentado trabalhar) nas ilhas. Os espectáculos que produzem, também entram nesta balança: dos mais portáteis e adaptáveis, aos mais pesados e tecnicamente exigentes.

A todos enviei o mesmo email, para que as respostas partissem de um enunciado comum. Expliquei-lhes o que seriam as Jornadas, quais eram os painéis, e que eu seria a figura provocadora do tema “Circulação e Acesso às Artes”. Pedi que me escrevessem o que gostariam de ouvir discutido nesta assembleia, sem filtros ou medos. Garanti que as respostas que recebia seriam tratadas de modo a não se saber quem as escreveu, eu guardaria o máximo de sigilo.

Não é do meu interesse falar de nomes ou apontar o dedo. O objectivo destas conferências não deve ser pormo-nos uns contra os outros e criar atritos, mas sim promover o pensamento, a discussão e, se possível, o encontro de soluções.

Encontro-me, então, aqui na figura de representante de provocações de todo o país. Isto pode parecer um bocadinho bipolar em alguns momentos, porque, felizmente, não concordamos todos com o mesmo. E, felizmente, há espaço (ou tem que haver espaço) para todos. A diversidade é fundamental: quer para a criação artística, quer a diversidade de opiniões.
Como devem imaginar os assuntos cruzam-se muito facilmente, e numa altura em que as artes performativas estão tão estranguladas, qualquer oportunidade de falar é aproveitada para vomitar tudo o que nos inquieta, ainda que se possa estar a fugir ao tema. Apesar de ser difícil separar, nas reflexões que recebi, alguns desvios ao assunto principal, vou tentar fazê-lo, começando precisamente por contrariar o que acabei de dizer:
Numa consulta rápida ao dicionário é possível ver que “circulação” e “descentralização” não são sinónimos. E apesar de este pretender ser um debate sobre “circulação”, não será também importante falar de “descentralização”? Se não, vejamos: “circulação” é o movimento contínuo com regresso ao ponto de partida; a movimentação contínua de pessoas, coisas ou ideias; o movimento ou transacção de valores, de bens ou de mercadorias.

“Descentralizar” é dar certos poderes às colectividades locais; disseminar por todo o país as administrações, indústrias, organismos, etc., que se encontravam agrupadas no mesmo lugar. Descentralização é o sistema oposto à acumulação dos poderes no governo central.

Por isso, falar de circulação sem falar de descentralização é uma opção política?

Voltemos ao assunto:
Um espectáculo que estreie num teatro municipal do Porto, esteja em cena um fim de semana, e seja apresentado apenas mais dois dias num teatro municipal de Lisboa é um espectáculo que circule?
E todos os espectáculos são para todos os públicos?

Estou a fugir ao tema.

Eu não quero circular. O dispositivo do meu espectáculo foi pensado para este público, para este espaço e, se para serem apoiados os projectos têm que circular, estaremos a fechar a criatividade e o interesse do próprio projecto?

Eu quero circular. O que é que eu faço para que me respondam aos emails? O meu espectáculo foi pensado na portabilidade, quero concorrer aos pontuais mas ninguém me responde com uma declaração de interesses.

É como se houvesse dois Portugais: um tem uma rede de teatros municipais com linhas de programação independentes (independentes, será a palavra certa?), com um trabalho de criação de público, com programadores cuja formação e experiência profissional valida a posição que ocupam; e do outro lado, um Portugal onde a programação cultural é gerida por autarcas sem qualquer ligação à cultura, onde ninguém sabe quem deve contactar, e onde o orçamento para a compra de espectáculos está, muitas vezes, misturado com pelouros da educação, juventude e turismo. Nestes dois Portugais levantam-se problemas diferentes:
No Portugal dos teatros municipais com programadores e programação regular não faltará um orçamento para que os programadores possam deslocar-se para ver espectáculos? Os programadores existem? Qual é o seu verdadeiro papel? A que espetáculos assistem? É comum ver programadores a assistir a espetáculos pelo país, fora dos circuitos a que me atrevo a chamar de lobbies…?

Será que devia haver candidaturas abertas à programação de todos os espaços nacionais? Candidaturas abertas às redes de circulação, aos festivais?

As candidaturas que as companhias fazem são praticamente todas espontâneas e raramente são dignas de uma resposta, como se as entidades que as recebem fossem fantasmas.
Não sei se, para enviar uma candidatura, basta ter sorte e pontaria. Nunca sei quando enviar um projecto, ou porque foi cedo demais e ainda não estão a programar, ou porque é tarde e a programação já está fechada, ou não respondem ou é por convite….

Se os programadores só vão ver espectáculos que estão programados em determinados sítios, e se para se fazer um espectáculo nesse sítio é preciso que alguém nos programe, como é que se começa a ser programado? Como é que eu entro na bolha? Será que é preciso conhecer o porteiro da festa para ter o meu nome na guest list?
A falta de resposta.

