Tom Jobim em 1992: “Na cabeça eu continuo menino”

Publicado originalmente na revista Máxima de Dezembro de 1992.

A “Garota de Ipanema” é dele. E também “Chega de saudades” e o “Samba de uma nota só”. Tom Jobim, de parceria com Vinícius de Moraes, foi considerado o pai da bossa-nova, esse movimento renovador que projectou a música brasileira nos palcos do mundo. Pela primeira vez em Portugal, este verão, em concerto dado nos Jerónimos, o compositor falou-nos longamente de si, da sua música, no Brasil e, sobretudo, da natureza. Um homem de talento e humor que conhece mais de uma vintena de diferentes cantares de pássaros.
Por Leonor Xavier
Fotografias de Marcelo Buainain

A Música e a Natureza, em harmonia no duplo motivo para a sua primeira viagem a Portugal, seriam as palavras essenciais para a introdução a uma das grandes personalidades do nosso tempo.

O nome de Tom Jobim inundou de repente a cidade, nos cartazes que anunciavam o concerto a 11 de Setembro. Sexta-feira de lua cheia, nenhum outro cenário poderia inventar-se melhor do que Lisboa para o esperado acontecimento. Além dos acordes de música que conhecemos, iria ouvir-se a composição estreada no Rio de Janeiro em Junho, com a Eco-92. Ao som do piano, haviam de acrescentar-se os instrumentos e vozes da Banda Nova, unidos os nomes Jobim, Morelembaum, Caymmi numa actual geração de famílias de músicos brasileiros, a arte corre nas veias.

Dinastia Jobim de música, com Ana Jobim, mulher de Tom, e Elizabeth Jobim, sua filha, no conjunto de cinco vozes, e Paulo Jobim, seu filho mais velho, no violão.

Na ante-véspera, era na Embaixada do Brasil apresentado o livro “Floresta de Tijuca”, com fotografias da Ana Jobim, Frans Krajcberg, Pedro Vasquez. Os detalhes da vegetação, os tons do mato a envolver o Rio de Janeiro, a ameaça do fogo e do fim. E a escrita de António Carlos Jobim, a introduzir a proposta das imagens: ”

…E porque existem muitas maneiras de amar sem matar
Como fazem os fotógrafos a quem dedico estas mal-traçadas, caprichadas linhas
Estas cem traçadas minhas, já que dez traçadas tinhas
Te espero no chão macio da
Floresta
Com amor
Com carinho
com floresta e passarinho”

Conta-se de Tom Jobim que uma vez no Rio, em resposta geral às perguntas ansiosas de um repórter, lhe disse: “Não me peça para falar, porque eu escolhi a música justamente para não falar”. No tempo presente, em Lisboa, as palavras que ele vai desfiando ao longo de circunstâncias diferentes recusam uma etiqueta formal de entrevista, e tomam por isso um sabor maior, na Brasilidade imensa de Rio de Janeiro que lhe explode, por todos os poros.

Contar de Tom Jobim ou escrevê-lo, em qualquer forma ou estilo, acaba por ser um bordado de histórias, de frases musicais, de ambientes que se vão tecendo, ou não fosse ele entendido no mundo inteiro como um dos mitos vivos do nosso tempo. Nada, por isso, se deveria acrescentar ao perfil de António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim além da sua data de nascimento na Rua Conde de Bonfim, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, a 25 de Janeiro de 1927, e das suas artes como maestro, compositor, violinista, flautista, ou como dotado por Deus e entendedor da Natureza.  De seus dois casamentos e quatro filhos – com Thereza, mãe de Paulo, 42 anos, e de Elizabeth, 35 anos, e com Ana, mãe de João, 13 anos, e de Ana Luísa, 5 anos.

Um homem simplesmente boémio

Mas, para efeitos contemporâneos, e pelas notícias de quem no Rio de Janeiro conhece António Carlos Jobim, ele é um homem simples e sensível, boémio e irreverente, conversador de prosa comum mais do que de discursos formais.

