A verdade é a nossa ilusão, a nossa maior desilusão é a mentira

Keanu Reeves a desafiar a Matrix

Por Patricia Portela

Sentei-me e apontei estas palavras, decidida a começar esta crónica. Mas quando me debrucei sobre elas e me dei ao trabalho de as ler com mais atenção, percebi que não é isto o que penso nem o que quero dizer. E corrigi a frase para:

A mentira é a nossa ilusão, a nossa maior desilusão tem sido a verdade.

E comecei a discorrer. Sobre crescer com a ilusão de estar a viver numa época muito melhor do que a dos meus pais; sobre tornar-me adulta numa época em que se questionava (ainda!) se uma árvore que caísse na floresta cairia de facto se a não ouvíssemos, e viver agora, neste momento em que o maior icebergue do mundo, o A68, com uma área de 6800 km2 entra no Atlântico depois de se desprender da Antártida em 2017 sem que ninguém o tivesse visto… Será que só se desprendeu agora?

Vivemos num momento em que essa mesma Antártida ultrapassou os 20º centígrados pela primeira vez na história (mensurável, claro) do planeta, momento esse em que  nós ainda bebemos água por garrafas de plástico. Deslocamo-nos de autocarro até restaurantes na esquina, apanhamos aviões quando poderíamos escolher outros meios transporte. Discutimos a possibilidade de a palavra não ter poder nenhum – talvez temendo que o nosso óbvio de hoje nos pareça estúpido amanhã –, enquanto usamos as mais belas frases na esperança de que elas, por osmose, e contra a nossa expectativa, mudem o mundo em que vivemos. Mas, talvez devêssemos pensar: como poderemos escrever o como e o quanto o mundo nos tem mudado, a nós, e o que passámos a pensar e não pensávamos antes?

Relembro um dos meus autores preferidos, de ficção científica, Stanislaw Lem, que escreveu o livro mais aterrador que alguma vez li: Memórias Encontradas numa Banheira. Uma história passada no ano 3149, quando uma papyrálysis ataca o mundo, e uma sede de destruir o papel termina com a história escrita do planeta. Felizmente a memória desse mesmo planeta é preservada por séculos, dentro de uma rocha vulcânica, por uma comunidade isolada e hermética.

Queria aqui destacar um capítulo minúsculo que, creio, mais tarde até inspirou os autores do filme Matrix. Esse capítulo descreve os habitantes dessa comunidade e o seu consumo de todo o tipo de drogas para fugirem à realidade do quotidiano. Através de uns pequenos comprimidos, podem habitar mundos meio viscosos, gelatinosos, com paredes maleáveis, cenários disformes e cheiros inclassificáveis. Era este o divertimento destes seres do século XXX, e até aqui tudo bem, o livro é dos anos 70 e o delírio por estupefacientes enquanto entretenimento ou mesmo cura de doenças várias eram o tema do momento. Mas o que era assustador no livro não era a descrição de uma comunidade a viver entre dois mundos, o real e o imaginário, essa era a parte banal, sempre nos dividimos por mundos paralelos, com comprimidos ou com literatura de viagens. O que era de facto assustador era que a certa altura, uma das personagens, numa banheira, em clara overdose de mundos, decide deixar de tomar os comprimidos e ressacar. Nesse momento percebe, já não me lembro como, que sem os comprimidos ele viveria preso na alternativa fantástica até morrer por falta de realidade! Ou seja, o mundo ao qual ele pertencia era o viscoso, o lamacento, o disforme, aquele ao qual só podia aceder se tomasse os comprimidos. O outro era o escape: e assim se aguenta esta vida que se leva.

Hoje, algo me diz que esta descrição é literal em relação a 2020.

Muitos anos após a primeira leitura de Stanislav Lem, li o meu primeiro ensaio de Edmund Husserl, o pai da fenomenologia e um filósofo verdadeiramente psicadélico, não no sentido científico do termo, nem no sentido estupefaciente de uma pastilha de LSD ou de um concerto dos Beatles, mas no sentido em que ler um Kant ou ver demasiados filmes do Jacques Tati nos muda para sempre a forma de olharmos o mundo e de o tentarmos compreender. E recomendo vivamente a experiência, apesar de Kant, Tati ou Husserl nos colocarem a mesma questão de Lem:  Qual será a ilusão? Qual será a realidade? E virá alguma desilusão da resposta?

(Correntes D’Escritas XXI parte 1… to be continued…)

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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Comments

  1. A tua escrita é como um bálsamo….afaga os músculos da mente e desfaz os nós do intelecto.

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