O silêncio é o sal da escrita em construção

Por Andréa Zamorano

Sem o sal os nossos corpos perderiam o balanço eletrolítico e murcharíamos como uma uva passa esquecida num cantinho esconso da sala depois de uma movimentada noite de consoada. Nossas células precisam de sal. O sal ou cloreto de sódio, se quiserem rigor científico, é um importante controlador das substâncias que entram e saem do nosso corpo. O sal aumenta os movimentos peristálticos dos intestinos, contribui para uma boa digestão, facilita a produção de energia, auxilia no funcionamento renal. O sal é vital para a nossa sobrevivência.

Mas para mim, o silêncio não é apenas o sal. É a flor de sal. A fina camada que brota nas salinas, naturalmente aflora, quando as leis da física junto com um vento muito suave convergem num momento onde as condições atmosféricas, a temperatura e a radiação solar elevadas fazem nascer os cristais esbranquiçados, flocos frágeis na superfície da água de um tanque, imitando a espuma do leite no café.

No nordeste do Brasil, em Mossoró, no Rio Grande do Norte, depois da colheita, os flocos ocos vão para um balaio de vime grande. Em Tavira, nas fazendas de sal de Rui Simeão, os homens pescam a flor de sal com uma rede. Nesses dois lugares, o sol é amigo do sal, secando-o ali mesmo, a céu aberto sem lavagens, nem segredos, só delicadeza.

Se por cada quilo de flor de sal produzido são necessários oitenta quilos de sal tradicional, então, para mim, o silêncio é mais. O silêncio é a flor de sal defumada que brota nos pequenos tanques de argila na Normandia. Nas águas francesas, repletas de uma alga única, a flor de sal não é caiada, é rosa e nasce da noite, da variação de temperatura para o dia. Os homens chegam pela alvorada e, antes que tudo se perca, colhem as flores que depois vão ficar esquecidas meses em barris de carvalho, os mesmos barris usados para envelhecer o vinho. Ali, com as madeiras nobres que queimam muito lentamente, a flor de sal perderá para sempre a sua cor pálida, será morena como todos os dias de sol.

Este é o meu silêncio, um produto raríssimo de obter, quase um capricho das mesmas leis da física que fazem nascer a flor de sal. O meu silêncio só é obtido depois de meses em barris de carvalho. Uma raridade que quase nunca acontece na minha vida e que quando existe vem em pitadas avarentas.

Desde sempre a minha vida é povoada de barulho como todas as vidas dos subúrbios. De onde venho, as pessoas gritam umas pelas outras na rua; colocam o alto-falante na janela para elas e o bairro todo apreciarem a mesma canção; até o Senhor Lourenço, quando assiste a missa na televisão, fá-lo num volume discotecário, espalhando as bênçãos indesejadas pelo prédio todo.

A minha vida está cheia das vozes dos meus filhos a percorrem a casa, dos berros que perguntam onde há cuecas, das portas que batem quando discutem entre elas, das gargalhadas juvenis a assistirem os vídeos do Vine. A minha escrita é constantemente invadida pelos latidos da minha vira-lata com nome de imperatriz – Teodora – az um escândalo cada vez que ouve o elevador parar no nosso andar; ou então quando na varanda da sala, avista outro cão a passear-se pelo jardim lá em baixo, em frente à nossa casa. Jardim que Teodora está convencida ser exclusivamente seu, uma espécie de extensão do nosso apartamento e do seu território. A minha vida está repleta com meus os funcionários que me chamam a cada instante com as crises mais imperativas das suas existências. Mas também com os telefonemas dos clientes: querem saber o preço das refeições; perguntam pela mesa mais romântica; se podem levar um bolo de aniversário; se há vagas para jantar. A minha escrita é preenchida pelas interrupções do meu marido, que nunca sabe onde está absolutamente nada, mas é capaz de saber muito bem onde deve estar na minha vida. Se o silêncio é o sal da escrita em construção, desconfio então que o meu processo seja próprio para hipertensos. Não porque prefira um mundo insosso mas porque são assim as paixões: turbulentas e ruidosas.

Adolescentes, marido, filho, filhas, cadela, funcionários, clientes, contas, finanças – como há barulho nas finanças – todo o meu entorno quer demais de mim; talvez seja melhor dizer, quer-me demais. Mas não me importo, é assim o meu silêncio: barulhento e quase sem sal.
Na minha escrita, as dunas brancas de sal que enchem de silêncio a paisagem de Cabo Verde são uma miragem, uma ficção. Quem sabe um dia não escreva um conto, um poema, talvez só um verso, onde o silêncio pudesse ter acontecido.

Mesmo dentro de mim, ouço as palavras gritando. Clamam pelo meu nome, como se só eu fosse capaz de as libertar do silêncio onde estão presas. Às vezes, escapam-se à socapa, vejo-as a surgirem na voz de um cliente ou de alguém que ia a passar na porta do meu restaurante. Oferecidas, as palavras pavoneiam-se. Ribombam por outras bocas só para captar a minha atenção. Para me seduzir, querem ganhar forma, ali mesmo, à superfície da folha, como a flor de sal na água do mar.

Então sento-me à mesa do restaurante, em frente ao balcão, onde sou capaz controlar a sala e todo o resto só com o olhar e entre um cliente, uma conta, um telefona, uma filha que chama, a cadela que ladra, o marido apressado, um vizinho surdo, um funcionário que esqueci que chegaria atrasado naquela manhã, eu congelo o instante. Suspendo toda a ação à minha volta, faço minhas as palavras sem esperar benevolência nenhuma do silêncio ou pitada de sal, apenas escrevo.

Andréa Zamorano
Andréa Zamorano nasceu no Rio de Janeiro e vive há tantos anos em Portugal quantos os que viveu no Brasil. A Casa da Rosas é o seu primeiro romance, foi publicado em Portugal em 2015 pela prestigiada editora Quetzal e foi lançado no Brasil em Julho pela Tinta Negra Bazar Editorial. A obra foi vencedora do Prémio Livro do Ano pela Revista TimeOut Lisboa.
A sua escrita é resultado das suas vivências nas duas variantes da língua. Sem as fronteiras impostas pelo formalismo, a língua portuguesa em que escreve é um caso singular de hibridismo.

Uma escrita livre, ritmada, sem preconceitos linguísticos, com a coexistência das linguagens e referências portuguesas e brasileiras – Revista Visão

Cursou Língua e Literaturas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da UFRJ e licenciou-se em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa. Frequentou o Mestrado em Literatura Comparada na Universidade de Lisboa.
Tendo trabalhado na área da Comunicação Empresarial em diferentes multinacionais, é atualmente proprietária de restaurantes em Lisboa, entre os quais, a famosa Hamburgueria Gourmet – Café do Rio.
Assina ainda a coluna chamada “A Casa da Andréa” na revista Blimunda da Fundação José Saramago. 

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Novembro de 2017.

Foto de Ben White.

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