Victor Hugo Pontes – Entrevista

Foto: João Tuna

Foto: João Tuna

Podes falar-nos um pouco do teu percurso, que engloba diferentes áreas (artes plásticas, teatro, dança)?
O meu percurso artístico começou no teatro, em Guimarães, quando ainda frequentava o ensino secundário. Na altura de decidir que profissão ou universidade escolher, preferi adiar a decisão por mais uns tempos e inscrevi-me em dois cursos, no Porto, e frequentei os dois ao mesmo tempo: o curso de Artes Plásticas – Pintura da Faculdade de Belas Artes e o curso profissinal de Teatro do Balleteatro Escola Profissional. Em horário pós-laboral fiz ainda o curso do Teatro Universitário do Porto. Durante o curso das Belas Artes percebi que gostava de trabalhar em grupo e que a pintura era um ritual muito solitário para o qual eu não tinha disciplina. Mesmo assim terminei-o, apesar de nos últimos anos ter deixado de pintar e ter começado a apresentar trabalhos em vídeo e mais ligados às artes performativas. A dança surge no meu percurso como um feliz acaso. Os meus primeiros trabalhos profissionais como actor aconteceram em espectáculos de Dança, e depois disso fiquei com vontade de compor/coreografar movimento. Fiz o curso de Pesquisa e Criação Coreográfica do Fórum Dança, o curso de Encenação de Teatro da Fundação Calouste Gulbenkian, com a companhia inglesa Third Angel, e a École de Maîtres, dirigida pelo Pippo Delbono na Bélgica e em Itália. Sempre tive uma grande vontade de aprender, e por isso procurei o máximo de formação possível para poder construir a minha própria linguagem.

O espectáculo ‘A Ballet Story’ foi destacado como um dos melhores de 2012. Que significado tem este reconhecimento?
É sempre bom o trabalho que fazemos ser reconhecido, especialmente quando lhe dedicamos muitas horas e todo o nosso empenho e entusiasmo. É importante, tanto para mim como para toda a equipa que trabalhou e trabalha comigo, sentirmos que valeu e vale a pena trabalhar. Se a minha vida mudou com esse reconhecimento? Creio que não. Apenas tenho mais pessoas interessadas no que faço, o que dá maior visibilidade ao meu trabalho e talvez me permita fazer mais coisas que gosto.

Que impacto no teu trabalho em Portugal tem a internacionalização, nomeadamente a apresentação recente no Brasil?
O impacto que teve foi dado pela imprensa, porque já no ano anterior eu tinha apresentado um espectáculo no Brasil, no mesmo festival. Já participei anteriormente em projectos internacionais de grande importância, mas nessa altura ainda não tinha feito o espectáculo “A Ballet Story”, e por isso não tinha tantos olhos em cima do meu trabalho. Claro que todas as apresentações são importantes, sejam elas nacionais ou internacionais. Mostrarmos o nosso trabalho tantas vezes quanto possível é muito bom, sendo que a maior parte dos espectáculos de dança só consegue fazer duas ou três apresentações. O facto de apresentarmos muitas vezes um espectáculo faz com que mais pessoas consigam ver esse trabalho, que é o que mais importa.

Foto: Fernando Ribeiro

Foto: Fernando Ribeiro

‘Zoo’, a tua mais recente peça, está a ser apresentada pelo país. O que podes dizer sobre ela, e como se encaixa no teu trabalho mais recente?
“ZOO” estreia no Porto, no dia 20 de Junho, no Teatro Nacional São João, e depois será apresentado em Lisboa, nos dias 27 e 28 de Junho, no Teatro Maria Matos. No final de 2013 será apresentado em Guimarães, no CCVF, e depois, infelizmente, ainda não temos mais apresentações agendadas. Este é um espectáculo que parte da ideia de jardim zoológico como espaço artificial de observação, um tópico que me é muito particular e recorrente, pois já me ocupo com a ideia de observação de nós e dos outros desde os meus primeiros projectos. “ZOO” estrutura-se em torno de pares por vezes dicotómicos, outras vezes complementares: homem e animal, observador e observado, público e cena. O ponto de partida foi o ensaio de John Berger “Why Look at Animals?”.

Há quem defenda que os momentos de crise são propícios ao aparecimento de novas ideias e projectos. Concordas?
Penso que as pessoas têm a pulsão de se expressar em todos os momentos, sejam eles de crise ou não. O que acontece é que a crise nos obriga a um maior esforço e, porque induz uma certa revolta, também acaba por nos tornar mais criativos. Provavelmente, acabamos por levantar questões que não levantaríamos se não vivêssemos estes tempos difíceis. Mas, se não fossem estas, seriam outras questões, e acredito que seriam – e serão – igualmente importantes

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