A Memória do Quilombo na luta pelo Futuro

Sara Figueiredo Costa

Venceu a última edição do Prémio Leya com Torto Arado, um romance ambientado no interior do Brasil onde os ecos do sistema esclavagista e as duras condições de vida se cruzam num quotidiano intemporal. Itamar Vieira Júnior esteve em Portugal a promover Torto Arado e falou com a Blimunda sobre o seu trabalho literário, a formação em geografia e antropologia que o levou a conhecer as comunidades quilombolas do Nordeste brasileiro e a necessidade de continuar a lutar pelos direitos humanos e pelas conquistas sociais que o recente governo de Bolsonaro quer destruir no Brasil.

O romance começa com uma língua cortada, situação que coloca uma das protagonistas numa existência sem fala, precisando que outros falem por ela. Esta ideia do direito à fala, da capacidade de expressão, é uma das linhas de força desta história?
Sim, e quando pensei nessa personagem que não tem fala, que sofre esse acidente, pensei justamente na falta de voz que existe nas populações que a obra retrata, no caso, esse grupo de trabalhadores que descende de pessoas escravizadas e vive num regime de servidão que se estende até aos nossos dias. Era uma forma de materializar essa coisa que é muito forte, que é a falta de voz, que muitos segmentos têm na sociedade brasileira, principalmente as minorias étnicas, mas não só.

Essa luta pelo direito à voz tem, neste romance, duas vertentes: os quilombolas, descendentes dos escravizados, e as mulheres. Suponho que não será por acaso que estes dois grupos, chamemos-lhes assim, estão no centro de Tordo Arado.
Claro que não. Há mais de dez anos que trabalho com populações camponesas e, entre essas populações, tive um contacto mais forte com as comunidades quilombolas. Fiz o meu doutorado nessa linha, uma etnografia sobre uma comunidade do interior do estado da Bahia e isso me deixou entender uma série de questões e me marcou profundamente. A linguagem académica é um pouco hermética, fica ali restrita a um grupo, mas a literatura tem essa capacidade de se expandir, de atingir um púbico que não necessariamente precisa estar ligado à pesquisa científica e pode ter contacto com essa história de uma forma muito diferente. E a pequena trajetória do livro tem-me mostrado isso, que pessoas de diferentes origens têm lido e têm-se surpreendido, e ao mesmo tempo têm reconhecido a história dos seus antepassados, também, nestas páginas. Porquê mulheres? Nesta região do país, e mais especificamente em muitas comunidades quilombolas, a mulher assume um protagonismo pelas circunstâncias: o homem deixa a terra para ir trabalhar em outro lugar, porque se vive esse conflito permanente, muitas vezes o homem morre mais cedo, e as mulheres assumem a chefia das famílias, a liderança da comunidade, então, se eu quisesse falar sobre este campo, esta sociedade, precisava falar sobre as mulheres e elas precisavam protagonizar a história de alguma forma. E vem muito a calhar também porque o Brasil é uma sociedade profundamente patriarcal, e ao mesmo tempo a mulher tem uma força imensa, consegue resistir, sofre violência, mas nunca de forma passiva, e muitas vezes reage com força… isso é uma coisa que me marca muito e me marcou nessa convivência, até com as mulheres da minha família. No fundo, foram uma inspiração.

Apesar do protagonismo que possa assumir em certas comunidades, isso não apaga a violência, a objectificação. Neste livro, as mulheres assumem esse protagonismo depois da morte de Zeca Chapéu Grande, ou seja, do patriarca. Mesmo dentro de comunidades onde as mulheres possam ter um protagonismo grande, o poder só muda de mãos depois de os homens já não estarem.
A história compreende um período de quase quarenta anos e começa no momento em que a figura masculina, o patriarcado, ainda é bastante forte. Continua a ser, mas ele vai-se modificando ao longo do tempo. O Zeca é aquele personagem que inicia a peregrinação até Água Negra e os trabalhadores que estão ali vêm de origens distintas, mas todos descendem de ex-escravizadas, e o Zeca, pelo seu dom espiritual, termina assumindo essa liderança. Durante um tempo, também permitiu uma imobilidade destas pessoas em relação à sua situação na terra, porque podem fixar-se. Ele tinha morada, os outros trabalhadores também, e tinha uma certa gratidão pelo senhor que deixou ele morar ali e não deixava que as pessoas manifestassem o contrário… Ao mesmo tempo, ele protegeu aquelas pessoas de uma violência maior, mas na sua visão de mundo, que era muito circunscrita, sem a visão crítica do que era a exploração. Quando ele não está mais na história, as duas irmãs, principalmente a Bibiana, assumem esse protagonismo. E a luta pelo reconhecimento, pelo direito à terra, ganha um tom mais político, porque a Bibiana deixa a fazenda e regressa depois de ter contacto com outras pessoas, com sindicatos de trabalhadores, com pessoas que vivem essa exploração toda, e volta com a consciência política de tudo isso.