Se é uma entidade pública, eu não devia receber uma resposta aos emails que envio? Se o programador não tem capacidade para gerir tanta burocracia, não será, então, preciso rever as suas condições de trabalho?

As linhas de programação.

Quem é mais artista: o criador ou o programador? Estamos numa altura em que as “linhas de programação” têm mais peso que uma criação artística. As frequentes “encomendas” de espectáculos com imposição de tema, estética, forma, elenco, não estarão a por em causa os propósitos artísticos? As directrizes europeias que definem os temas dos espectáculos não estarão a tornar a arte anti-artística? E sim, estou a fugir ao tema outra vez. Mas já que dependemos tanto das decisões europeias e a Eurovisão foi toda nossa, não podemos resgatar o hashtag do festival e pedir às redes de circulação um bocadinho de #celebratediversity? É europeu, e está em inglês.

Mas partindo do princípio que as programações até celebram a diversity: num momento em que é cada vez mais difícil circular, o que fazer quando as estruturas/teatro municipais programam quase em exclusivo dentro das redes (arte em rede; 5 sentidos; etc). E ainda mais agora com a Rede Eunice em que apenas circulam produções do Teatro Nacional D. Maria? Será esta a missão de um teatro nacional, a criação de um lobby-teatro-nacional que domina os teatros pelo país, impedindo outras produções de circular? Esta realidade é ainda mais grave se pensarmos, por exemplo, no caso dos apoios pontuais, que é escusada a participação se o projecto não tiver duas deslocações fora dos grandes centros. Estas redes estarão a permitir que os projectos independentes fiquem de fora da corrida?

E a Rede Eunice será mesmo um inimigo, ou, pelo contrário, está a ajudar na criação de público, a ajudar a acordar a dinâmica de novos teatros municipais, a contribuir para a formação dos técnicos residentes, até então apenas eletricistas da freguesia, a abrir portas para que possamos ir nós a seguir?

Há mesmo espaço para todos?

Estou a fugir ao tema.

Olhemos para aquele outro Portugal que deixámos lá atrás, o Portugal dos teatros e cine-teatros sem programador. Quando acontece de um espectáculo ser lá programado há quase sempre uma renegociação dos cachets dos espectáculos, deslocações e alojamentos.

Para circular com espectáculos a estes locais é preciso fazer muitas cedências, quer artísticas, quer técnicas (e porque não pessoais… dividir quarto, cama…).

Quem acolhe, sabe acolher? Teatro requer tempo, afinação, precisão. As equipas de acolhimento na maior parte destes casos não estão sensibilizadas para isso, tudo é um esforço, tudo é um sacrifício é uma chatice. E é preciso perder tempo a convencê-los a cooperar. Não existe ninguém para montagem cénica, nem disponibilidade de transporte de cenário, duas coisas que encarecem muito a circulação de espectáculos, e em última análise onde se perde muito dinheiro que devia ir para os artistas e para o seu trabalho.

E quando, depois de depositarmos tanta energia, não temos público? Vale a pena?

E as estruturas e criadores que desenvolvem projectos fora dos grandes polos? Cuja relação com autarquias incultas e sem vontade é diária?

Será que Portugal tem uma política de descentralização na sua génese? Ou estão à espera que sejam as políticas culturais a salvar o país? Os comboios que fazem a linha do litoral não são os mesmos, nem têm as mesmas condições que os comboios que fazem as linhas do interior, as carreiras de camionetas estão a ser suprimidas e as autoestradas cada vez mais caras. Será isto a confirmação de um Portugal de primeira e de segunda? Onde ficam os criadores que estão sediados longe do Porto e Lisboa? Projectos que não têm a presença de imprensa, de críticos. A consequência do desinvestimentos nas regiões é a desertificação das cidades: perde-se massa crítica, agentes, lojas, rostos, corações e alma. E que sentido faz criar um projecto artístico num espaço por dinamizar quando os seus futuros espectadores abandonam a região?
Quem está disposto a fazê-lo?
Deve-se privilegiar os trabalhos descentralizados? E porquê?

Terá ainda João da Ega razão quando declara a certa página dos Maias que “o país está todo entre a Arcada e São Bento”?
Eça de Queiróz não é moderno, o país é que continua o mesmo.

Estou a fugir ao tema.

Há um desfasamento entre a calendarização da programação das entidades culturais, a agenda dos municípios, e a realidade vivida no seio das companhias. A grande maioria das estruturas não consegue apresentar propostas com um ano de antecedência. São cada vez menos as estruturas com capacidade para assegurar alguma continuidade às equipas artísticas e técnicas dos seus projetos, o que compromete a possibilidade de circulação já que essas mesmas equipas artísticas e técnicas se desmultiplicam por vários projetos em simultâneo, sobrepondo agendas e ficando sem calendário disponível para a circulação.

