Vivarium Festival – Entrevista

O festival de new media português, Vivarium Festival, acontece a 24 e 25 de março no Porto.  O evento “vai pensar o lugar do corpo e a da intimidade num tempo em que o digital, a tecnologia e as inteligências artificiais parecem contaminar a experiência humana”. Conversámos com Marianne Baillot, directora artística do festival.

Como surgiu a ideia para o Festival?
O festival apresenta rituais tecnológicos. Quando trabalhei com artistas New Media apercebi-me que a dança e as artes New Media eram duas culturas irmãs. O mundo da arte tem sido orientado historicamente para apresentação e preservação de objetos físicos e obras estáticas, enquanto a dança tal como as artes New Media são formas de arte imateriais, baseadas no tempo, dinâmicas e generativas.

A dança é uma experiência lúdica, cooperativa e efêmera. Uma atualização de corpos virtuais. Uma transformação do tempo em espaço-tempo. Um estúdio vazio que ressoa da prática diária dos dançarinos. Vejo essas características imateriais bastante em sintonia com o mundo pós-digital onde a forma não possui longevidade, é puramente temporal, operativa e contingente. Onde o objeto físico esta a perder algum peso. A dança é também uma prática poderosa para explorar as relações entre humanos e os sistemas (tecnológica, representacional, linguística e social). Quando você precisa se adaptar constantemente ao grupo, ao contexto ao redor, você percebe lentamente que o que importa são as forças no ecossistema e não você como indivíduo. Isso não significa que a singularidade não existe.

De que forma é que a relação entre a cultura humana e a cibernética se manifesta nos dias de hoje?
A cultura humana tem muitas vertentes, uma delas é embrenhar-se no pensamento cibernético. A cibernética é um outro nome para a Teoria Geral dos Sistemas, podendo servir para analisar tantos sistemas físicos, orgânicos como sociais e digitas (etc.)

Dizemos analisar sistemas existentes, mas também construir novos sistemas, materiais e imateriais. Ele representa uma forma avançada de abstração, onde uma multiplicidade de fenómenos é “reduzido” à analise de fluxo (inputs), processamento interno e consequente output (e possível feedback). Desta forma, analisar como funciona o nosso autoclismo ou o sistema fiscal ou uma máquina de vender bebidas é topologicamente idêntico.

Este tipo de pensamento tem a vantagem de se afastar de um certo antropocentrismo, fonocentrismo, logocentrismo, falocentrismo, comum no pensamento da antiguidade, clássico como moderno.

Em muitos aspetos, a cultura cibernética está mais próxima da tradição chinesa, onde os processos yin e yang são considerados de forma transversal a todos os sistemas, do que da tradição ocidental que tende a centrar-se no Homem e o seu umbigo. Isto é bastante claro nas referencias preferidas de autores como Wiener (na teoria da informação) ou de um Bateson (mais na psicologia) ou de um Luhmann (mais na sociologia). Este tipo de abstração, que se associa bem com um tratamento matemático e diagramático de todos os temas, é naturalmente atraente no campo das ciências da computação ao qual, por razões várias, a cultura popular o tendeu a associar de forma preferencial.

A cultura “humanista” ainda vigente nutre, porém, uma antipatia “natural” por este tipo de abordagens e, embora Foucault, na senda de Nietzsche, tenha decretado há 50 anos a “morte do homem”, ele teima em não morrer, como “cadáver que se reproduz”, mesmo que para isso se reclame da “autoridade” destes autores, sem os compreender verdadeiramente. É talvez importante irmos além da cibernética, com vista talvez, a um construtivismo genético. Mas é crucial evitarmos ficar aquém, entre o cientismo da neurociência e o egocentrismo humanista.

Quais as principais consequências da revolução digital para as artes?
Os formatos convencionais de apresentação da arte contemporânea, da dança e das artes digitais podem mudar drasticamente com a realidade virtual, a realidade aumentada mas os coreógrafos/performers, os artistas estão hoje demasiado dependentes dos circuitos de produção e de difusão clássicos, onde aspetos coreográficos são ainda muito raramente traduzidos ou articulados com as linguagens digitais e híbridas.

