A espuma dos dias: Dezembro 2019

Por Pedro Mendes

O (Orçamento de) Estado da Cultura

Dezembro foi mês de apresentação do Orçamento de Estado para 2020. O Governo tem prometido mais dinheiro para a Cultura. O sector pede há anos 1% de investimento desse orçamento. Verifica-se que ainda não é desta que se concretiza. Já contando com a RTP, que leva mais de metade das verbas, o investimento em cultura será de 523,4 milhões de euros (em 2019 foi de 501,2). Este investimento corresponde a 0,55% do total do Orçamento de Estado. Sendo certo que só em Janeiro se discutirá e aprovará, não se esperam grandes alterações aos números apresentados.

Ainda antes da apresentação do OE, o sector cultural manifestou-se em vários locais do país para exigir o tal 1%, tendo algumas vozes reclamado a demissão da Ministra. Um dos argumentos foi a falta de diálogo com o sector, que lhe dirigiu várias missivas e pedidos de audiência sem resposta. Em declarações posteriores na Assembleia da República, a Ministra Graça Fonseca anunciou que as estruturas e artistas serão recebidos por ela durante o mês de Janeiro. Justificou o timing alegando que não seria correcto ouvi-los enquanto decorria o concurso da Direcção Geral das Artes.

Termino lembrando algo que escrevi no contraCenas: Faz falta continuada regularidade e previsibilidade nos prazos e procedimentos dos concursos. Sem isto, a vida das estruturas artísticas, já em grande parte precária, fica ligada à máquina. Isto se houver dinheiro para a máquina. Faz falta mais dinheiro, bem distribuído. Faz falta cobrir todo o país com oferta cultural de qualidade. Faz falta dar oportunidades aos novos e não faltar no apoio aos antigos.

Mau tempo no canal

Por efeito da depressão Elsa, o MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia) – inaugurado em 2016 – sofreu alguns danos e só reabrirá em Março. Também há duas semanas, no Teatro Camões, sede da Companhia Nacional de Bailado, a queda de uma vara provocou dois feridos, tendo o espectáculo “Quebra Nozes” sido interrompido por vários dias. Há cerca de seis meses, parte da pala deste teatro, inaugurado aquando da Expo’98,  caiu e interditou a entrada principal da sala.

Estes incidentes fazem refectir sobre o estado de conservação dos equipamentos culturais em Portugal. Numa altura em que o Ministério da Cultura anuncia uma lotaria do património (à semelhança do que acontece, por exemplo, em França), não seria importante olhar também para as estruturas contemporâneas e em funcionamento? Também numa altura em que se criou uma Rede de Teatros e Cineteatros, importa que reúnam todas as condições técnicas e de segurança para bem acolher trabalhadores e público.

Prémio Pessoa 2019

Os dias de Tiago Rodrigues parecem ter mais de 24 horas. Há pessoas assim. O encenador, actor, dramaturgo, produtor, e Director do Teatro Nacional D. Maria II, foi o vencedor do Prémio Pessoa 2019. É o mais jovem galardoado depois da cientista Maria Manuel Mota, que recebeu o prémio com a mesma idade, 42 anos.

Tiago Rodrigues tem um dia-a-dia frenético, entre a gestão do D. Maria II e uma carreira cada vez mais internacional com as suas criações. Desdobra-se em trabalho de gestão do dia-a-dia, programação artística, viagens, escrita, e muito mais. É assim desde 2015, altura em que surgiu o convite para dirigir o Teatro Nacional. Mas desde os dias iniciais da sua estrutura “Mundo Perfeito”, em 2003, tem criado e apresentado inúmeros trabalhos dentro e, a partir de dado momento, fora de portas.

Em declarações à TSF considera que o prémio também premeia a qualidade e vitalidade do teatro que se faz em Portugal, e espera que ajude o sector cultural a ter mais verbas no Orçamento de Estado. Aguardamos para ver como continua a transformar o seu mundo cheio de afazeres num mundo (cada vez mais) perfeito.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.