1% para quê?

Por Levi Martins *

1% para a Cultura! Pouco ambiciosos, diz o Governo, porque não 2%? Os aumentos dos apoios às artes entretanto anunciados são extraordinários, 83% em relação ao ciclo anterior, até já chegámos aos 25 milhões de 2009. Que conquista, que maravilha. A Ministra da Cultura sabe muito bem quais são os pequeníssimos problemas que ainda existem e também sabe como os resolver. Prefere simplesmente manter o suspense quanto às medidas concretas a aplicar – afinal, o que é preciso é saber estruturar bem uma narrativa e, como dizia Godard, uma história tem sempre um princípio, meio e fim, mas não necessariamente por esta ordem. Congratulemo-nos com as extraordinárias notícias. Ergamos a bandeira do Partido Socialista, pê esse, pê esse, pê esse, mas esperem, esperem, pára tudo, silêncio, SILÊNCIO. O júri do concurso de teatro enviou uma carta à ministra. O quê? O júri enviou uma carta à Ministra? Como assim, desfaçatez absoluta, jurados contratados pelo Governo dirigiram-se ao próprio Governo para tomar medidas sobre o concurso que estavam a avaliar? Aviltante. Como é que não foram já presos? Ah, espera, pois é, já não estamos nesses tempos. Processados? Talvez, mais tarde, mas o que é que diz a carta? Que a verba a concurso só permite financiar 25 companhias; que existe uma «disparidade entre o número de concorrentes admitidos a concurso elegíveis para apoio e os montantes financeiros a distribuir». E que mais? Bla, bla, bla, apela à sua «sensibilidade e compreensão», Sra. Ministra, «para que se encontre uma solução que resgate as expectativas dos candidatos». Risos no gabinete. «Sentimos extremo desconforto na nossa actuação como membros deste júri por as nossas deliberações não encontrarem correspondência financeira nos resultados alcançados». Ahahahahahaha. Vai responder? Ahahahahahahahahaha. O quê? Ahahahahaha, vamos lá ao próximo ofício, ahahahaha, um júri a escrever à Ministra da Cultura… Ahahahaha. Onde é que já se viu? Ahahahahaha.

Do outro lado da barricada, as estruturas independentes aguardam os resultados provisórios do concurso. O Governo tinha anunciado Setembro, não era? Não, não tinha apenas anunciado, tinha mesmo colocado num decreto-lei, ou numa portaria, ou lá o que era. A sério? Que extraordinário Governo, a fazer História nos apoios às artes. Setembro! Nunca antes visto. Desta vez vai ser possível planearmos o trabalho para Janeiro com uma antecedência extraordinária de três meses. Pê esse, pê esse, pê esse… Só que entretanto o tempo passa. Últimos dias de Setembro. Quando é que saem os resultados? Alguém sabe? Não era suposto…? Ah, pois, já se está a ver, estão à espera das eleições, claro. Se os resultados fossem bons saía antes, está à vista, os políticos são uns sacanas, é sempre a mesma coisa, este país é uma patacoada. 6 de Outubro, noite de eleições. E o vencedor é, rufam os tambores, pê esse, repetição ad infinitum. Diz que foi o muito elevado número de candidaturas. O quê? Mas se a última acta do júri era de Agosto… Pois sim, mas, está a ver, o elevado número de candidaturas fez com que os serviços demorassem um pouco mais a… Sim, sim, está bem, está. 11 de Outubro, meio da manhã. Já viste o e-mail? Saíram os resultados? Como é que é possível? Outra vez? Inacreditável. Os telefonemas sucedem-se, contactos nas redes sociais, lamentos, indignação. Desta vez não há um TEC no fundo da lista. Pois não. Está tudo lixado.

Na clandestinidade conversa-se, faz-se planos, escreve-se cartas, recolhe-se assinaturas, já que ninguém parece estar muito preocupado, nem o Governo, nem grande parte das estruturas que estão bem confortáveis com o seu apoiozinho quadrienal, não é? Bem instaladas, tudo à grande. Bom proveito. E o país, esse, avança, feliz e contente, desde que haja Netflix e Instagram, desde que dê para continuar a abastecer o depósito (ai os filhos da mãe dos camionistas de máterias perigosas…), desde que o passe continue a 40 euros em certos territórios, e que continue a ser incomportável noutros – tomem lá, que é para não serem espertos e ficarem a viver aí longe, seus pacóvios. Está tudo bem. Afinal, para que é que é preciso apoiar estruturas artísticas independentes? Isso do 25 de Abril e da Constituição, quem é que ainda quer saber dessas coisas? Cultura? Artes? Que venham todos os eurobarómetros do universo, que o português quer-se é na taberna, gourmet em Lisboa e no Porto, suja e genuína no resto do país. Qual cultura? Isto quer é turismo, andar para a frente, venha o aeroporto e quanto antes que estamos a perder dinheiro todos os dias.

E agora, o que é que fazemos? “Bazamos ou ficamos”? Fecha-se a porta, quando há porta, vende-se os projectores, o guarda-roupa, os cenários, a alma…? Será que foi tudo em vão? Será que vale a pena o esforço? Será que alguém se importa? «O concurso é a única forma de garantir…» bla, bla, bla, diz a Sra. Ministra na Assembleia da República. Bardamerda para o concurso, o que é preciso é uma ideia do que se pretende fazer deste país e uma ideia de como as artes se inserem nessa ideia de país. Mas isso é que não há – nem ideia, nem vontade de escutar quem a possa ter. Pois bem, meus senhores, continuem em negação, a falar de percentagens, de formulários, de “afinamentos”, de revisões críticas, continuem nesse vazio, continuem, mas depois não se admirem de ficarem na História (se é que ficam sequer) como aqueles que, quando puderam fazer alguma coisa pelo país, preferiram fechar-se em gabinetes, ir para o Lux ou para o Bairro Alto, congratular-se com os êxitos, falsos ou verdadeiros, pouco importa, enquadrados a talha dourada ou em renovadas – e por isso agora sim muito sofisticadas – black boxes, enquanto o resto do país definha, sem rumo, triste, esquecido, melancólico, ao balcão de uma taberna.

É mais um jarro, se faz favor.

* Director da Companhia Mascarenhas-Martins

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