E com a reclamação do direito à educação.
Exatamente. Ela volta como professora, uma professora sem formação superior, mas capaz de alfabetizar e já com essa consciência mais ampla do que foi o passado do seu povo e da exploração que sofreu, que mais do que permanecer imutável ao longo do tempo, tende a se acirrar, porque mudam os proprietários e isso vai mudar a vida das pessoas…

O direito à palavra, à fala, é também uma forma de assegurar a preservação da memória coletiva, como acontece com as histórias familiares e mitológicas contadas pela mãe?
É uma coisa que marca a minha convivência pessoal com os trabalhadores rurais, o poder da oralidade. Como se transmite a história ao longo do tempo. Embora no livro esta memória seja um tanto fragmentada, porque a escravidão foi um período muito tenebroso da história de vida de muitas pessoas e houve um movimento para que isso fosse apagado, esquecido, até pelas próprias pessoas que a sofreram, porque recordar era recordar o sofrimento, era o trauma. As pessoas seguiam a sua vida sempre olhando para a frente, mas não adianta muito, porque tudo o que se vive tem uma relação com o passado. Sem adiantar muito sobre a história do livro, na última parte temos uma personagem que tem uma compreensão maior da história, porque pôde viver os séculos e atravessar o tempo, vivendo o que os antepassados daquelas pessoas viveram e já não guardavam na memória: cada ato de violência, cada situação de confronto. Ela tem essa compreensão maior, o que possibilita ao leitor ter também uma visão mais ampla da história e da jornada daquelas pessoas.

Como se essa personagem fosse a personificação de uma memória coletiva?
Exato, como uma consciência. E quando inicia a terceira parte do livro, essa personagem refere que está sendo esquecida, porque o mundo muda muito rápido e as pessoas já não sabem quem ela é, embora seja uma personagem longeva. Ela quer intervir, contar essa história, para que a memória não se acabe, antes que se esqueçam dela por completo.

A escravatura no Brasil é oficialmente abolida no fim do século XIX, mas há situações que se mantêm de muitos – demasiados – pontos de vista, com muitas pessoas a terem uma relação com a terra, com os seus direitos, com as suas vidas, que não é assim tão diferente daquela que existia quando havia pessoas escravizadas com o aval do Estado. Como é que podemos olhar para isto hoje?
A escravidão nos deixou um legado, o do racismo estrutural, muito arreigado na sociedade brasileira. É uma memória trágica, mas ao mesmo tempo o Brasil nunca se voltou para isso de uma forma crítica, honesta, para resolver esses problemas que advêm de tudo isso. Quando foi abolida a escravidão, foi apenas na lei, aquelas pessoas não poderiam ser mais vendidas, não pertenciam mais a ninguém, mas não foi feita uma política para acolher na sociedade ou compensar aquelas pessoas, que passaram a viver sem dinheiro, sem recursos, de forma errante, se sujeitando a todo o tipo de trabalho e de exploração. O tempo vai passando, já atravessámos mais de um século desde a abolição – e o Brasil foi o último país a abolir a escravidão – e a gente percebe que essa estrutura perversa permaneceu na sociedade brasileira. Se olharmos, hoje, a alfabetização e vários índices sócio-económicos no país, o negro está sempre numa posição inferior, ocupando com força o sistema carcerário, tendo acesso a menos estudos, o índice de desemprego é maior… isso não é por acaso, isso nunca foi resolvido. Tivemos até um ensaio, um tanto tímido, nos últimos governos, de inserção nas universidades, com as quotas no ensino superior, a regularização de terra para comunidades quilombolas, tudo isso aconteceu de forma muito fraca, mas começou a acontecer, já havia essa discussão. Mas agora houve uma rutura muito grande e essas políticas correm um enorme risco de não prosseguir, porque o atual governo tem uma visão muito diferente da questão. Falo de racismo estrutural, porque é o que mais sobressai, mas a gente tem episódios de racismo quotidiano, muitos episódios, e não é à toa que essa história me comove e me inquieta, e por isso tive vontade de a contar com o alcance que só a literatura permite.

