A bagageira intelectual

Por Rui Zink

Ilustração por Rui Zink

Há muitos anos tive uma mochila-biblioteca, a foto de um par de prateleiras com livros estampada num placard de 1,5 x 1,5 m, que com dois cordéis se podia trazer às costas, uma biblioteca-à-intelectual portátil, excelente para levar para todo o lado e impressionar os amigos. Espanta-me que ninguém se tenha lembrado agora, em plena pandemia, de reatar a ideia.

Foi por uma noite, para um programa de que ainda muitos se recordam. Ou gostam de imaginar que se recordam, o que vai a dar no mesmo.

Durante anos zangava-me um bocadinho sempre que alguém me vinha dizer: «Oh, as saudades que eu tenho da Má-Língua», porque me incomodava ser reduzido a um momento passado – mesmo que feliz. Mesmo que «com sucesso», esse pozinho mágico das pós-modernidades.

Enfim, podia ser pior. O pobre infante-prodígio Macaulay Culkin nunca mais se recompôs de ser o protagonista do Sozinho em Casa, e em adolescente era já a coisa mais triste do universo, uma jovem-velha vedeta. É muito chato termos de viver mais uma porrada de anos sempre à sombra do nosso momento de glória.

Por outro lado, se pensarmos bem, um momento de glória já não é mau, e é melhor recordarem-nos por uma coisa boa do que por um dia, no liceu, termos sido apanhados a fazer uma qualquer coisa ridículo-humilhante que nos persegue até ao fim dos dias.

Hoje lido melhor com quem se lembra de um programa de há 25 anos; até sinto algum orgulho em ter feito parte de uma coisa que marcou uma década num meio tão volátil (e dado ao esquecimento) como a TV.

Também ajuda o não ter ficado parado. Aliás, nenhum de nós ficou parado. E hoje já não me zango quando vou a uma escola e um professor me diz a inefável frase: «Nunca li nada seu, mas gostava muito de o ver. Não perdia um programa!»

Mas as pessoas mentem, ou não têm assim tanta memória, porque poucos se recordam daquilo que para mim era o mais divertido: os nossos momentos Buster Keaton, sobretudo na segunda temporada.

Buster Keaton é o deus do humor visual, o mestre de todos nós. E foi a ele que saquei a ideia da mochila-prateleiras.

Não por ele ter usado uma – não há nos seus filmes muitos sketches com livros – mas por eu saber que esta solução para «quem quer parecer culto mas não tem livros em casa» lhe é devedora.

Afinal, foi ele quem inventou o gague da fachada da casa que cai em cima dum desgraçado, e este salva-se porque, miraculosamente, estava no lugar da porta. Ele era o cavalheiro gentil que punha o casaco sobre uma poça para uma donzela passar e descobria, desesperado, que a poça era um poço. Buster Keaton foi também «o da ideia» no filme de Woody Allen A Rosa Púrpura do Cairo, ao ter (61 anos antes, em Sherlock Jr.) posto um personagem a sair do ecrã e descer plateia adentro, misturando realidades. Gosto muito de Woody Allen, e o filme é genial – mas aquela ideia concreta já tinha dono.

Pois um dia houve em que perguntei à produção da Noite da Má-Língua se me podiam fazer para o programa seguinte uma mochila-biblioteca. E a Margarida e a Cláudia conseguiram.

Eu próprio já não me lembro muito bem, mas a ideia era esta:

«Quer parecer culto e não tem livros em casa? Faça como eu: COMPRE JÁ esta magnífica mochila, com a qual pode impressionar amigos, potenciais amores, empregadores.»

Dar-me-ia jeito, agora, essa mochila-fachada-de-biblioteca, pois tenho feito muitas conversas online, mas todas na cozinha, porque na sala estão sempre os meus filhos a jogar PS3. E já tenho vergonha de só mostrar paredes nuas ou, pior, o quão vetustos estão a ficar o meu fogão e o dono do meu fogão.

Rui Zink (Lisboa, 1961)
Escritor e professor. Autor, entre outros, de Apocalipse Nau (1996) e A Instalação do Medo (2012). Livros mais recentes: Manual do Bom Fascista e O avô tem uma borracha na cabeça.

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