O devir da aquisição de conhecimento, da intimidade, da empatia, do lugar, e do lugar do corpo humano podem mudar também bastante num mundo onde algumas maquinas inteligentes podem envergonhar-nos de sermos humanos, apenas humanos.

Hoje, os corpos e identidades humanos são categorizados, on-line e off-line, por algoritmos e máquinas artificialmente inteligentes. Mas e se, pelo contrário, a inteligência artificial pudesse ser usada para contaminar experiência corporal humana? Como um corpo contaminado por algoritmos se parece e se move? Construir pontes e transferências com os laboratórios de criação digital e o mundo artístico é uma possibilidade para responder a uma reestruturação rápida e quase irresistível de nossos valores culturais pelo digital, num contexto global em mutação.

O que destacas da edição deste ano?
Em destaque, a estreia nacional de Marco Donnarumma, nome essencial da media arte contemporânea, que se tem distinguido pela capacidade de usar a tecnologia emergente na construção de obras que são, ao mesmo tempo, íntimas e poderosas, oníricas e intransigentes, sensuais e conflituosas.
Mostrará Corpus Nil, um ritual de nascimento para um corpo modificado, com a qual ganhou o prémio internacional Ars Electrónica Center.

Ainda no campo performativo, espaço para a performance inédita de Jonathan Schatz (bailarino e coreógrafo) e Nicolat Canot (músico), In Vitro, a ser desenvolvida numa breve residência artística a ter lugar no Maus Hábitos. No plano nacional, Pedro Oliveira, baterista de peixe: avião apresenta Krake, o seu projeto experimental profundo e cheio de humor. Ícaro Pintor e Joaquim Pavão apresentam Ifsting Split, uma performance multidisciplinar para ver em família no domingo.

Na área das artes visuais, estarão expostos ainda trabalhos de Silvestre Pestana, Miguel Palma, Diogo Tudela e Nerea Castro. Na área da literatura, Gonçalo M. Tavares orientará um workshop baseado no livro Atlas do Corpo e da Imaginação, sendo ainda um dos convidados da conversa Questões Éticas e Estéticas Abertas pela Revolução Digital, que contará também com António Cerveira Pinto, diretor artístico do The New Art Fest, e moderação de Marta Bernardes. A noite de sábado culminará numa festa com Atila e Rabbit Hole para a festa clubbing.

Os bilhetes para a noite de sábado do festival (Marco Donnarumma + Atila + Live Act Rabitt Hole) estarão à venda, por 8 euros, na pré-venda (limitado a 60 bilhetes). As inscrições para o workshop do Gonçalo M. Tavares são feitas à parte, através da ficha de inscrição: https://goo.gl/forms/MtVFT7ojWuRrua6p1 com o limite de 30 lugares, e custarão 30 euros.

O ser humano está condenado a ser substituído pelas máquinas, ou ainda há esperança?
O “ser humano” é um conceito vago e, porque sobrecarregado pela tradição de toda uma vaidade vã, perigoso. Remete-nos para uma “essência humana”, uma “natureza humana” que parece nem sempre ter em conta o caracter não apenas evolucionário desse animal, como o seu caracter social, onde o “nós” precede o(s) “eu(s)”. O “humano”, para poder surgir como “humano”, é inerentemente linguístico e técnico (com a sua voz e o seu gesto). O que podemos reconhecer como “humano”, que podemos selecionar como pertencendo à classe dos “humanos”, é sempre um cruzamento entre instintos da espécie, talvez mesmo específicos de uma raça, e instituições coletivas, quase sempre especificas de uma comunidade.