E é uma história que se conta de um modo intemporal. Temos algumas referências, mas nunca demasiado específicas cronologicamente, mas é uma história que poderia acontecer hoje. Porquê?
Conheci comunidades onde a energia elétrica chegou no início dos anos 2000. A televisão chegou no fim da década de 90, porque havia famílias que compravam um gerador pequeno, ou pediam emprestado, e assistiam uma parte da novela, mas quando acabava a bateria ficavam sem saber o resto… O Brasil é um país muito anacrónico e dependendo de onde você estiver, vai ter um país com tecnologia de ponta ou, nos rincões mais recônditos, as coisas parecem ter parado no século XIX. É isso que eu tanto trazer para a história. E não faço referência a datas, aos anos, porque preferia que as pessoas duvidassem sobre que Brasil é este. O de hoje, o de ontem? Gostaria de dizer que este é um livro histórico, datado, mas não é, de facto.

É inevitável perguntar por aquilo que sente perante a situação atual do Brasil, desde a eleição de Bolsonar…
A ascensão do populismo não é um fenómeno apenas do Brasil. Há pouco estava a ler uma entrevista com o Pedro Almodóvar e ele dizia que o Trump abriu as portas do inferno, liberou cada louco de sua casa… o Brasil não está distante disto. Há um ano, não imaginava que a eleição de Bolsonaro pudesse acontecer, é uma questão que ainda nos parece nebulosa, não sabemos como e porquê aconteceu, de facto. Uma coisa é certa, já está em curso um programa de destruição de direitos, de conquistas sociais, da preservação da amazónia, as políticas de regularização de terras para indígenas, quilombolas e outras minorias, a universidade sendo profundamente atacada por uma ideologia que é inimiga da cultura e da educação. Tenho olhado tudo um tanto assustado, sem saber onde tudo isso vai parar, mas já vejo uma reação dentro da sociedade brasileira a este projeto de destruição, e não é pequena. Apesar deles, vamos superar e certamente sairemos um país mais forte e mais consciente. Até porque Bolsonaro não tem um apoio maciço dentro da sociedade, acredito que o fenómeno deste voto foi pontual. Hoje, as pesquisas de opinião já dizem que o apoio dele é muito menor do que na altura da eleição, as pessoas já despertaram, houve também uma guerra suja na eleição, com as notícias falsas… o Brasil é um país que ainda carece de educação e muitas pessoas foram levadas a acreditar nessas notícias. Nada está resolvido. Bolsonaro está no poder e existe, de facto, um projeto de destruição em curso, mas estamos vigilantes e acredito que vamos conseguir lutar. Ou, pelo menos, fazer muito barulho…

Antes de Torto Arado, tinha escrito contos. Como navega entre essas duas formas literárias, o conto e o romance?
Sou leitor de contos e romances. Creio que foi um processo natural iniciar a minha escrita pelo conto. Tinha várias histórias e talvez o formato do conto fosse o mais apropriado para as contar. O meu primeiro trabalho foi uma novela da qual me sinto muito distante, tem mais de dez anos e já não falo muito dela…

Foi publicada?
Sim, mas com recursos próprios, e eu distribuí, nem sequer foi vendida.

E qual era o título?
Paraíso. Mas já não falo muito dela porque não sinto qualquer identificação. Depois, publiquei dois livros de contos que submeti a concursos, porque não tinha qualquer contacto com o mundo editorial. Os livros foram premiados, e então se publicaram e as pessoas puderam ler. Depois, aconteceu o romance. São trabalhos distintos, o romance é um projeto de longo prazo, há muita pesquisa, pede muito cuidado, muito tempo. O conto, depende, mas pode escrever-se em pouco tempo e a estrutura é muito diferente. Talvez até seja uma forma mais adequada aos nossos tempos, por ser mais breve, mas tenho apreço pelas duas formas, de facto. E continuo escrevendo contos.

Esta história de Torto Arado acompanha-o desde os dezasseis anos, como já disse em várias entrevistas – a versão inicial foi escrita na adolescência e perdida numa mudança de casa. Porque decidiu voltar a ela depois de tantos anos?
Eu conhecia a literatura brasileira regionalista das décadas de 40 e 50, esses romances voltados para o mundo rural brasileiro que li na adolescência, e impressionava-me muito, era uma coisa forte, as desigualdades já estavam ali, mas eu não tinha contacto com isso, porque vivia na cidade. Então, escrevi uma história com duas irmãs, com uma relação que é próxima, mas também se distancia, e com a relação delas com o pai. Escrevi oitenta páginas que se perderam numa mudança de casa e eu fiquei triste, claro, mas o tempo foi passando e vi que não tinha maturidade para escrever. E aconteceu de eu fazer esse caminho, estudei geografia, depois fiz um doutorado na área da antropologia, passei a trabalhar no campo e tive contacto com trabalhadores rurais, o que me permitiu conhecer aquele universo, escutar, aprender, conhecer a vida das pessoas. Isso cresceu muito forte em mim e aí eu lembrei da história e o desejo de escrever voltou.