Para quem já alguma vez na vida o assistiu a passar os dedos no piano e o seguiu no embalo da melodia, Tom Jobim é o talento a marcar uma hora de nascer. Para a cultura universal é um nome entranhado na música que se conhece e de memória se entoa, em arrepio de pele. Para os iniciados em ciência de gravação de discos, será ele um compositor titular de uma das maiores arrecadações de direitos autorais nos Estados Unidos, sem falar da ordem de grandeza quem em seu nome vai escorrendo pelos países entendidos do mundo.

Valores indefiníveis hoje, quando de fonte segura sabemos que, há vinte anos atrás, recebia o poeta Vinícius de Moraes uma parcela de dez mil dólares em Nova Iorque pela letra de “Garota de Ipanema”, no máximo metade da quantia então atribuída ao compositor da música, António Carlos Jobim. Com venda superior a um milhão de discos, “Garota de Ipanema”, nascida em 1962, logo consagrada como o maior sucesso internacional da parceria Vinícius/Jobim , era em 1990 a quinta canção mais tocada no mundo desde sempre, com mais de três milhões de execuções. Além de “Garota de Ipanema”, ele tem mais seis composições executadas pelo menos um milhão de vezes. Quem nunca ouviu “Águas de Março”, ou “Samba de Uma Nota Só”? Ruy Castro, autor do livro “Chega de Saudade”, diz que, em popularidade, só os Beatles ultrapassaram Tom Jobim. Ao que Tom responde: “pois é, mas eles são quatro e cantam em inglês…”

Entre umas e outras histórias desfiadas de Tom Jobim, há o balanço de uma vida, em que tudo o que se conte, quase tudo fica por contar.  Explica o diminutivo e a pronúncia: “Tom como os franceses dizem Gaston, não é nome americano, é um apelido, como a gente chama, foi inventado pela minha irmã pequena, loirinha, de olho azul”.

O medo de andar de avião

Chegou a Lisboa pela primeira vez de noite, desembarcado de um avião arrasador, já que as viagens de avião são o pânico da sua vida, e assim obsessivamente as costuma evocar como agora: “Tenho viajado muito, eu quero parar de sair do avião”. Vinha de Sevilha, tinha havido um desencontro de embarque com os seus companheiros, e o calor andaluz de quarenta graus ficava para trás, sofrido. Como cartaz absoluto em concerto na Expo 92, Tom Jobim acabava de celebrar em glória a data de 7 de Setembro, dia da Independência do Brasil. Aeroporto, bagagens, gente a esperá-lo, fotografias e imprensa, e o desejo absoluto de Portugal, pausa de sossego na espera do encontro marcado no Mosteiro dos Jerónimos, em música.

O outro dia de acordar era de transparências, como se uma intenção invisível quisesse oferecer-lhe a luz perfeita da cidade, em cores de Tejo. Recorda a imagem única, fugaz, de outra época: “Foi em 1969, eu vinha do Brasil e o avião fazia uma escala em Lisboa, tive vontade de ficar, e olhei o Tejo…” Simplesmente, sem benefício de dúvida, justifica ser esta agora a sua primeira passagem firme em Portugal: “Nunca me chamaram antes” – jogo de espírito, brincadeira, temor de viajar longe – diz das raízes Portuguesas do seu sangue: “do Douro” – acompanha-se de um gesto largo – “todo o brasileiro vem de família portuguesa…” – confessa o bem-estar sentido: “eu morava aqui três, quatro anos!” – o prazer de se exprimir na sua própria língua, sem precisar de tradução.

A paixão pelos bichos

Fala do livro em que a sua mulher, Ana Jobim, é uma entre os cinco fotógrafos brasileiros a flagrar o verde que envolve o Rio. Lembra o Jardim Botânico, a Floresta da Tijuca, a inspirar-lhe a arte. Entusiasma-se pelo tema. É conhecida a sua paixão pelos bichos e plantas, sabe-se que distingue e recria em música o canto dos passarinhos, indigna-se com os atentados à Natureza: “Já em 1947 eu fazia música contra a queimada do mato. A Amazónia está sendo destruída! Para se queimarem as árvores, tem de haver uma técnica, derrubá-las, esperas um tempo mais seco que não existe, vê-se madeira de lei fazendo carvão. Há fornos de tabatinga para queimar a lenha, abafá-la, tirar dela o carvão!” Faz comparações entre hemisférios e climas, ordenação do Primeiro Mundo e abundância do Brasil: “Mais ainda do que pela Amazónia, sou apaixonado pela Mata Atlântica, onde o mato tem milhares de espécies de pássaros. O norte da Europa ou o Canadá têm bosques interesseiros, é sempre a mesma coisa, tudo plantado com números…”

