Sofia Ângelo – Entrevista

© Raul Pinto

Sofia Ângelo apresenta este mês a sua 12ª encenação, “Qué frô”. Trabalha há vários anos com o Teatro Carnide, e nesta entrevista fala-nos do seu percurso, deste espectáculo, do seu trabalho com actores, e do que faria como Ministra da Cultura.

Qué frô é a tua 12ª encenação. Fala-nos um pouco do teu percurso artístico?
O meu percurso artístico teve o seu início no Cendrev – escola de atores, em Évora, passado três anos de aprendizagem, fui trabalhar  enquanto atriz com algumas companhias no norte e sul do país,  a minha curiosidade, e o meu interesse levaram-me para uma vontade em  viver experiências novas, procurar novas respostas  a inquietudes artísticas ligadas à prática teatral. Sempre criando micro peças entre outras produções a par da representação,  senti que tinha que aprofundar e desenvolver mais competências do ponto de vista criativo, pois sempre senti que um ator deve ser um criador em cena. Decido posteriormente ingressar num curso em Barcelona de interpretação e mais tarde, entro na escola superior de Teatro e cinema.
Após a conclusão da licenciatura, e pelo estímulo criativo que fui recebendo começo a intensificar a minha produção textual de peças para teatro, onde fui sendo eu própria a encenadora dos mesmos. Fiz várias encenações, encomendas, festivais, eventos,  e com o tempo fidelizei-me a um projeto que é o Teatro Carnide, companhia que atualmente dirijo artisticamente, entre aulas, projetos comunitários e criações.
Fui estabelecendo a minha direção num caminho de criação por via dos atores  com quem que trabalho. São os atores e os meus alunos, adolescentes e adultos , os verdadeiros emissores de criatividade.

Como é trabalhar com o Teatro Carnide?
Trabalhar com o Teatro Carnide foi, é e tem sido uma experiência gigante de criatividade e autonomização, num percurso desejado de fomentação regular na aposta em práticas artísticas inovadoras, foi a companhia que me projetou  no meu desejo de criar de forma emergente novas dramaturgias, que considero essenciais para a conquista de novo públicos, mais inquietos e reflexivos.

Quais os temas que mais estão presentes no teu trabalho?
O amor, a capacidade de amar ou não amar.
A partir dessa dúvida são gerados todos os temas. Acredito que todos os temas  partem do ser humano –  a construção ou destruição ligadas às suas relações sociais gerais e particulares.
Inevitavelmente os meus temas surgem do quotidiano que na sua interpretação cénica servem paralelismos necessários à reflexão, nada do que é institucionalizado e formal parte do geral, parte sempre do particular. A sociedade é uma casa pequena com hierarquias concretas e funções muita claras.  O que pode fazer com que essa casa funcione como uma pólis é a nossa capacidade de amar ou não amar. Não existe nenhuma obra, peça, criação que não parta dessa questão.  Seja pela tolerância na diferença, ou por uma maior consciência da igualdade de oportunidades.

O que procuras num interprete?
Considero que aquilo que mais se aproxima de um interprete é capacidade de tornar ágil e comunicativo algo que ainda está desenhado, inscrito mas não revelado, nesse sentido o intérprete cria a partir de uma partitura, de uma ideia, de um desafio, um interprete é sempre um criador com referências, o que procuro num interprete é que este parta dos seus recursos, consiga nomeá-los e sistematizá-los na sua construção cénica tendo em conta a dramaturgia do espetáculo.

© Roger Madureira

O que podemos esperar do espectáculo Qué frô?
O espetáculo Qué frô será sempre um espetáculo em construção, o que poderemos esperar dele são perguntas que cada espetador, espero eu, faça. Existe uma empatia inequívoca do espetador com este espetáculo mas mais do que isso, a minha expectativa é que nos possamos rever emocionalmente no Qué Frô, como se de uma  radiografia se tratasse, em que a fotografia não é clara, mas que de certa forma nos pertence e nos identifica.

Qual a tua primeira medida se fosses Ministra da Cultura?
A criação de polos culturais, multidisciplinares, nos quais as práticas teatrais se relacionassem com outras práticas artísticas, performáticas e plásticas, para que dessa forma pudessem trabalhar sinergicamente integradas. Estes pólos seriam espaços embrionários e laboratoriais com vista às práticas artísticas com ofertas culturais diversificadas,  e protocolos assumidos com entidades e instituições de ensino, e  de solidariedade social. Acredito que a educação não formal  vai ao encontro de uma crença que vive comigo há já muito tempo a de que o teatro só pode ganhar quando se unir de forma integrada a outras artes.  De resto não existe qualquer teatro, peça, obra, ensaio que não implique a ligação de todas as outras artes, música, dança, pintura, escultura, etc.
Serviria  assim esta integração para promover uma verdadeira  cultura de pessoas para pessoas, tornando-a  mais acessível e menos mercantil.  Permitindo a fruição de mais pensamento crítico sobre o que vemos e sentimos perante um objeto artístico, na medida em que este nos devolve ferramentas de atuação perante a sociedade em que vivemos.

O espectáculo “Qué frô” está em cena no Teatro Carnide de 20 a 30 de abril de 2017.

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