E o título já era este, com o verso de Tomás António Gonzaga?
Sim, isso permaneceu. Ainda lembro da página datilografada na máquina de escrever que o meu pai me deu… Quando retomei essa história há dois anos, ou três, comecei a contar e, na minha mente, havia outro título, mas algures a meio, o título voltou, porque é o título que falta dessa relação com a terra, da situação. O arado é aquele instrumento que trabalha a terra e é um arado que envelhece, que entorta, e que acompanha as famílias que permanecem ali, com uma visão também distorcida da ideia de servidão. Não podia ser outro título. E veio de um poeta português que viveu no Brasil, e o livro acabou por ser escrito no Brasil e publicado em Portugal…

No âmbito do Prémio Leya. Como decidiu concorrer?
Não escrevi pensando em prémio, mas queria publicar. Quando soube do prémio, o prazo estava quase no fim, mas arrisquei e enviei, mesmo sem nenhuma esperança… É uma história que hoje eu olho e vejo que tem elementos universais, mas é uma história sobre o interior do Brasil, que tentei escrever numa linguagem simples, sem querer mimetizar a fala de um camponês, mas mantendo essa simplicidade, que soasse credível. E o livro acabou por sair aqui primeiro. No Brasil, só vai ser publicado em agosto, pela Todavia.

Voltando à literatura que leu na adolescência, sobretudo os grandes romances ambientados em mundo rural, como os de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, que influência isso exerceu na sua escrita e na sua formação?
Essas leituras me marcaram profundamente na adolescência, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo, Guimarães Rosa… Fiz um caminho um pouco estranho como leitor, porque logo depois de começar a ler livros infantojuvenis, comecei a ler outros. Não havia uma cultura de leitura na minha família e caí de cabeça nos clássicos da literatura em língua portuguesa, Machado de Assis, Eça de Queiróz…

Então, esses livros não existiam em sua casa?
Não, eu ia à biblioteca. E quando o meu pai tinha algum dinheiro sobrando e queria me dar um presente, eu pedia um livro. Foi aí que fui lendo tudo isso, os clássicos, mais tarde os contemporâneos, e foi aí que li esses grandes romances regionalistas que me influenciaram na génese de Torto Arado.

E a geografia, influenciou esta atenção aos lugares e ao modo como as pessoas os habitam, tão presente no romance?
Com certeza. Tudo o que a gente aprende, a gente leva para a vida. Tinha esse desejo de ser escritor desde a infância, mas não tinha um apoio para isso em casa, meus pais pensavam que era um sonho, uma coisa que talvez não me desse muito futuro e queriam que eu fosse estudar, ter uma profissão. Então, fui estudar geografia fui dar aulas, depois fui para o campo da antropologia e tudo isso ajudou a formar o homem que hoje escreve. Para estas pessoas, a terra é um personagem, ganha profundidade, é uma perspetiva de vida, e eu trouxe para o livro esse conhecimento sobre a terra e as pessoas, o modo como se relacionam com a terra. Hoje, penso que foi bom não ter ido para a área das letras, porque pude aprender outras coisas, estudar outras coisas. Durante um tempo, lamentei, porque queria fazer apenas isso, escrever, mas hoje sei que foi bom. E o facto de eu não viver da escrita, de ter um trabalho, me permite conhecer outras pessoas, outras realidades.

Onde trabalha?
Sou servidor público, trabalho no Ministério da Agricultura há uns treze anos. Vivo uma vida um pouco distante da literatura, num certo sentido… e não vou falar sobre aquele escritor da classe média, vivendo uma crise de criação, prefiro falar sobre outras histórias, de outros mundos, pessoas que muitas vezes não nos estão próximas.

Que impacto teve o Prémio Leya?
Foi radical. Eu tinha um pequeno trabalho literário, que começava a ter alguma atenção no Brasil… duas semanas antes do anúncio do Prémio Leya, recebi o anúncio de que o livro de contos A Oração do Carrasco era finalista do Prémio Jabuti, e isso já trouxe mais atenção. Depois veio o Prémio Leya e a minha vida não foi mais a mesma. Estou aqui em Portugl pela segunda vez a promover o livro, agora estou a percorrer o país e tenho encontrado muitos leitores. Isso é muito bom.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de junho de 2019.

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