Vera Paz e Ricardo Moura (Colectivo d’As Entranhas) – Entrevista

Esta semana conversámos com Vera Paz e Ricardo Moura, directores artísticos do Colectivo d’As Entranhas.  Fiquem a saber um pouco mais sobre este colectivo e as suas actividades.

Falem-nos um pouco sobre a origem do Colectivo d’As Entranhas e do trabalho que têm desenvolvido.
V.P. – d’As Entranhas – colectivo teatral foi fundada em 1999 e é uma associação cultural sem fins lucrativos que promove uma acção de intervenção cultural no domínio do espectáculo teatral, pesquisando técnicas dramatúrgicas, audiovisuais, multimédia e plásticas de natureza artística, tendo em vista o desenvolvimento de uma linguagem contemporânea no campo das artes performativas. Desde a sua génese até à actualidade que desenvolve nos seus processos criativos, uma dramaturgia experimental sobre a realidade portuguesa contemporânea, a partir de textos de autores portugueses, elaborados em co-criação com os intérpretes, e cujos temas recaem sobre o amor, a morte, a família, a solidão, a crise, o desassossego da sociedade e as novas realidades geracionais.
Os últimos espectáculos produzidos pela companhia d’As Entranhas aconteceram pela urgência de dizer o que nos incomoda hoje, o que incomoda a nossa geração hoje, no tempo presente. Quando pensamos em construir um espectáculo  nunca sabemos como vai acabar, porque partimos de uma imagem , de um conceito e vamos acrescentando coisas e tirando muitas outras.. Um espectáculo é difícil de construir leva muito tempo.. os nossos espectáculos por norma são irónicos, são trágicos e não têm intervalo, para não quebrar o ritmo. Nos últimos 10 anos trabalhamos sobre a morte e o amor, sobre o desamor e a saudade, a solidão e a tristeza nas cidades… a felicidade escondida… o respirar baixinho…..num ataque de riso como se fosse para sempre. O que nos interessa são as relações , as pessoas nas relações , as mulheres e os homens nas suas vidas, os objectos pequenos..os detalhes..as memórias escondidas..os lapsos, os erros…as quedas. Enquanto criadores, um texto pode ser um recorte de jornal, pode ser um romance , pode ser uma canção de embalar, um grito, uma receita, um conto, uma palavra, um silêncio..  A ausência de cenário, só com apontamentos cenográficos, é uma assinatura da companhia, … o público colado à pele muito perto, num espaço fora da realidade.
Construímos os nossos espectáculos, que gostamos de chamar peças, porque é como se fossem um filme, por takes, podemos começar pelo fim e fazer tudo ao contrário…

R.M. – O coletivo d’As Entranhas foi fundado em 1999 por Vera Paz e Ricardo Moura. Nasce da cumplicidade criada entre nós na sequência do trabalho em comum desenvolvido em diferentes projetos de outros criadores,  e da necessidade que sentíamos de criar coisas novas, cruzando linguagens artísticas e  visuais e enraizados numa base teatral.
Desde então que fazemos espectáculos em espaços não convencionais, de preferência, sempre com o Amor em pano de fundo, ou em pano encharcado conforme a inspiração. Somos maiores de 40, já estamos quase na crise dos 50, pirosos, românticos, lamechas e sempre no fio da navalha como convém. Do século passado e a cada esquina continuamos em frente, destravados e sem cheta, com crises de ansiedade e ataques de riso, porque a vida é mesmo um fósforo. Escrevemos à antiga, estamos em desacordo e ainda achamos que vale a pena apesar do desespero e do cospe para o ar… primeiro estranha-se e depois entranha-se…
“PROJETO d’HOMEM é o 16º espectáculo d’As Entranhas, uma companhia de teatro independente e livre, estrutura não subsidiada pelo Ministério ou Secretaria de Estado, ou lá o que se chama, da Cultura.

