PT.17: Um trampolim para a abertura, a divergência e a internacionalização

© Diana Quintela/Global Imagens

Em quatro dias intensos, a Plataforma Portuguesa de Artes Performativas mostrou em Montemor-o-Novo 16 dos mais estimulantes trabalhos de criação em dança, teatro e performance dos últimos dois anos.

Por Maria João Guardão

“Tenho deitado pessoas, contratado seguros, fechado orçamentos, confirmado empréstimos, verificado materiais de comunicação”, responde Ana Carina Paulino à questão da ocupação dos dias (e noites) destas últimas semanas. E antes que a enumeração se alongue – porque há tanta coisa para juntar à lista – a diretora de produção do Espaço do Tempo (EdT) resume: “estou basicamente a fechar o puzzle”. O puzzle é a estrutura em que assenta a PT.17 – Plataforma Portuguesa de Artes Performativas que, entre 7 e 10 de junho, reúne em Montemor-o-Novo dezasseis dos mais estimulantes trabalhos de criação em dança, teatro e performance dos últimos dois anos, para os dar a ver a uma plateia de programadores internacionais e nacionais, mais de meia centena deles. Mas nem só espectadores profissionais se faz esta plateia, há um público mais alargado que é sempre convidado a entrar (gratuitamente) nos auditórios maiores – nesta edição, ao histórico Cine-Teatro Curvo Semedo juntam-se o Armazém 5 e a Escola Secundária, novos palcos que a PT oferece à cidade. “Fazer espectáculos em espaços que não são teatros e que estamos a transformar de raiz é complicado, gerir 19 companhias é um desafio. Tudo é complexo mas não há nada impossível ou irreal”, conclui Ana Carina, com a experiência de quem ajudou a erguer cada uma das quatro edições realizadas até hoje.

A menos de uma semana do arranque, reina uma tranquilidade enganadora no Convento da Saudação, o epicentro do fenómeno. Não há vivalma nos 12 quartos do Centro de Residências Artísticas fundado por Rui Horta, os estúdios estão silenciosos e as zonas de convívio desertas. “O convento está vazio. É tão raro acontecer, só pelo Natal, às vezes. A PT acaba no sábado à noite e na segunda feira já temos artistas em residência a chegarem”, confirma Susana Picanço, a produtora executiva que garante que nada falta aos artistas das cerca de 70 residências anuais do EdT. Para ela a maratona começou nos primeiros dias de janeiro, quando convidou a rede de amigos locais da estrutura a abrir a casa aos participantes da Plataforma – 10 ao todo, com a dela incluída, a que se juntam quartos alugados a particulares e nos hotéis da zona. O quebra-cabeças do alojamento junta-se ao das 250 refeições por dia (nem todos os participantes permanecem os 4 dias), uma alegria para a economia local e uma logística complexa que acomoda estômagos vegetarianos, carnívoros e sensíveis. “Nunca falta comida mas é difícil acertar nos gostos. Não temos cozinha e, por isso, tudo é contratado localmente, mas não há desperdício, de alguma forma tudo se aproveita”, salienta, enquanto vai distribuindo as mesas nos claustros ensolarados, lugar privilegiado de encontro e trabalho. Ao fundo, no antigo refeitório forrado a painéis de azulejo que peroram sobre o pão e a penitência, Tiago Coelho enrola o oleado que normalmente cobre o chão do estúdio e agora é necessário pôr a salvo enquanto a sala é devolvida à sua função original. É a terceira Plataforma que faz desde que assumiu a direcção técnica do EdT, e encara com fleuma a coordenação das equipas técnicas contratadas para o esforço hercúleo de montar e desmontar todo o aparato de 16 espectáculos em quatro dias. “As pessoas não dormem mas, normalmente, tudo isto acaba bem. A questão do equipamento é sempre o maior stress, a esse nível não temos capacidade para fazer uma coisa desta dimensão sozinhos. Há que recorrer aos teatros nacionais e negociar orçamentos para alugar o que fica a faltar”, sublinha, enquanto aguarda o regresso de Vasco Mósa e Jackson Lima – ausentes precisamente em missão de resgate de equipamentos – que, com Maria Ana Sousa, incansável na gestão das finanças, e Mafalda Catarro e Maria Luísa Alves, na brigada de limpeza, completam esta mini-equipa com uma tarefa gigantesca entre mãos.

