A caminho da Luz

Por Pedro Mendes

E se o desenho de luz fosse o ponto de partida para um espectáculo? Este foi justamente o desafio que o colectivo Bestiário lançou ao desenhador de luz Manuel Abrantes para a sua sétima criação, “LUMINA”, depois de “UMBRA”, também com desenho de luz do mesmo autor, nos ter levado pelos caminhos da escuridão.

O primeiro quadro da performance, a que chamaria prólogo, remete para uma pintura renascentista. Movimentos lentos, que se vão descobrindo aos poucos, convidam à introspecção e são de uma rara beleza.

Em outro momento que destaco, recortes geométricos de luz aparecem no chão, que os performers ocupam, ora estáticos ora em movimentos variados: em passo apressado, aos saltinhos, ou em voo. Entramos e saimos da luz, parece-me uma boa metáfora para a vida.

Sem querer revelar demasiado, refiro mais um momento do espectáculo: Com os braços estendidos “em cristo” e inseridos em projectores de luz, os actores produzem uma polifonia de vozes cadenciadas e a ritmo acelerado, que se intertecem. Cada voz vai assumindo protagonismo (em volume) enquanto as restantes recolhem para um sussurro. A forma virtuosa como esta teia é urdida é de um virtuosismo que destaco.

Não é habitual uma criação partir do desenho de luz. A luz assume, por isso, papel de relevo. O trabalho de Manuel Abrantes nesta, como em outras criações, é de um rigor e criatividade assinaláveis.

Foi também refrescante ver actores com uma formação predominantemente de teatro pisarem territórios da dança nesta criação com eficácia. Assim se demonstra que as várias artes se cruzam, e se devem cruzar.

Termino fazendo notar a clara evolução no trabalho do colectivo Bestiário ao longo dos anos, de projecto em projecto e que, em LUMINA, atinge um ponto alto.

“LUMINA”, de Bestiário
08/05/2022
Centro Cultural de Belém

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