A esfinge e o ser ocidental

Por Patrícia Portela

Um ser humano, um homem, atravessou um deserto como se passeasse e, enquanto andava, pensava.

Andou tanto sem avistar a cor verde que a sua fome e a sua sede acabaram por ver, lá ao fundo, um oásis guardado por um muro. E para lá caminhou.

À porta, uma esfinge. A esfinge, coberta quase por completo por uma exuberante floresta que a comia com voracidade e lentidão, anunciava o fim de mais uma civilização. Este homem, branco e de meia-idade, como muitos, lembrava-se vagamente da famosa questão que a esfinge uma vez colocara. Deixou-se ficar à sua frente e, com sobranceria, aguardou que a estátua falasse, convencido da sua ocidental e certeira resposta.

A esfinge perguntou:

– O que caminha com quatro patas ao amanhecer, duas patas  durante a tarde, três patas de noite e sem nenhuma durante o resto da tua eternidade?

Sem parar para refletir, o homem, que era grego, mas também troiano, responde, com naturalidade:

– Eu.

A esfinge corrigiu:

– Não. A resposta correcta é: o teu crescimento! Erraste. Terei de te devorar!

A esfinge ergueu-se como um felino sobre o homem, tão erudito, tão bem formado, mas já ligeiramente arqueado pela idade e por muitas horas à secretária, e o homem, assustado, gritou:

– Espera, não era bem essa a pergunta e não era bem esta a resposta, pensava que… já percebi,  pode fazer-me a pergunta de novo?

A esfinge voltou a empedernir e disse, com toda a calma:

–  Com certeza: Dois gémeos dão-se à luz um ao outro. Quem são?

O homem, cheio de condecorações e cargos importantes, percebeu que era e não era a mesma pergunta e, como já tinha lido muito e considerava perceber muito sobre a actualidade e os protestos dos poetas e dos operários, respondeu com a satisfação de quem evita uma armadilha:

– É quem funda um banco e quem rouba um banco; são o mesmo!

– Não – responde a esfinge com uma voz fininha. – A resposta é “o dia e a noite”. Erraste. Terei de te devorar.

– Espere, espere! Já percebi, pensei que estava a propor uma metáfora! Não me pode fazer mais uma vez a mesma pergunta? Não ouvi bem.

– Com certeza. Porque tenho um corpo de leão e a cabeça de um gato?

Pela primeira vez, o homem desapertou o colarinho e duvidou da pronta resposta.

– Não me pode fazer antes a primeira pergunta?

– Claro que posso. Quem é o mais corajoso, o que responde mesmo sabendo que está errado ou o que não fala porque sabe que não pode acertar?

Não obtendo resposta, a esfinge sorri. E faz uma nova pergunta:

– O que é pior? O que se diz ou o que se faz? E 2+2, quantos não podem ser?

– Vai mesmo devorar-me? – pergunta o homem que, por breves momentos, se lembrou da mulher e dos filhos e do amante e daquele amigo que nunca mais viu.

– Imagina que tens o futuro nas tuas mãos. O que escolherias? Espatifar o sistema que construíste ou falir o planeta? Devorar destruindo ou ser devorado?

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

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