Quais é que são as vossas principais influências?
V.P. – Pina Baush, sempre; Lúcia Sigalho, que nos atirou contra a parede e nos fez ver por dentro, Tim Etchells, Paula Rêgo, Adília Lopes, Camilo Castelo Branco, os musicais dos anos 50, os pirosos anos 80, memória colectiva…Festival da Canção, e por aí fora

R.M. – Todos nós temos formação artística, em diferentes áreas, teatro, dança, publicidade, ciências sociais e essa base constitui-se como o ponto de partida. A Lúcia Sigalho foi uma forte influência e escola artística. Depois gostamos de partir sempre da realidade, porque “a realidade supera sempre e em tudo a ficção” (será que somos realistas?). Vamos buscar inspiração a tudo o que nos rodeia, livros, filmes, imagens, conversas de rua, de café, teatro, música bla bla bla… procuramos diversificar os elencos, para refrescar… e os actores trazem sempre novos contributos.

Já têm um público fiel?
V.P. – Sim temos um público fiel que nos acompanha desde o início e já lá vão 18 anos e 16 espectáculos. Agradecemos do fundo do coração e das entranhas ao público que sempre esteve lá e que nunca nos deixou cair, a rir e a chorar connosco. Aos fãs de sempre e aos que não gostam que também há.  Somos um colectivo, temos todos mais de 40 anos. Já temos algumas cicatrizes. O teatro juntou-nos, tudo começou nos bastidores e com um cabaret, mas temos formações distintas e isso é muito enriquecedor, não vimos de uma escola, são muitas e diferentes e ainda bem. Também somos de Lisboa, na maioria mas temos colaboradores internacionais, europeus mais propriamente, trabalhámos com um dos actores fundadores dos Fura del Baus, o Figols, que nunca tinha feito um registo de comédia na vida e é um actor extraordinário, muito completo, temos o Burry Buermans, belga, artista plástico, é o nosso aderecista e cenógrafo, faz nesta peça Projecto d’Homem a sua primeira participação como actor e depois temos os de sempre da fundação da companhia, esses são o coração, que nunca nos deixaram e que acreditam e que não ganham um chavo e acreditam, o nosso Bernardo Amorim , a nossa Paula Frango, a nossa Catarina Côdea, a Maria João, o Paulo Lázaro, o Luis Hipólito, a Patrícia Figueira, a Mónica Garcez, a Lavínia Moreira, a Vanessa Dinger, a Carla Vasconcelos, a Alexandra Gonçalves, o Rui Lacerda, a Catarina Caetano, o Felix Lozano, o Celestino Verdades, o Sérgio Grilo que partiu tão cedo e faz tanta falta, a Bunny, o director e a directriz Ricardo Moura e Vera Paz, os culpados disto tudo e o Jorge Fraga que nos juntou no “Romeu e Julieta”,  não somos esquisitos. Temos página no facebook, essa grande montra descartável, mas que dá jeito.  https://www.facebook.com/dAsEntranhas/

R.M. – Acho que já temos uma corrente de público que deve gostar da nossa loucura, sempre que fazemos espectáculos eles aparecem e enchem as salas e enchem-nos de amor. não nos podemos queixar.

Que projectos para 2017?
V.P. – Temos  muitos projectos, que não conseguimos concretizar ainda, mas que estão guardados na gaveta  e que vão saltar, um destes dias, cá para fora. “a boda”, “os corações partidos”, “o made in china”, “Mulheres, mulheres, mulheres”, tudo produções cheias de actores. Não é fácil continuar a existir sem condições. Espaço nosso não temos, chegava-nos um armazém, uma black box, um estúdio, uma padaria das antigas, um sítio com telha, para podermos ter uma produção contínua. Tanto espaço em Lisboa, desaproveitado a cair. Não era melhor haver parcerias? Rendas adequadas. Tens provas dadas?!, toma lá à concessão este espaço, produz mostra o que vales se não vales ao fim de 5 anos, andor dá lugar a outro. Reabilitar, dinamizar, fala-se tanto das indústrias criativas e depois ? Depois nada. Agora, cada vez vai ser pior, com esta especulação imobiliária, e esta airbinização made in IKEA descaraterizada de todo, o senhorio quer ter lucro já imediato e mesmo as lojas e todos os espaços mais alternativos vão ser engolidos, não se cria nada de novo. Devia haver uma identidade, sem identidade como já há provas noutras cidades europeias, o tecido seca e depois esgaça. Também pensámos em descentralizar , mas não é fácil levá-los atrás das costas, aos actores aos técnicos. As pessoas têm as suas vidas. Mas voltando à vaca fria, sem espaço não há apoio e sem apoio não há espaço. É uma pescadinha de rabo na boca. Não temos o discurso do coitadinho, ai ai ai, do ninguém nos apoia . Não, realmente o estado nunca nos apoiou, nem o estado, nem o privado. Não há uma política de mecenato em Portugal, ponto final.  O privado quer lucro e continua a achar que o teatro não dá dinheiro e que são todos um bando de depravados. Há uma falta de cultura generalizada e mesmo as estruturas chamadas de contra-corrente, que para aí andam, muitas são apoiadas pelo sistema, estão engajadas. Sempre nos faltou uma produtora à séria e séria, que vendesse o produto, a criação, os espectáculos, mas infelizmente embora tivéssemos tentado e tentámos nunca aconteceu. Somos livres na verdadeira acepção da palavra, isso é a nossa grande conquista, mas tem custos. O amor à camisola só não chega e a camisola já vai tendo alguns buracos, de traças e não só. Somos teimosos . Tanto bate até que fura, lá diz o povo e há de furar um dia, só espero que não seja um cano.

