Um livreiro, do século XXI, à moda antiga

Por Ricardo Viel

“Fala com o Duarte Snob, se calhar ele consegue arranjar-te isso”. É bem possível que o leitor escute esta frase caso esteja em Portugal à procura de um livro daqueles difíceis de serem encontrados nas livrarias tradicionais. Aos 32 anos, dez deles dedicados ao ofício de livreiro, Duarte Pereira já construiu certa fama e reconhecimento no universo dos “livros não óbvios” – obras editadas por pequenos selos, títulos esgotados que nunca foram reeditados, publicações que escapam ao interesse do grande público etc.

O apelido Snob vem da livraria criada em 2013 (a Snob) com a Emília Araújo, e o seu gosto por ler e conversar sobre literatura lhe proporcionaram uma rede de amigos e conhecidos espalhados pelo país. Além do prestígio como “achador” de obras raras ele também é conhecido como um bom recomendador de leituras. É frequente que faça – virtual ou pessoalmente – sugestões de títulos. “O que costumo fazer é falar um pouco com a pessoa, saber o que ela já leu e gostou, perceber se ela quer arriscar um pouco ou prefere se manter na zona de conforto, e depois recomendo”.

Nascido em Guimarães, Duarte estreou nesse ramo em 2008 na livraria Centésima Página. Trabalhou ainda em uma editora e depois na FNAC, onde esteve vários anos e aprendeu muito sobre o funcionamento do mercado antes de abrir a sua própria livraria. “Com a FNAC não se compete, é outra dinâmica. Enquanto lá trabalhei fui-me apercebendo que havia várias lacunas que as grandes cadeias não estavam a cobrir.” E foi com o intuito de trabalhar nesse outro mundo, que ele e a Emília Araújo começaram, em Guimarães, com o seu espaço. “Acho que uma livraria pequena só pode sobreviver nesse mundo bárbaro criando comunidades. Quando abrimos, o lugar era uma livraria e cafetaria, até porque as pessoas não podem comprar um livro todos os dias mas podem beber um café, e vir falar conosco, e ver os livros”, explica.

Os bestsellers da Snob são muito particulares, um fenómeno que dificilmente se replica, explica. “O nosso livro mais vendido de sempre é um ensaio da Silvina Rodrigues Lopes chamado Literatura, Defesa do Atrito. Acho que vendemos um terço da edição desse livro”. Embora seja conhecido por atuar com um segmento menos popular de livros, Duarte diz que trabalha com todos os grupos editoriais. “A diferença é que somos nós que fazemos a escolha do que queremos na nossa livraria. Não nos mandam as novidades, não alugamos espaço nem montras, tudo o que temos cá é escolha nossa. Claro que há editoras com as quais trabalhamos com mais frequência e até em muitos casos consegues chegar diretamente ao editor, cria-se uma relação de confiança, uma lealdade, e trabalhar sem ter a barreira da distribuidora.”

Em todo lado, em lado nenhum

Em 2016 o livreiro tomou a decisão de fecha o espaço em Guimarães, associar-se a uns amigos para que livraria funcionasse de outra maneira (no projeto Almanaque 23), e mudar-se para Lisboa. “Decidi fechar porque fiquei sozinho, a minha sócia saiu, e percebi que a livraria precisava de mais mobilidade. Com o tempo as pessoas, ao conhecerem o nosso trabalho, passaram a nos convidar para eventos, feiras, festivais, eu fiquei sozinho. Ou fechava a livraria para ir a um festival ou recusava o convite. Foi um passo difícil mas foi necessário. A mudança possibilitou que a livraria estivesse em mais de um lugar ao mesmo tempo, esteja em várias feiras literárias e associados a vários coletivos. “A Snob não existe em lado nenhum, está é associada a vários projetos. É a livraria que está por trás da livraria da Cossoul, em Lisboa, está em Guimarães, trabalha num outro espaço em Braga e está também no Porto. Acreditamos que a Snob é, sobretudo, uma ideia de partilha”.

