(Abro aqui um parêntesis)

Por Patricia Portela

Porque já me cruzei com Husserl, o filósofo que afirma que todos temos uma missão, e que recusá-la é fechar os olhos à nossa própria humanidade, porque o meu coração parou quando viu Alibi, de Meg Stuart e porque li Kertész pela primeira vez demasiado tarde para me dizer sua cúmplice mas no tempo certo para perceber porque sou mãe, abracei uma vizinha

Abro um parêntesis para vos informar que esta recente vizinha, flamenga, mãe solteira perdeu o emprego que tinha num notário porque se trocou numas tabelas de excel durante o teletrabalho, perdeu o companheiro para as incertezas várias da crise de meia-idade, perdeu vários quilos com a ansiedade e a angústia, perdeu a máquina de lavar roupa por motivos técnicos desconhecidos e perdeu o sentido das coisas. Tudo isto nas últimas semanas e sem sair de casa.

Ontem, pela primeira vez bateu-me à porta, não para pedir que lhe lave a roupa, não para perguntar se tenho alhos ou azeite, não para perguntar se bebo um café, mas para me dizer “Estamos todos loucos”, uma forma incomum entre vizinhas para gritar “Preciso de um abraço!” E eu dei-lho. Sem hesitar nem trocar palavra.

Abro um parêntesis dentro do parêntesis para falar de um episódio que me marcou em Kaddish para uma Criança Que Não Vai Nascer, de Imre Kertész, uma resposta do autor húngaro à pergunta “Porque não quer ter um filho?” São meia dúzia de páginas em que o autor descreve um olhar. Um olhar entre dois prisioneiros num campo de concentração. Um jovem, que ainda não devia ter 16 anos, oferece-se para carregar a enxada de outro, mais velho, que aparenta estar mais frágil e doente, e que, em troca, pega nas duas lancheiras de pão ressesso. No momento de subirem para a carrinha que os levaria para o local onde continuariam os trabalhos forçados do dia, são separados. Têm destinos diferentes. Um com duas enxadas. Outro com dois farnéis de comida. O que tem as duas enxadas pensa “Vou morrer!” porque sabe que não é permitido sair da fila e que fazê-lo é arriscar a morte, sabe que ficar com dois farnéis de comida é melhor do que duas enxadas quando se vive no limiar da morte, sabe que não pode desejar mal àquele que lhe levou o farnel. E enquanto nós, leitores que nos tornamos neste homem de enxadas na mão mas sem farnel, compreendemos e aceitamos a sua angústia e a sua lógica, o narrador descreve-nos o que aconteceu em seguida. O parceiro mais velho saltou da carrinha onde estava para entregar o farnel ao rapaz das duas enxadas. Trocaram um brevíssimo olhar. O do rapaz de incredulidade, o do mais velho, em resposta, de um “Quem julgas tu que sou?”. E nunca mais se viram. E aqui começa a reza fúnebre, o kaddish para a criança que não nasceu. O que é afinal um ser humano? Aquele que pensa “Não é melhor ter duas enxadas”? ou aquele que pensa “Não posso deixar este miúdo sem pão”?

Terminei a leitura de Kaddish quando chegava a Chicago num autocarro onde passara as últimas 12 horas. Quando me levantei, atrapalhada, para sair a correr na minha paragem, lembro-me de ter passado à frente de uma senhora de idade que aguardava que eu lhe segurasse a porta e a ajudasse a sair. Não tive tempo nem linguagem para reparar o dano, o incómodo com que saía da oração de Imre Kertész não me permitiu chegar à minha geografia a tempo de reparar a minha falha. Ficou-me esta imensa vergonha presa à leitura da obra.

Não tenho o livro comigo para confirmar esta imagem que tenho dele. Mas numa sociedade que anuncia que já é permitido abraçar até 10 pessoas na Bélgica, que proíbe o sexo com estranhos no Reino Unido ou que sai à rua em Itália para queimar máscaras em praça pública, acusando o governo de conspiração e abuso de poder devido ao COVID 19, o meu abraço reitera mas também consola Kertész. O meu abraço instintivo e o meu sim feminino à minha vizinha . Viemos ao mundo para cuidarmos uns dos outros e damos crianças ao mundo para aprendermos a cuidar. Não posso só responder a Husserl. Também devo responder ao não de Kertész.

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

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