Almas

Por Patrícia Portela

Querido Dimitry,

Fui hoje esclarecida (graças a uma entrevista de fundo, publicada num jornal nacional de renome, a uma emigrante russa, de seu nome Olga) sobre a verdadeira diferença entre a alma portuguesa e a alma russa: “Enquanto Camões não hesitou em deixar a namorada afogar-se, escolhendo salvar o manuscrito dos Lusíadas (assim dita a lenda), um poeta russo nunca se atreveria a tal atitude. Um poeta russo esqueceria o manuscrito, salvaria a namorada e ainda escreveria um novo manuscrito, muito mais tarde e muito melhor do que o anterior.”

Fiquei aliviada com esta informação. Fiquei certa de que não tinhas morrido nem matado por causa de um argumento errado. Digo isto porque a última vez que me preocupei contigo, e não foi há muito, tinha lido uma notícia perturbadora sobre um professor de literatura russa em Irbit, nos Montes Urais, que tinha esfaqueado o seu melhor amigo até à morte, um professor de literatura de língua portuguesa, até à morte por causa de um desacordo sobre o que seria mais importante: a prosa ou a poesia.

O amante de poesia assassinou o defensor da prosa. Até aqui, a notícia fazia todo o sentido, não se sabia que professor tinha que nacionalidade nem qual quem tinham morto matado quem. (Poderias ter sido tu o assassino…) Mas o resto da notícia relatava que o amante de poesia tinha sido encontrado e detido em casa de um outro amigo. Ora, tu nunca farias isso. Aliás, um verdadeiro poeta russo, nunca faria isso. Um amante de poesia russo nunca se esconderia após tão digno acto de esclarecer a profunda superioridade da poesia. Um amante de poesia russo deslocar-se-ia até ao café mais próximo e recitaria, de improviso, a sua futura obra-prima baseada nas experiência das últimas horas de vida, de uma só vez e sem se engasgar, para depois sair ao correr ao encontro do seu trágico destino, não sem antes reclamar do preço das bebidas, citando mais um ou outro poeta anónimo da sua praça.

Em setembro passado, uma discussão entre dois amigos, na cidade de Rostov-on-Don, sobre qual dos dois gostava mais do filósofo alemão Immanuel Kant, acabou com um deles a alvejar o outro na cabeça. A vítima sobreviveu. A filosofia sempre foi mais avessa aos grandes finais, aguardando sempre a oportunidade para cumprir um melhor argumento.

Fazes-me muita falta.
Espero que estejas bem.

Patrícia, 3 de abril

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

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