Alexandre Pascoal – Entrevista

Esta semana conversámos com Alexandre Pascoal, programador do Teatro Micalelense. Falou-se do papel desta sala no tecido cultural dos Açores, do desafio de o programar, do que se pode esperar nos próximos tempos, e também do panorama cultural no arquipélago.

Qual o papel do Teatro Micaelense no tecido cultural dos Açores?
O Teatro Micaelense reabriu, renovado, em 2004 e, desde então, passou a ser a primeira sala a funcionar com uma equipa profissional, em permanência, no arquipélago. É uma entidade pública empresarial e que tem a tutela da Secretária Regional da Educação e Cultura do Governo dos Açores. A sua actividade está repartida entre a programação cultural (70%) e a do Centro de Congressos (30%). É, sobretudo, uma estrutura de acolhimento, mas apresenta, pontualmente, produção própria (artes performativas e música), em coprodução com as estruturas criativas do arquipélago.

Como tem sido o desafio de programar este teatro?
Programar nos Açores é um desafio permanente, sendo que o contexto e dimensão de Ponta Delgada não é a mesmo da ilha (de São Miguel), nem das restantes ilhas dos Açores. A importância da introdução de uma programação regular e atempada, a par com um trabalho continuado na medição e formação de públicos, tem sido uma preocupação constante desde a reabertura. Os anos de crise fizeram diminuir as opções de programação, sem que, no entanto, o espaço tivesse perdido a sua identidade.

Quais as principais linhas orientadoras da programação?
A reduzida escala geográfica faz com que o público seja, em muitos dias, o mesmo. A programação reflecte um carácter transversal, não especializado. A linha de programação é construída com base no equilíbrio do acolhimento de artistas e companhias nacionais e internacionais, com o trabalho em estreita parceria com a comunidade artística regional, seja na música ou na dança, na medida em que temos, por exemplo, uma ligação forte com o Conservatório Regional de Ponta Delgada e as múltiplas escolas de dança da cidade. A música é preponderante, mas damos palco às várias áreas artes performativas (música, dança e teatro) e ao cinema. O teatro é aquela que apresenta um maior défice de oferta e, simultaneamente, de público e que tem uma actividade criativa mais frágil. Pelo menos em São Miguel. É o sector que carece de maior investimento.

Qual a importância do vosso Serviço Educativo?
O serviço educativo trabalha de forma permanente com as escolas, em visitas guiadas ao teatro, para desenvolvimento de ateliês e oficinas, ou na participação em espectáculos/sessões dirigidos à infância ou ao público juvenil. Como referi anteriormente, existem diferentes círculos de acesso ao espaço, temos um público informado e frequente e, em contraste, outro que nunca veio e que por via da escola vem pela primeira vez ao Teatro. Continuam a existir barreiras (sociais) invisíveis que limitam a acessibilidade e a regularidade no acesso aos espaços culturais. É assim na ilha e em qualquer outro lado, acredito. A nossa reduzida escala faz com que este trabalho tenha uma enorme importância, até pela proximidade.

Em que é que a insularidade é uma vantagem ou desvantagem?
A insularidade é hoje vivenciada com menos isolamento do que era no passado. A informação está disponível em múltiplos meios quando, num passado relativamente recente, existia apenas, entre nós, um único canal de rádio e televisão e os jornais só chegavam na semana seguinte. E, aqui, podemos falar de várias insularidades. A relevância de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, os três maiores centros populacionais, expressam apenas uma parte do que são estas ilhas. As idiossincrasias são muito acentuadas no todo regional. As acessibilidades inter-ilhas, e para fora dos Açores, continuam a ser um factor de constrangimento no acesso e na produção de espectáculos. Existem muitas situações em que não é viável o transporte, quer pela questão financeira, quer pela logística envolvida. Voltamos ao ‘desafio permanente’ do início da entrevista. Para os ilhéus a insularidade não é vista como uma fatalidade, faz parte do ADN.

O que podemos esperar ver no Teatro Micaelense nos próximos tempos?
A programação é anunciada a cada trimestre/quadrimestre (janeiro/abril; maio/julho e setembro/dezembro). Até julho, seremos um dos palcos do Festival Tremor; teremos a apresentação do novo disco de Pedro Abrunhosa; a peça “A Vida no Campo”, uma adaptação do livro homónimo de Joel Neto, com encenação de Luísa Pinto; uma nova criação do 37.25 – Núcleo de Artes Performativas (um colectivo local), com coreografia de Daniel Cardoso (Quorum Ballet); o concerto a solo de Miguel Araújo, integrado na digressão nacional “Casca de Noz”; a estreia nos Açores de Benjamin Clementine; o concerto “Ofertório”, que junta Caetano Veloso e os filhos em palco; e mais edição do Festival Walk & Talk.

Como vai a cultura nos Açores?
A Cultura nos Açores precisa sair das ilhas. Este é um desafio de futuro, no qual o TM tenta, modestamente, cumprir com o seu papel. Importa muita coisa mas, sobretudo, garantir meios e condições à criação e ao funcionamento (regular) das instituições culturais do arquipélago (que apenas em 2018 tiveram acesso aos apoios nacionais da DGArtes) e de circulação das suas peças (obras). Isto é válido tanto para as artes performativas, como para as artes plásticas (incluindo a fotografia e o cinema). Os condicionalismos inerentes à dispersão geográfica são um constrangimento que urge ultrapassar, por forma a quebrar com o isolamento e o confronto com outras plateias. O caminho é rumo à profissionalização. Estamos, é certo, a dar, ainda, os primeiros passos neste sentido.

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