Grande parte dos pedidos que Duarte recebe vêm pela internet, sobretudo através das página do Facebook. “Chega uma novidade, coloco uma foto, e recebo encomendas. Ontem por exemplo coloquei a foto de um livro e recebi 13 encomendas. E depois negociamos como fazer o pagamento”, conta. A entrega também pode ser feita por correio, pessoalmente ou por um portador. Essa relação bastante pessoal e personalizada que tem com os clientes acaba por favorecer o surgimento de uma amizade. “Acho que 80% dos meus amigos de hoje em dia vieram por meio da Snob. Por exemplo, quando vou a Guimarães organizo um jantar com pessoas que eram clientes da livraria e hoje são meus amigos, eles se conheceram graças à livraria, e hoje em dia continuam a encontrar-se. Às quarta-feiras eles se reuniam para ler teatro, das 10 da noite à uma da manhã, um grupo de 30 pessoas, às vezes vinham uns, outros dias vinham outros. Depois ficávamos a ler poesia até as três da manhã. Era uma grande confusão e uma grande alegria. E esse grémio que eles criaram na livraria continua, ainda existe”.

De feira em feira

Um dos motivos pelos quais Duarte é conhecido em Portugal é a sua disponibilidade para levar a Snob pelo país. Quando há uma feira de livro, um encontro em que possa montar o seu stand, o livreiro enche a carrinha de livros e apanha a estrada. “Cada feira tem o seu foco e a sua limitação de espaço, e tentamos orientarmo-nos a partir disso para fazer a seleção dos livros que vamos levar. Em Viana do Castelo este ano, por exemplo, foram duas carrinhas cheias de livros porque nos deram três stands.”

Para Duarte, as feiras trazem a possibilidade não só de que mostre os seus produtos mas também de conhecer pessoas e falar de literatura. “Nós não somos meros estafetas. Se a pessoa estiver disponível há sempre uma conversa associada, uma troca de afinidades, e cria-se uma ligação. E as pessoas ficam com o nosso contato e cria-se uma semente, qualquer coisa que vai para além daquele momento”, conta.

Quando surge, em 2013, a Snob só vendia livros novos. No entanto Duarte começou a responder a pedido de pessoas que andavam à procura de algum título e não o encontravam. Ele acionava a sua rede de contatos para ver se conseguia o título procurado. E assim sua fama foi crescendo. Hoje recebe telefonemas e mensagens vindas de todas partes, inclusive de fora de Portugal, com pedidos de ajuda. “Qualquer volta que eu dê pela cidade é a oportunidade de procurar um livro que alguém me pediu. Agora mesmo vim com um saco na mão, é uma encomenda de um livro esgotado que eu encontrei numa livraria ali na Graça. Estou constantemente à procura. Conheço os alfarrabistas quase todos, muitos são meus amigos. Trabalhamos em comunidade, alguns fazem-me consignação. Eu digo: vou ter uma feira onde há muita procura por poesia e primeiras edições, eles já confiam em mim e fazem consignação.”

Recentemente Duarte conseguiu concretizar uma ideia antiga: editar livros. O primeiro foi uma antologia de contos do cubano Virgilio Piñera que saiu com o selo da Edições Livraria SNOB – numa coleção chamada Pedante e que já tem dois títulos (e terá mais em breve). A escolha do livro, a sua divulgação e comercialização estão em sintonia com o modo como o livreiro vem trabalhando. É feito em parceria com outras pessoas e a rede de amigos e clientes é o grande consumidor do produto, ao mesmo tempo que ajuda a torná-lo mais conhecido. “Dá muito trabalho tudo isso. Eu trabalho 24 horas por dia, mas não poderia fazer outra coisa”, resume o livreiro.

Ricardo Viel
Jornalista, diretor de comunicação da Fundação José Saramago

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de dezembro de 2017.

Deixa o teu Comentário