Uma companhia que não sabe o seu futuro daqui a três meses dificilmente consegue apresentar propostas à circulação com a devida antecedência. E quais são as companhias que mesmo antes de estrear conseguem projectar a circulação do seu espetáculo?

Como é que se consegue a venda antecipada de espetáculos?

E os jovens criadores, que apenas conseguem pensar uma criação com 3/4 meses de antecedência? Onde podem ter espaço nas programações dos teatros nacionais, municipais e teatros geridos por companhias profissionais?

Amigos, se eu sou emergente, estou a experimentar: um espetáculo que eu faça hoje, tem que ser visto hoje, para o ano já não estou neste lugar, vou querer dizer outras coisas, vou ser outra pessoa!

Será que uma solução possível seria que nos calendários de programação ficasse reservado um período de calendário mensal para programação mais próxima da data de concretização?

Prometo que estou a terminar:

Apoios diferentes para criação e circulação: sim ou não? Como fazer?
Chega fazer só teatro? Ou só dança?
Ou temos que, ao mesmo tempo, salvar o mundo com trabalho com a comunidade, serviço educativo, ser multi, trans, pós, afro, inter, intra, pluri, circular?

Finalmente ganhei o apoio porque vou ser e fazer tudo, o meu projecto artístico é indiferente.
A circulação é para quem quer ou para quem pode?
E se ninguém quiser?
E se todos pudéssemos?

Muito obrigada, bom debate.

Sara Barros Leitão
Nota: Este texto é fruto do contributo de várias pessoas. Esse contributo está aqui presente com ideias, temas e, muitas vezes, com o parafraseamento integral de frases que me foram enviadas. Nesse sentido, apesar de assinar este texto a sua autoria é partilhada com todos os que gentilmente responderam ao meu repto. A eles, o meu profundo agradecimento.

Comments

  1. Sara Barros Leitão, talvez não saiba mas nas artes plásticas este é exactamente o mesmo panorama!
    Enviar projectos para galerias ou espaços municipais não têm direito a resposta, excepto se for ” recomendada/o”.
    Os avaliadores, programadores, curadores ou o que lhes queiram chamar, avaliar pratos, mobiliário ou carros é tudo o mesmo desde que ganhem o deles e continuem a distribuir sorrisos e apertos de mão e beijinhos…
    A arte de vender a banha da cobra, que estica mas não dobra.

    • Sara Barros Leitão says:

      Olá Eduarda,
      Imagino que sim. Na minha intervenção não referi as artes plásticas pois, por um lado, não é a minha área e longe de mim falar do que não sei, e por outro, porque as jornadas tinham como objectivo discutir e pensar as artes perfomativas. No entanto, acredito que os universos não são assim tão diferentes. Resta-nos continuar a lutar, a falar, e não baixar os braços.
      Desejo-lhe as maiores felicidades e muita força e inspiração para as lutas futuras.
      Sara Barros Leitão

  2. Sara, excelente catálogo de perplexidades e nada provocador pois vem de dentro, das ansiedades quotidianas sentidas por tantas companhias. Há de facto lóbis encapsulados com belas intenções, sempre o sentimos e estes tanto podem ser de redes de teatros e até diretores individuais que ascenderam ao estrelato para programarem os amigos de longa data. Há também os lóbis municipais, máquinas pérfidas de triturar artistas com os seus preconceitos, e os seus festivais onde cabe tudo e nada, numa total ausência de abnegação à causa cultural. São os que dizem às companhias: desenmerdem-se pois não podemos ajudar (e depois vemos que têm centenas de empregados e quando chegam as festas do burgo, tudo acontece).

    Resumindo, o fio de Ariadne é fino e instável mas existem modos de obviar a alguns destes constrangimentos. No nosso caso da Binaural/Nodar o que fizemos foi alargar horizontes, criarmos as nossas próprias redes de trabalho permanente (Espanha, sul da Europa) sem pensar no espetáculo imediato para vender mas em criar sentidos de pesquisa em comum que possam, quiçá, mais tarde levar a uma candidatura europeia (Feder, Europa Criativa, EEA Grants etc.). Sozinhos somos muito pouco e acabamos por criar as nossas próprias bolhas mentais que nos limitam a ação possível. Outra possível estratégia é o alargamento de colaborações permanentes com IPSS, escolas, associações de bairro/aldeia e também ai surgem oportunidades de apoios extra-DGArtes. Ou seja, sem violentar a linha artística há que agir com abertura sincera ao tecido social e territorial, pois o pior que pode acontecer a uma companhia é achar ‘por que é que não valorizam a nossa genialidade?’.

    Um abraço amigo,
    Luís Costa
    Binaural/Nodar
    São Pedro do Sul, Viseu

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