A Batalha de Aljubarrota de Ricardo Neves-Neves

Papo-secos, carcaças, bolas de água, pães-de-leite e, pontualmente, um mais ameaçador pão de Mafra, voam de um bastidor ao outro. Já diz o povo, e com razão, que não há fome que não dê em fartura: é exatamente a sensação que fica neste tão aguardado regresso aos palcos para assistir a A Batalha de Aljubarrota, o novo espetáculo do Teatro do Eléctrico.

O quadro de abertura retrata o confronto entre as duas forças opositoras invocando uma batalha de refeitório: de um lado os independentistas e respetivos aliados ingleses, chefiados por Nuno Alvares Pereira — dois, na verdade, José Leite (Nuno Alvares) e Rafael Gomes (Nuno Pereira), já habituados a partilhar figurinos — envergando estilizados aventais que aludem à aliança com a Ordem de Avis; do outro, as forças francesas e hispânicas, propositadamente barulhentas por força do número e por força do preconceito cultural. Este último pelotão, numa das Melhores entradas em cena do Teatro português contemporâneo, surge do bastidor a cantar uma rapsódia que harmoniza o canónico La Vie en Rose com o afamado one-hit wonder Macarena, conduzidos primorosamente por Filipe Raposo e acompanhados pela competente orquestra – estão então distribuídas as peças para as próximas duas horas de um xadrez distópico a que o encenador e dramaturgo Ricardo Neves-Neves já nos habituou.

Destaca-se a forma cifrada com que o autor justapõe os acontecimentos do passado à realidade do mundo contemporâneo. Entre vários apontamentos, uns mais subtis que outros, salta à vista o comportamento do pelotão inglês que, cedendo na precisão histórica mas carregando no ímpeto cómico, deserta do campo de batalha por esta se desenrolar às cinco horas da tarde, num coreografado Brexit que posicionaria algures entre um Chá dos Chalados e uma Danse Macabre. Noutra nota, é palpável a alusão à crise da fada branca nos (outros) anos oitenta (1385 vs. 1980) através tanto da constante presença de farinha ao longo do espetáculo como pela forma notável como o elenco integrou as várias fases da adição à cocaína (a subida, o êxtase, a descida e a abstinência) no respetivo desenvolvimento do enredo e das personagens.

São de resto — as personagens­ ­— os motivos melhor conseguidos de todo o espetáculo. Destaca-se de longe a prestação de Tânia Alves que, de uma forma sublime e despreocupada dá corpo e voz a ambos regentes D. João de Castela e D. João de Portugal. Felizmente surgem ainda, numa recorrência a espetáculos anteriores, as três Virgens a quem Nuno — Alvares e Pereira — prometem a eventual vitória. Os alunos finalistas da Escola Superior de Cinema e Teatro apresentam-se aqui também com um excelente desempenho físico e elevada disponibilidade, preenchendo a cena de forma competente e bem articulada.

Comentário final para a cena final: face ao desânimo dos portugueses pela inferioridade numérica, pela deserção dos ingleses e pelo avançar das forças opositoras em harmonias bem vocalizadas, surge numa colossal pá de padeira cenografada, descendo da teia e envolvida Por uma aura celestial, a lendária heroína Brites de Almeida (Márcia Cardoso), entoando rimas orelhudas como Contra hermanos e sem batota / Ganha a padeira de Aljubarrota ou ainda Forte de braços e de peida / Só a Brites de Almeida. Esmagando o pelotão franco-hispânico com a pá e com o pano de veludo vermelho do proscénio, dá por vitoriosos os portugueses e, por força das circunstâncias, as gargalhadas do público.

A Batalha de Aljubarrota dá rotação à programação cultural que se viu paralisada nos últimos meses, sendo um pretexto ótimo para quebrar o jejum cultural e atacar, sofregamente, as bilheteiras.

Critic@ Sombr@
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