Um novo clero: Psicoterapeutas

priesthoodDurante séculos no Oeste, havia uma figura na sociedade que tinha uma função que soa muito estranha aos ouvidos seculares modernos. Ele (não havia Ela nesta função) não vendia nada nem preenchia nenhuma necessidade material, não arranjava o carro de bois ou armazenava o trigo. Ele estava lá para tomar conta daquela parte a que se chama estranhamente “a alma”, o que entendemos pela parte psicológica interior, o lugar das nossas emoções e sentido de identidade profunda. Estou a falar do padre, figura da vida ocidental pré-moderna, que nos acompanhava ao longo dos anos, desde a infância até ao nosso suspiro final, tentando assegurar que a nossa alma estava em bom estado para encontrar o seu criador.

Porque em muitos países ocidentais o clero é agora uma sombra do que um dia foi, uma questão importante que podemos colocar é: para onde foram as nossas necessidades relacionadas com a alma? O que fazemos a tudo aquilo que anteriormente nos fazia ir ter com um padre? Quem toma conta desses assuntos? O Eu interior não abandonou as suas complexidades e vulnerabilidades simplesmente porque foram encontradas algumas imprecisões científicas nos contos dos sete pães e dos peixes.

A resposta secular às necessidades da alma tem tendido a ser privada e informal: encontramos as nossas próprias soluções, ao nosso ritmo, e construímos a nossa própria salvação como achamos apropriado. No entanto permanece em muitos um desejo de soluções mais interpessoais e estruturadas, para nos ajudar a lidar com os sérios assuntos com que nos deparamos na vida. Provavelmente a resposta comum mais sofisticada que encontramos para as dificuldades do que continuaremos a chamar, sem alusões místicas, “a alma”, é a psicoterapia. É aos psicoterapeutas que levamos o mesmo tipo de problemas que anteriormente teríamos direccionado a um padre: confusão emocional, falta de significado, tentações de um tipo ou outro e, claro, ansiedade perante a mortalidade.

À distância, os psicoterapeutas parecem bem instalados no seu papel semelhante ao dos padres, e que não haverá mais nada a fazer ou perguntar. No entanto, pode-se argumentar que, de certas formas, a psicoterapia contemporânea não aprendeu as lições certas do clero, e poderá beneficiar de uma comparação mais directa com ele. A minha sugestão é que a sociedade ganharia se os terapeutas estivessem mais explicitamente organizados segundo o modelo seguido pelo clero; que os terapeutas deveriam ser os novos padres da sociedade secular.

Para começar, a terapia continua a ser uma actividade minoritária, fora do alcance da maioria das pessoas, demasiado cara, ou não disponível em certas partes do país. Houve esforços louváveis da parte de activistas para introduzir a terapia no sistema de saúde, mas o progresso é lento e vulnerável. E a questão não é apenas económica. É uma questão de atitudes. Enquanto as sociedades cristãs pensariam que há algo de errado connosco se não visitássemos um padre, tendemos a assumir que os terapeutas existem apenas para momentos de crise extrema – e são um sinal de que o cliente poderá estar algo desequilibrado, ao contrário de apenas humano. Um modelo principalmente pessoal do Eu é popular, que leva à preferência para encararmos os problemas com comprimidos em vez de relações interpessoais. Isto não quer dizer que os medicamentos não sejam importantes em muitas situações, apenas pretende defender a conversação terapêutica com alguém compreensivo.

Há também uma questão séria de branding. Os terapeutas estão escondidos. Não os vemos “pelas ruas”. Ainda não estão regulamentados como deviam. Não lhes reservamos um lugar entre outras necessidades tais como o pão ou produtos eléctricos. Imaginem se a necessidade de diálogo terapêutico fosse honrada e reconhecida tal como a necessidade de um corte de cabelo ou de fazer exercício. Imaginem que visitar um terapeuta não era uma actividade estranha e, por vezes, embaraçosa. Imaginem que nos poderia ser garantido um certo nível de serviço. Imaginem que os consultórios tinham melhor aspecto e eram mais visíveis, de forma a defender a dignidade da actividade.

A compreensão por parte dos terapeutas modernos de como os humanos funcionam e do que necessitam para suportar a existência é, a meu ver, imensamente mais sofisticada do que a dos padres. No entanto, as religiões foram especialistas em criar um papel adequado para o padre, como uma pessoa com quem se fala em todos os momentos importantes da vida, sem parecer uma acção minoritária. Muitas pessoas podem dizer que um café e alguns amigos são tudo o que precisam; depois de um ou dois desafios grandes, muitos mais pensam que a vida é suficientemente complicada para beneficiarem de um diálogo regular com uma “entidade” compreensiva, num local livre de estigmas e tranquilizador. Para aqueles interessados no desafio, há um longo caminho a percorrer até que a terapia preencha o espaço ocupado pelo declínio do clero.

Por Alain de Botton, escritor, filósofo, e empreendedor.

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