Está quase tudo a postos para receber os cerca de 60 programadores estrangeiros apontados por Pia Krämer, responsável pela programação e relações internacionais do EdT – e recém-eleita presidente da European Dancehouse Network (EDN), a segunda maior rede de estruturas de dança a nível mundial. “Convidamos pessoas com um perfil específico e que estão mesmo interessadas, ou porque estão a planear um festival em que o foco são as artes performativas portuguesas ou porque querem seguir um determinado artista que estará na PT”, diz, no competente português construído em 17 anos de vida em Portugal, pintado com os tons alemães da língua mãe. “Nesta edição reforçamos os convites a programadores de países do leste da Europa, uma decisão – que é também política – de juntar sul e leste europeus, para activar esta linha em termos de comunicação entre artistas e programadores, para abrir mais o leque das possibilidades”.

Intervenção, abertura, partilha e activação são conceitos base desta Plataforma que Rui Horta pensou em 2008 como barragem contra a crise e o estiolamento e, com o esforço de várias vontades, ergueu em 2009 como trampolim para a abertura, a divergência e a internacionalização, num projecto consistente que chega agora à quinta edição. “Isto dá muito trabalho, custa muito dinheiro, ocupa muito tempo, mas é crucial. Nasce de uma urgência e cresce com uma cultura de acolhimento que está enraizada na forma como trabalhamos: os espectáculos são fantásticos e começam à hora, as pessoas conhecem-se pelo primeiro nome, nos claustros há um ambiente que favorece a partilha e Montemor-o-Novo é uma cidade em que tudo concorre para a fruição do objeto artístico”. Com um orçamento total de 117000€ (financiado pelo EdT, DGArtes/MCultura, Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Dir. Reg. Cultura do Alentejo, Fundação Millennium BCP e pelas inscrições de programadores), a PT descende dos Encontros Acarte e continua onde a Megastore, de Lúcia Sigalho (em 2000) ou a Plataforma de Dança da Faro Capital da Cultura, de Luísa Taveira (2005) ficaram, a abrir horizontes. Foram ocasiões importantíssimas para a cena nacional, como relembra o autor, encenador e actor André e. Teodósio, mas singulares na sua frequência, ao contrário da PT: “A Plataforma é única e inexcedível na maneira como tenta angariar vários continentes e divulgar uma mostra variada com diferentes disciplinas e estilos. Que não existia antes, isto era um país muito distante dos circuitos, e mesmo os teatros operam de outro modo – (a lógica é) eu compro-te um espectáculo e vendo-te um dos meus. A Plataforma é outra coisa, é um esforço que não tem lucros, só tem despesas, empenhado na divulgação de criadores com trabalhos que têm possibilidades de circular”.

Ana Rita Teodoro, coreógrafa e bailarina que, ao contrário da Praga (presente desde a primeira edição), se estreia na PT.17 em nome próprio, desenha-lhe uma geografia exacta e emocional: “Portugal é um bocado pequenino demais para os artistas que tem, precisamos de outra escala, precisamos de dimensão. E acho que o facto de irmos lá para fora chama outras pessoas cá para dentro. E a Plataforma é um óptimo contexto de visibilidade, traz pessoas com gostos e desejos realmente diferentes e junta-os todos a olhar para as coisas”. O dramaturgo e encenador Miguel Castro Caldas, que também participa pela primeira vez na PT, faz uma análise mais cáustica, sem no entanto lhe diminuir o valor: “Esta plataforma é importante para os artistas que querem mostrar o seu trabalho a mais gente. O território português é pequeno, a lusofonia não funciona nem nunca funcionou, o circuito europeu ainda se aguenta apesar da Europa agonizar a passos vistos. O artista também procura os lugares onde o dinheiro circula porque sempre teve dificuldade em ganhar a vida, falo do artista em geral. De modo que esta plataforma oferece aos programadores internacionais o sol, a boa comida, férias pagas, e por acréscimo, o melhor do que por aqui se faz a nível de teatro e dança”. E ressalva: “É muito importante tratar-se de uma estrutura independente, e não estatal, e também é de assinalar a preocupação de reunir um júri para escolher os espectáculos que resolve programar”.

