Ricardo Simões (Teatro do Noroeste) – Entrevista

ricardosimoesEsta semana “viajámos” até Viana do Castelo para conversar com Ricardo Simões, Diretor Artístico do Teatro do Noroeste. Abordámos, entre outras questões, as dificuldades que atravessa, a ligação com a comunidade local, e o que o futuro reserva.

Nos últimos anos o Teatro do Noroeste passou por algumas alterações e por um período mais conturbado em termos de apoios estruturais, o que retiraram dessas dificuldades, e de que maneira é que isso influenciou o trabalho criativo da companhia?
O Teatro do Noroeste – CDV encontra-se numa “travessia do deserto” desde 2012, ano em que deixou de contar com qualquer apoio do Governo, exceção feita para a Câmara Municipal de Viana do Castelo. Vivemos por isso num ambiente de constante provação, incerteza e sobrevivência numa lógica de auto-exploração de quantos trabalham na Companhia. Apesar disso, a Companhia conseguimos manter-nos em atividade e até mesmo aumentar e diversificar os índices de público. Não fazemos ainda a programação que gostaríamos, força das vicissitudes orçamentais, pois dependemos excessivamente do número de bilhetes que conseguimos vender e só quem é deste setor sabe como isso pode prejudicar algumas opções artísticas. Mas contamos com uma equipa que alia juventude e experiência, que trabalha sem olhar para as horas de forma coesa e motivada. Esperamos que, em 2017, a anunciada reforma para o setor das artes possa devolver ao Teatro do Noroeste – CDV a possibilidade de concorrer, em condições de equidade, aos próximos financiamentos. Até lá, resta-nos sobreviver, e acredito que o Teatro do Noroeste – CDV vai continuar, até porque as pessoas passam mas as instituições ficam. E assim deve ser, de resto.

Como se processa a ligação do Teatro do Noroeste com a comunidade local?
Desde sempre orientada para o desenvolvimento de públicos para o teatro, a Companhia tenta apresentar, anualmente, espetáculos dedicados a todos os ciclos de ensino, assim como aos cidadãos e localidades com mais dificuldades de acesso à fruição cultural. Pode dizer-se que o Teatro do Noroeste – CDV trouxe e semeou no Alto Minho as bases para a atividade teatral tal como a conhecemos hoje.

Para além disso, a nossa ligação à comunidade local faz-se também através da promoção e funcionamento de uma rede cultural de associações culturais do Alto Minho, denominada TEIA, e ainda através da dinamização de oficinas regulares de teatro para adolescentes e seniores. Estas oficinas integram o nosso Projeto Comunidade e abrangem o ATIVAjúnior – Oficina de Teatro com Jovens, o ATIVAsénior – Oficina de Teatro com Seniores e o Enquanto Navegávamos – Oficina de Teatro com Ex-Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. A primeira integra vinte adolescentes entre os 13 e os 17 anos de idade, a segunda abrange vinte seniores cuja condição para pertencer ao grupo é ser aposentado e a terceira conta com cerca de dez elementos e que tem a particularidade de ter nascido de «geração espontânea» depois de, em 2014, termos feito um espetáculo sobre os antigos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Quais as vantagens e dificuldades de se trabalhar cultura em Viana do Castelo?
As mesmas que trabalhar cultura em qualquer outra cidade que não seja Lisboa. Para o melhor e para o pior. O centralismo do nosso país alimenta dinâmicas que tendem a concentrar tudo na capital e a secar tudo à volta. Sempre que vou a Lisboa, tenho a sensação de ter viajado para uma outra cidade europeia e, quando regresso a Viana do Castelo, sinto que voltei a Portugal. Quero com isto dizer que continuamos a ter um país a duas velocidades e para quem não está em Lisboa, a começar por questões tão prosaicas como a rede de transportes públicos, tudo são dificuldades. Sabia que a viagem por transporte público mais rápida entre Porto e Viana do Castelo, para assistir a um espetáculo, por exemplo, demora no mínimo uma hora e meia, para uma distância que um suburbano de Lisboa ou mesmo do Porto faz em cerca de quarenta minutos?

teatronoroeste
Qual a medida que consideras essencial implementar no actual panorama cultural?
Continuar a regulamentar o setor do espetáculo em todas as suas vertentes e, ao nível dos apoios públicos, levar a cabo uma reforma que projete uma política para as artes portuguesas que seja “blindada” contra os ciclos eleitorais e as alternâncias governamentais. É preciso apostar nesta geração altamente qualificada de criadores. Não podemos continuar a olhar para o tecido artístico português com os mesmos olhos do século passado: os atores, os técnicos, cineastas, coreógrafos já não chegam às artes maioritariamente pela via empírica. Existe um setor académico de formação artística que tem que ser parte da equação. É preciso pensar em criar espaços e possibilidades para aquilo que poderemos chamar de “mercado artístico”. Afirmo-o sem qualquer reserva mental. Trata-se da criação de possibilidades para que o maior número de profissionais das artes possa exercer o seu ofício. Implementar-se a expressão dramática e corporal nos currículos de ensino, para termos mais saídas profissionais para os alunos das licenciaturas em teatro e dança; reorientar algumas destas licenciaturas para a via ensino, enfim… Creio que há muito a fazer, sem embarcar em catastrofismos, para o desenvolvimento deste setor.

O que podemos esperar do Teatro do Noroeste em termos de projectos futuros?
Dia 6 de dezembro assinalaremos 25 anos de atividade, e vamos celebrar com a inauguração, às 18h00, de uma exposição com curadoria de Paula Anjos, retrospetiva dos 25 do Teatro do Noroeste – CDV e que estará patente em diferentes espaços do Teatro Municipal Sá de Miranda. Às 21h30 estrearemos a nossa 130ª criação, “Bodas de Sangue”, de Federico Garcia Lorca, com um elenco de mais de 40 atores e músicos. O espetáculo estará em cena de 6 a 17 de dezembro, de terça a sexta-feira às 21h30 e aos sábados, com duas representações: às 16h00 e às 21h30. Olhando ainda mais para a frente, estamos a tentar apresentar uma programação para o ano 2017 e não apenas para três meses, como estamos obrigados a fazer desde que não contamos com apoio do Governo. Será o ano dos 25 anos e gostávamos de quebrar esta lógica altamente precária de não sabermos em janeiro o que podemos fazer em abril. Estamos a trabalhar em conjunto com a Câmara Municipal de Viana do Castelo e vamos ver, como sempre, o que é possível.

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