R.M. – Começámos agora o ano com “Projecto d’Homem ou desde a criação que nos roubaram a costela e enfiaram com um caroço pela goela a baixo agora aguenta”,  que está em cena até 29 de Janeiro no Teatro Turim, em Lisboa. Este é o segundo espectáculo de uma trilogia (no primeiro trabalhamos sobre o universo das mulheres e neste, o universo dos homens). Estamos em fase de preparação de outra produção, para apresentar no final do ano, e assim fecharmos a trilogia.

Como vêem o panorama artístico actual em Portugal?
V.P. – Em panorama, o artístico no geral está muito  preso ao sistema, seja na co-dependência financeira, seja na concessão do que se faz, do que fica bem, do que é moderno, do que agrada, nas correntes contemporâneas, nas linhas programáticas. O panorama sempre foi lobizado, não é de agora e não é agora que vai deixar de ser. a mentalidade nacional é assim, é fechada, pequenina, são muitos anos de salazarice entranhada nas repartições, no pensamento, nos gabinetes, nas cabeças dos mandantes, dos amigos, dos primos e tios, a conversa do costume. Temos um povo extraordinário, mas é um bocado o cospe para o ar, solidários ali no conjunto, mas depois é cada um por si e deus por todos, à espera do Dom Sebastião, ou de algum iluminado que resolva.  Não é por teres mérito, por valeres que és avaliado e assim não há volta a dar-lhe, mesmo este novo governo supostamente mais open mind tem uma herança pesada e há que cumprir números e os números são números , não têm identidade, nem como uma esfregona lá vai. . . embora haja contra correntes como em todos os panoramas artísticos e há, acabam por não ter expressão, ou se entregam de bandeja ou correm o risco de ficar nos seus becos, às vezes sem saída. Mas acredito que chegue o nosso tempo, o tempo de falar para que nos ouçam, para que nos vejam para que riam, para que chorem, para que se emocionem, temos um statement, não andamos a copiar ninguém.

R.M. – … Vejo bons criadores, mas  pouco investimento político em geral na cultura  para melhorar leis, como por exemplo a lei do mecenato que poderiam aliciar privados a patrocinar a arte. Improvisamos sempre muito, somos tão bons nisso…

ESPECTÁCULOS
1999  A Lei de Deus.
2001 Divas à Deriva.
2002 Corações Solitários
2004 Best Off.
2006 Amor de Perdição.
2007 Made in Brazil
2008 Sophia.
2009 Glória.
2011 Casa Pública.
2012 dasPalavras.
2013 Colapso
2013 Colapso.1 .
2014 SG Gigante
2014 Vale de Bonecas
2015 Vale de Bonecas Remix
2017 Projecto d’Homens

Mais sobre o Colectivo d’As Entranhas em http://www.facebook.com/dAsEntranhas

Comments

  1. Maria Helena Teixeira da Silva says:

    Para quem não conhece este grupo aconselho vivamente! É sempre bom que nos abanem ao som da ironia e da tragicomédia. Vejam e apreciem.

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