O júri, que integrou oito dos principais programadores da cena nacional, além de Rui Horta e Pia Kramer, escolheu obras muito diferentes entre si, de criadores diversos no estilo e na experiência internacional. São vários os que regressam à PT para mostrar novos trabalhos –  Cláudia Dias (que em Terça-Feira: Tudo o que é sólido dissolve-se no ar, convida o artista Luca Bellezze para o segundo tomo da aventura artística e política de criar sete peças em sete anos consecutivos), a mala voadora (com Moçambique, a vida imaginada a golpes de realismo e ironia de Jorge Andrade no país em que nasceu e que reinventou), João dos Santos Martins (com Autointitulado, projecto a dois com Cyriaque Villemaux que questiona o processo de trabalho e a memória que a dança inscreve no corpo de cada um dos criadores), Tânia Carvalho (com Glimpse – Five Room Puzzle, o dueto + 1 que desenhou a regra e esquadro para as interpretações irrepreensíveis e delicadas de Marta Cerqueira e Luís Guerra), Marco da Silva Ferreira (que com Brother continua a aprofundar as questões lançadas no impressionante Hu(r)mano, sobre a dança no contexto de grupo) ou Jonas& Lander (com Adorabilis, uma interrogação trágico-cómica sobre a natureza dos seres e do livre arbítrio, que assinala a estreia pujante da dupla formada pelos performers e criadores Jonas Lopes e Lander Patrick) – mas são também numerosas as estreias em nome próprio: Lígia Soares mostra Romance, espectáculo engenhoso na sua encenação e na relação de intimidade que estabelece com o público; Flora Détraz, que conhecemos como intérprete de Marlene Monteiro Freitas (presença assídua, que nesta PT mostra Bacantes – Prelúdio para uma Purga, extraordinária versão, livre e selvagem, da tragédia de Eurípedes), estreia-se na criação com Tutuguri – Sound Dance, um surpreendente solo em que o corpo se deixa habitar por sons que lhe empurram os limites; Raquel André apresenta também uma primeira obra carismática, Colecção de Amantes, exercício de construção de intimidades ficcionais a partir de encontros a dois; e a Plataforma 285, colectivo de dimensões variáveis, mostra Loveable, de Raimundo Cosme, um trabalho que transfere para o público a responsabilidade pelo espectáculo, com quadros que a testam (ou à sua ilusão) constantemente.

É um contingente de peso que durante quatro dias converge em Montemor-o-Novo e especialmente no Convento da Saudação, numa proximidade rara que Ana Rita Teodoro considera essencial. “A PT é também interessante a nível interno, para saber onde é que nos encontramos todos – e nos distanciamos – nas estéticas, nos conceitos, que tipo de amizades e influências temos uns com os outros. E também para nos vermos, porque às vezes andamos muito afastados uns dos outros”. A coreógrafa, que faz arrancar a Plataforma com Sonho d’Intestino&Orifice Paradis, primeiros trabalhos da sua coleção Delirar a Anatomia – uma coleção flexível com solos que podem funcionar de forma independente (a que se juntam agora duas novas criações, no Festival Nova – Velha Dança, inventado e programado por João dos Santos Martins) – entende que as suas “partituras-poemas que são uma espécie de monólogo interior de um bailarino” são partilháveis no seu processo, e não apenas no palco ou em vídeo. “Neste contexto (da PT), os programadores tornam-se cúmplices de um trabalho artístico que está inserido num determinado universo. A minha expectativa vai nesse sentido: encontrar pessoas que possam estar interessadas naquilo que eu faço – não só na peça em si enquanto objeto fechado e distante mas também enquanto trabalho que faz parte do meu universo artístico. Para mim essa é a real importância da Plataforma: o verdadeiro encontro que ela proporciona”.

Os desejos e expectativas de António Torres, outro estreante na PT, apontam no mesmo sentido: “Espero que esta participação seja uma ferramenta de valorização do trabalho feito, não apenas pela possibilidade de o mostrar fora de Portugal mas também pelo confronto de ideias com outros criadores e programadores. A dança é um campo vasto, um espectáculo pode significar uma coisa para mim e outra, completamente diferente, para outra pessoa. E isso interessa-me muito”. Outro em Mim que Eu Ignoro é a sua primeira criação, partilhada com Ana Jezabel (com quem co-criou também a peça A importância de ser (des)necessário, estreada este ano no GUIdance) e volta a dançá-la, na Plataforma, num momento crucial do seu percurso: “estou a lançar-me num solo e espero cruzar-me com pessoas que se sintam tocadas pela minha linguagem e estética e se interessem pelo meu trabalho, e por esta espécie de momento a seguir”. A estreia na PT é dupla e inclui também We Are NOT So Pretentious, uma co-criação com Maurícia Neves e Bárbara Carlos – projecto que aborda a pornografia, o cristianismo e o fitness sob o filtro de um barroco adulterado -recentemente partilhada em final de residência artística no Espaço do Tempo e que Rui Horta e Pia Krämer entenderam alargar a uma plateia especializada na P+. “A partir do momento em que és visto por meia centena de programadores a tua vida muda. Mas é sempre um risco, pode correr bem e pode correr mal”, avisa Horta, que criou esta espécie de programa paralelo à própria Plataforma, para dar a ver – com as ressalvas devidas a trabalhos ainda em processo – novíssimos criadores. Burn Time, uma instalação luminosa e performativa de André Uerba, e Box, uma colecção de preciosos gestos coreográficos que inaugura uma nova vertente da obra de São Castro e António Cabrita, completam as propostas da P+.

