Queer Lisboa – Entrevista

Entrevistámos João Ferreira, director Artístico do festival Queer Lisboa, que decorre em Lisboa, no Cinema S. Jorge, de 20 a 28 de Setembro.

queer-lisboa-17---325x325Qual o balanço que fazem dos 17 anos de actividade que já levam?
O Festival passou por muitas fases. Diria que os primeiros três anos foram os de afirmação da pertinência deste Festival, tendo-se programado sobretudo retrospectivas, mostrando um pouco da história do cinema queer e da representação da homossexualidade no cinema. Seguiu-se depois um período de afirmação de uma identidade própria, que coincidiu com a chegada a Lisboa de dois outros grandes Festivais: o DocLisboa e o Indie Lisboa. Esse acabou por ser um período conturbado, onde o Festival teve sérios cortes de apoios. A partir da 9ª edição, em 2005, foi criada a competição, que considero ser um passo fundamental, que nos permitiu, por exemplo, ter um maior reconhecimento e poder negocial com os grandes distribuidores internacionais. Foi também a partir desta altura que conseguimos o reconhecimento pleno do nosso trabalho por parte dos nossos principais patrocinadores, que se mantêm até hoje, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto do Cinema e do Audiovisual. Hoje, sinto que nos conseguimos afirmar, quer junto do público, quer junto dos patrocinadores.

Que dificuldades enfrentaram para vingar com um festival de cinema com uma temática queer, ainda não consensual na nossa sociedade?
Passados 17 anos, acredito que neste momento temos já um lugar bastante seguro no panorama cultural português. Claro que ainda existe receio, ou desconfiança, quer por parte de alguns espectadores, quer de potenciais patrocinadores, em relação a esta temática. A luta tem sido a de nos afirmarmos enquanto evento que tem por objectivo mostrar cinema de elevada qualidade, dentro da temática queer. E por isso procuramos sempre que o trabalho de programação seja acompanhado de pensamento teórico, debates e actividades paralelas que ajudem à leitura desta cultura específica e dos seus objectos culturais. No fundo, é um trabalho, quer de afirmação, quer de desmistificação.

The-Comedian-1Pensam que contribuíram para mudar a forma como o público em geral vê o mundo gay e, em particular, o cinema?
Acredito que sim. A sexualidade gay foi alvo durante décadas de uma série de preconceitos e ideias feitas. O Cinema Queer, particularmente a partir do início da década de 90, tem vindo a fazer um trabalho importante no sentido de levar a um público alargado a vivência dos indivíduos que vivem a sua sexualidade fora das normatividades vigentes. Curiosamente, acredito que o cinema que mais tem contribuído nesse sentido, não foi aquele que procurou “limpar” a imagem de gays e lésbicas – de alguma forma, retirando-lhes o lado sexual –, mas sim aquele que representa estes indivíduos na sua dimensão completa, ou seja, sem as restrições de uma agenda política.

Como evoluíram os apoios que o festival tem tido? Sentem alguma dificuldade nesse aspecto?
Há sempre dificuldades nesta área. Mas as coisas melhoraram muito ao longo dos anos. Em termos de apoios institucionais, temos tido apoios sólidos da Câmara Municipal de Lisboa e do Instituto do Cinema e do Audiovisual. A grande batalha continua a ser a angariação de apoios privados. Salvo honrosas excepções, que nos têm acompanhado nestas últimas edições, existem ainda muitas marcas que receiam ver-se associadas a um evento de temática queer.

Interior.-Leather-BarO que destacaria na edição 2013 do Festival?
Um dos destaques desta edição é, sem dúvida, o documentário – ou falso documentário –, Interior. Leather Bar, realizado por James Franco e Travis Mathews. O filme procura imaginar o que teriam sido os 40 minutos censurados da versão final do Cruising (1980), de William Friedkin, imagens entretanto perdidas. Trata-se de toda a sequência passada num bar gay S/M, que incluiria cenas de sexo explícito. Ainda na Competição para o Melhor Documentário salientaria o Uncle Bob, por ser um documentário que habilmente volta o seu foco do objecto do filme para o próprio realizador, sendo que o dispositivo usado é muito eficaz, passando pela quase reincarnação do tio – objecto –, pelo corpo do sobrinho – o realizador. Da Competição para a Melhor Longa-Metragem, destacaria o The Comedian. O filme conta a história de um performer de stand-up a viver no East End londrino, e do seu início de uma nova relação, com um jovem artista. O filme assenta sobretudo no trabalho do actor Edward Hogg, recorrendo muito à improvisação. O resultado final é um objecto muito interessante e de uma enorme intensidade dramática e humana.

Mais informações sobre o Festival em http://queerlisboa.pt/

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