Não teria fim a expressão das ideias sobre o tema, se Tom estivesse sentado à volta de uma mesa entre amigos, no Rio. Talvez ele contasse de viva voz que durante muito tempo foi uma voz isolada em defesa da Ecologia, antes de existir a causa em movimento. Que é capaz de conhecer e imitar o canto de mais de vinte espécies diferentes de aves, ou que “o urubu caçador dorme na perna do vento”, e se pode chamar jereba. Talvez ele se lembrasse de como em homenagem ao escritor Guimarães Rosa compôs “Matita Perê”, reproduzindo o pio do passarinho do sertão, e de como a música seria título do disco que gravou em 1973.

Escrever só com lápis e canivete

Reconhece, dispensando adjectivos de qualidade ao assunto, a fantástica dimensão da sua obra. Em Lisboa, sugere uma certa serenidade alcançada ao longo de uma vida tão rica de episódios. Confessa a grande influência do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos na sua formação de música clássica, e evoca o seu nome numa história simbólica de bom-humor: “O Villa-Lobos estava morrendo, quando um estudante de jornalismo lhe veio perguntar: ‘o que o senhor está compondo?’ ‘eu estou decompondo, meu filho!'”.

Simplesmente, diz: “Tenho escrito muitas canções. Tudo o que a gente faz, faz numa época, depois morre. Você faz as músicas entre o nascimento e a sua morte.  Eu tive muito poucas músicas censuradas. O tempo dá distância, certas coisas eu já não escrevia, se fosse hoje. Depois, há a idade, na cabeça eu continuo menino, fisicamente, a coisa vai passando… Os costumes mudam, eu vejo o meu neto compondo em aparelho electrónico, mexendo com botões. Eu escrevo com aquele lápis, com aquele apontador para afiá-lo, aquele canivete que vou passando nele, eu preciso de um canivete e de um lápis para poder pensar alguma coisa. E hoje tudo continua, a Música Popular Brasileira tem gente compondo, fazendo coisas muito bonitas. Apesar da crise, porque mesmo que o Império caia, a composição, a criação continua. A crise é que pode acabar a qualquer momento”.

O seu modo de falar é redondo, amplo, não se preocupa com o ordenamento apenas lógico da vontade, parece distraído mas não se perde em nenhum caminho. Naturalmente, não se julga capaz de comentar a crise brasileira por se encontrar longe do Rio e das últimas notícias, mas como bom carioca, gosta de se exprimir em tom de brincadeira, como se segurasse um copo de cerveja gelada: “A  última piada no Rio – tem aquela pergunta: What is the colour of the money? – aí, a gente diz: o importante não é the colour of money, mas sim the money of Collor...”

A vocação da pobreza

E outra, para a natureza dos países: “Se a gente ficar pensando, o Japão é um país paupérrimo com a vocação da riqueza. O Brasil é um país riquíssimo com a vocação da pobreza. Os Estados Unidos são um país rico com a vocação da riqueza, não é assim?”

Criticado por muitos brasileiros porque nos anos setenta gravava discos nos Estados Unidos, Tom Jobim mantém o bom-humor para a sua fidelidade ao Rio de Janeiro, e estende-se numa filosofia muito pessoal, a propósito: “Nova Iorque é muito frio. É preciso falar inglês, e eu estou cansado de andar de avião. Hollywood – Holly mais Wood – quer dizer mato de azevinhos, ou azevedo, dá muito trabalho, fica longe… e o que é que adianta eu trabalhar para ganhar dinheiro? Eles, os filhos, vão gastar! Além disso, não há mais nada para a gente comprar no Brasil, então a gente vai dar dinheiro para cinco mil pobres e filhos e netos e bisnetos…”

Deixa rolar mais ideias de sarcasmo, definitivamente lançado na forma viva de falar no Rio: “Não há ninguém no Brasil, a não ser funcionário público. O governo está em tudo. Se você é compositor, já está em associação, então de repente, o camarada está fazendo terrorismo com o dinheiro do Estado. E não adianta você brigar contra o poder, se vai contra a sua gravadora, já tem três andares com umas dezenas de advogados contra você, você vai virar radical, criador de problemas, vai dar-se mal!”