Num momento de intensa criação nas artes performativas em Portugal, a edição que assinala os 10 anos da Plataforma é fortíssima em termos de conteúdo e diversidade, e a vários níveis arriscada na aposta perante uma plateia internacional. Se é verdade que espectáculos sem qualquer texto não são garante de compreensão ou empatia ou adesão perante uma plateia que não fala (e pensa) português, propostas que vivem da palavra requerem um empenhamento extra. É o caso de Se Eu Vivesse Tu Morrias – peça vencedora do prémio SPA para Melhor Texto Português, extraordinária no jogo de múltiplas leituras que exige a partir de um livro-objecto e do primoroso trabalho de actores –, como sublinha Miguel Castro Caldas, seu autor: “(Este espectáculo) implica um esforço grande de tradução, paginação e publicação de um livro caro (que faz parte do espectáculo) e ensaios não pagos com os actores. Tivemos o apoio da Culturgest (co-produtora) e do Espaço do Tempo para parte desta façanha. O resto foi o nosso esforço. Mas achamos que vale a pena.” O mesmo investimento em esforço que Lígia Soares ou Raquel André ou Paula Sá Nogueira (com a Plataforma 285), revelam nos solos/monólogos que levam à PT, ou na tradução de Despertar da Primavera – trabalho de imensa reinvenção do original de Frank Wedekind que José Maria Vieira Mendes transporta para uma espécie de novílingua e o Teatro Praga encena com feérie e justeza – a começar pela decisão de entregar os principais papeis a novíssimos e extraordinários actores.

Outros trabalhos começam mesmo do zero a cada representação – como Gatilho da Felicidade, criação de Ana Borralho e João Galante com jovens-adultos da comunidade local, a partir de questões sobre a felicidade. “É sempre um elenco novo, sempre um encontro com pessoas novas e histórias novas. Trabalhamos uma semana com os jovens performers e é sempre diferente. Na PT o trabalho vai ser feito em português, com um sistema sonoro de tradução simultânea”, conta a dupla, que participa na mostra pela terceira vez. “No primeiro ano em que participamos não tivemos grandes resultados, no segundo já tivemos mais vendas. Nunca percebemos bem a razão que faz uma performance vender ou não, sabemos que, por vezes, a nossa obra se encaixa (devido a trabalharmos frequentemente com comunidades locais) dentro de interesses de alguns programadores, festivais e espaços em apresentarem trabalho que se insere dentro de determinados programas estéticos, políticos, sociais… mas isso também não é sempre linear. Na verdade, somos quase sempre surpreendidos quando uma obra nossa começa a circular bastante, internacionalmente. Mas é muito claro que as possibilidades de venda aumentam quando tens a oportunidade de ser apresentado num local com esta quantidade de programadores juntos a verem o teu trabalho”, reflectem os criadores (que são também programadores do Festival Verão Azul).

E André e. Teodósio que, com o Teatro Praga, participou em todas as edições da Plataforma, alarga a leitura à macro-escala: “mesmo se não vendes um espectáculo na PT, se não há programadores imediatamente interessados no teu trabalho, há um conhecimento que ultrapassa os vídeos que atafulham os computadores dos agentes. Passas a ser uma referência para esses agentes que, por sua vez, a divulgam. Passas a estar inscrito nas referências internacionais e isso é precioso. Para nós é um prazer e uma honra poder participar, sempre, e contribuir para o não enclausuramento do sistema. Porque além das vendas, há também um valor simbólico que não é mensurável em dinheiro mas sim na libertação de uma ideia de uma arte nacional anacrónica ou não interessante”. Foi esta dimensão revitalizadora e libertadora que Rui Horta sonhou para a Plataforma Portuguesa de Artes Performativas – “Não estamos na cauda da Europa ou num país periférico, estamos no centro de três continentes. Se crias uma águia num galinheiro ela pensa que é uma galinha, só no dia em que a deixas voar é que ela percebe que é uma águia”.

Nota: Versão completa do texto originalmente publicado no DN de 6.6.17.

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