É sempre um Id que nos escraviza pelas paixões da Natureza “em nós”, e um Super Ego que nos domina pelas normas da Sociedade, “fora de nós”. Será nela que se constituem Egos, sempre frágeis, fugazes, mutantes. É sempre no cruzamento de um agenciamento maquinico de corpos com um agenciamento coletivo de enunciação, que se constitui esse “humano”. O “humano” é por isso sempre semiótico e técnico, nos seus signos e ferramentas. Nos seus signos como ferramentas e nas suas ferramentas enquanto signos. A diferença especifica do humano em relação às outras espécies passa assim pela simbolização e pela instrumentalização, cuja expressão mais contemporânea passa pela criação de software e de robots que medeiam de forma crescente a interação deste animal particular com o(s) seu(s) meio(s). Há milénios que “o homem” se faz substituir pelas ferramentas e pelos símbolos para alargar o seu aqui e agora, para ampliar a sua vontade de potencia, dominando de forma crescente as relações de força do acaso, avaliando como melhor ou pior aquilo que interpreta como maior ou menor, mediando aquilo que se lhe impõe como imediato. Não podemos, pelo menos para já, falar do “humano” mas sempre de humanos, no plural, em perpetuo confronto pelos recursos escassos, que recorrem a máquinas para imporem a sua vontade (e nesse sentido, cada vez mais máquinas se irão guerrear entre si). Não se advinha para já um monopólio à escala mundial de uma única vontade de potencia impondo-se, com as suas máquinas, a todas as outras. Se para além da guerra elas substituem os animais domesticados no trabalho, isso significa que os custos de produção são cortados de forma exponencial ao mesmo tempo que se aumenta a oferta desses bens. Foi o que vimos acontecer no sector primário, onde hoje se alimentam dez vezes mais pessoas recorrendo a dez vezes menos pessoas, ocupando dez vezes menos orçamento da família ao fim do mês que assim podem consumir hoje dez vezes mais coisas, libertando-se assim dez vezes mais pessoas para oferecer e procurar dez vezes mais outras coisas. Desde que se continue a impedir o surgimento de monopólios que poderiam permitir a cristalização do preço, estes tenderão sempre a encostar-se aos custos e esses, pela mediação de ferramentas e símbolos, tenderão cada vez mais a tender para zero. Parece-nos bom que no trabalho como na guerra, enquanto ferramentas e enquanto armas, as máquinas substituam os homens e, por isso, há esperança de dias melhores (sem ignorar que tudo isto pode vir a ser pior se alguns homens assim o “quiserem” e o “fizerem” realidade para os restantes homens que, por alguma razão ainda desconhecida, seriam incapazes de querer e fazer a realidade de um outro modo qualquer).

A questão de ter dez vezes mais pessoas a consumir dez vezes mais recursos, com o impacto ecológico que isso traz, é outra questão, que não tem a ver com máquinas substituírem os humanos e requer outra resposta em relação à sustentabilidade de tudo isto.

O que nos pode sim preocupar, do ponto de vista ético, é a previsível exploração que o “humano” tenderá a impor a “máquinas” cada vez mais inteligentes e sencientes (mesmo biónicas), que serão escravizadas como ferramentas e mobilizadas para se guerrear como armas, em substituição dos “humanos”.

Que actividades têm previstas depois do Festival?
Vamos desenvolver um programa de residências com FEUP, OpenField Creative Lab e outras entidades do Porto.

Estas residências artísticas de pesquisa juntam artistas com background na dança/ performance com laboratórios de criação digital da cidade. Os coreógrafos terão a oportunidade experimentar a articulação de alguns aspetos coreográficos com ferramentas digitais/multimédia na realização de um “ritual tecnológico”. Este objeto artístico híbrido e performativo será apresentado publicamente no final da residência. A ambição é promover outras perceções sensoriais, outras perspetivas, outros movimentos para além da perspetiva clássica, para além do princípio da identidade como pressuposto da representação; questionar e redefinir os conceitos de cena, imagem, texto, identidade, território, corpo.

Mais informações em http://www.vivariumfest.com

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