Volta ao pensamento sobre um exílio possível: “O facto de você ter saído da casa, da Pátria, pode dar mais curiosidade a seu respeito, como estrangeiro, você é mais acarinhado. Eu mesmo conheci o Dali em Nova Iorque, entendi isso. Mas apesar de tudo, é melhor você falar a sua língua, você morrer na sua própria língua. A minha casa é no Rio, os meus filhos, tudo”.

O começo da Bossa-Nova

Hoje sentido como “Unanimidade Nacional”, Tom Jobim usufrui do consenso de opinião sobre a sua obra no Brasil, ao lado de figuras tão raras como o poeta Carlos Drummond de Andrade ou a actriz Fernanda Montenegro. Ele recebe homenagens e títulos de honra em múltiplas capitais, apresenta-se em concertos nas salas de maior prestígio do mundo. Mas não esquece o espírito dos tempos de juventude, quando a Bossa-Nova surgiu como aventura de vida.Evoca, implicitamente os nomes de Vinícius de Moraes e de João Gilberto, os mais conhecidos entre todos os criadores da nova batida do samba: “Ao contrário do que se julga, nós não éramos gente de elite, éramos da pequena burguesia, do subúrbio, o João Gilberto era um coitado que vinha da Bahia. A gente queria poder casar, ganhar dinheiro para pagar o aluguel. Eu estudei música, piano, harmonia. Mas tive o lado da rua, o chorinho, o violão.

Cita a opinião de Caetano Veloso – “o Brasil precisa de usufruir a Bossa-Nova” – para lamentar: “infelizmente, o Brasil não pode viver a Bossa-Nova”. Sentimento que se percebe melhor, pelo fragmento de prosa do poeta Vinícius de Moraes: “Bossa-Nova é também o sofrimento de muitos jovens, do mundo inteiro, buscando na tranquilidade da música não a fuga e alienação aos problemas do seu tempo, mas a maneira mais harmoniosa de configurá-los. Bossa-Nova é a nova inteligência, o novo ritmo, o novo segredo da mocidade do Brasil: mocidade traída por seus mais velhos, pais e educadores, que lhe quiseram impor os próprios padrões, gastos e inaceitáveis”.

Compositor de olhar, Tom Jobim faz ainda uma declaração de amor ao Rio de Janeiro: “À paisagem do Rio devo muito, à contemplação dessa Natureza…” Compositor da sensibilidade, são bons os momentos da passagem por Lisboa: “Encontro aqui em Portugal um carinho que nunca encontrei noutro lugar”.

Leonor Xavier
Jornalista, licenciada em Filologia Românica, viveu no Brasil entre 1975 e 1987. No Rio de Janeiro foi correspondente do Diário de Notícias de Lisboa, colaboradora da revista Manchete e do Jornal do Brasil, redatora no jornal Mundo Português. Por duas vezes teve o Prémio de Melhor Jornalista da Comunidade Portuguesa no Rio de Janeiro e em 1987 foi-lhe atribuída a Ordem do Mérito, pelo seu trabalho sobre temas luso-brasileiros. Biógrafa de Maria Barroso e de Raul Solnado, é autora dos romances Ponte Aérea, O Ano da Travessia, Botafogo, dos ensaios Atmosferas e Portugal Tempo de Paixão, do livro de crónicas Colorido a Preto e Branco, da autobiografia Casas Contadas (Prémio Máxima de Literatura 2010), da narrativa Uma Viagem das Arábias, da ficção Doze mulheres e Um Almoço de Natal, do ensaio Passageiro Clandestino, do livro de entrevistas Portugueses do Brasil & Brasileiros de Portugal. O ensaio Peregrinação (Leya, maio de 2017) é o seu mais recente livro publicado.

Este artigo, saído originalmente na edição de Dezembro de 1992 da Revista Máxima, foi-nos gentilmente cedido pela autora Leonor Xavier, e é aqui republicado de forma a marcar o 25º aniversário do concerto que Tom Jobim deu em Lisboa a 11 de setembro de 1992.

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