Amor fati*

Por Inês Lampreia

Dois mil e vinte

Encostava a testa à janela e observava a partir do sexto andar. Lá em baixo, a avenida, que sempre emanava um conjunto de sons, parecia agora um lugar assustador porque vazio. Da televisão ouviam-se vozes matraqueadas dizendo que morriam pessoas. Números contínuos daqueles que sucumbiam ou recuperavam do vírus. Artur só pensava no Jasmin que vivia a dois prédios de distância, embora acatasse as ordens dos pais, que lhe explicavam como tinha de ficar em casa porque o coronavírus entrava pelo nariz, boca e olhos das pessoas. Sentia no peito uma enorme vontade de abrir a porta, descer pelo elevador atravessar a praceta e passar horas a brincar com o amigo e com o lego que recebera no aniversário.

Esse dia fatídico, em que fizera seis anos, ficaria na sua memória. Os pais disseram-lhe que teria uma festa muito especial, tendo ele ficado na expectativa de que acordaria com a casa cheia de gente. Mas, ao invés disso, quando acordou, os pais deram-lhe os parabéns e ligaram o computador, em frente ao qual passou a maior parte do dia sendo parabenizado pela família, com várias intermitências e caras patéticas e estáticas provocadas por cortes na internet. O único momento verdadeiramente animador do dia havia sido o grande lego que recebera de presente. De resto, o vazio inundava os seus dias. Confinado a quatro paredes, entrincheirado em casa, sentia o tempo esticar e, invariavelmente, entediava-se.

Depois houve aquela manhã em que tudo mudou. O pai seguia a acoplagem da nave espacial Falcon 9 à Estação Internacional Espacial, precisamente às 10h29, dos Estados Unidos da América. Ao longo do dia anterior, Artur observara pela televisão a pequena nave em orbita algures sobre o deserto do Saara mandando imagens do mundo num azul quase florescente, mundo esse habitado por diferentes animais e uma única raça de primatas bípedes, o Homo Sapiens, do género Homo. As imagens daquela bola gigante apelavam a um sentimento pacificador, enquanto dentro do mundo, Artur via pelas notícias as ruas de Los Angeles, Mineápolis, Atlanta, Washington e muitas outras – “felizmente!” dizia a mãe – a arder em nome do Floyd, com pessoas mascaradas, desta vez não para passarem ao largo da vigilância, mas para se protegerem do vírus que saltitava em busca de hospedeiros. Em simultâneo, estátuas de figuras históricas começavam a ser derrubadas por multidões. Imagens várias e paradoxais cujo rastilho era o racismo, mas a revolta, essa, surgia de múltiplas indignações, de vozes gritantes abafadas por séculos de opressões raciais, sociais… das sucessivas crises de memória ou usurpação da mesma… isto tudo, enquanto dois seres humanos viajavam numa cápsula minúscula até à Estação Espacial. Era inevitável, ouvia ele do pai, lembrar as palavras do astrofísico Hubert Reeves – antes de sermos homens e mulheres, e de termos diferentes tonalidades de pele, viemos todos do misterioso Cosmos.

Era necessário que aquelas sublevações nos Estados Unidos se reverberassem nas eleições de novembro. Era preciso que a consciência social antirracista se desmultiplicasse em atos de cidadania participativa. Os americanos tinham de ir votar, especialmente aqueles que habitavam agora as ruas.

Durante os jantares, Artur seguia as conversas, para ele diferentes códigos de linguagem que ia decifrando. Trump era o homem com o cabelo branco em forma de prancha de surf que destruía o sentido de democracia, a quem podia chamar todos os nomes, incluindo palhaço; Bolsonaro era outro, mas mais hediondo, um psicopata, diziam os pais, que deixava milhares de brasileiros sucumbirem à pandemia agindo como um louco. E quando George Floyd morreu sufocado pelo joelho de um polícia e se desencadearam as manifestações antirracistas, a mãe inquieta e ansiosa clamava ser aquele o momento para que outros fenómenos gritantes criassem insurreições e fossem igualmente escrutinados pela exaltação das massas, como o genocídio no Iémen levado a cabo pela Arábia Saudita, o encarceramento dos muçulmanos Uighurs pela China ou a catastrófica situação de Moçambique. O pai repetia, sem dó, que a televisão e os jornais continuavam colonizados por notícias monotemáticas e que ela nem pensasse em ouvir-se falar em tais atrocidades. No geral, Artur percebia que se falava de guerras… umas contra o vírus que o tinha encerrado em casa, outras pela sobrevivência, outras sangrentas, mas tratavam-se sobretudo de guerras… os homens contra o homem.

Dois mil e trinta e cinco

Diziam-lhe que no passado a vida universitária era muito mais animada, mas ele até que gostava das sessões online e das webinar. Nas semanas de aulas práticas, em que se deslocava até ao campus, sentia uma inércia instalar-se. O convívio continuo com pessoas ao longo do dia criava-lhe uma certa ansiedade, algo próximo de aversão. Até gostava dos colegas e das conversas, mas havia todo o procedimento de higiene que se instalara e, apesar de já não haver uma interdição ao toque como anos antes, era-lhe algo desconfortável a proximidade física que alguns colegas acabavam por ter em relação a si. Porém, quando acabava os dias de aulas práticas e voltava para casa surgia-lhe uma satisfação diferente, parecia viver mais nesses dias do que nas restantes semanas em que estudava a partir de casa, em alta intensidade de contacto virtual.

Falava-se do trauma do isolamento, que Artur considerava só existir nos mais velhos, pois ele introvertido de origem sentia-se em pleno, vivendo isolado, mas em comunicação. O sistema, por seu lado, compreendera os benefícios económicos de se trabalhar ou estudar em casa, fomentando apenas a mobilidade para o consumo, agora em massa tanto no online quanto no espaço físico. Por conseguinte, a imobilidade humana, mesmo que obrigatória por novos modelos de trabalho, era entendida por muitos como um novo bem, praticado com consciência ecológica, descurando as grandes mudanças psico-relacionais que se operavam. Artur sabia que no tempo dos seus avós as pessoas apareciam em casa uma das outras sem avisar, e na sua infância os pais marcavam todas as visitas previamente por telemóvel. Agora os encontros eram mais esporádicos, combinados com antecedência e pairava entre todos um protocolo de comportamento enjoativo. A vida digital trouxera novos modos de trabalho, mas parcos novos modos de lazer, pelo que a frivolidade e o hedonismo iam-se esvanecendo no volume de horas de trabalho e estudo e na aprendizagem de viver só, como que num fade out lento.

Lembrava-se que durante a Grande Pandemia vizinhos cantavam às janelas, médicos e trabalhadores hospitalares eram aplaudidos, mas a compaixão e simpatia de uns para os outros tinha sido uma exaltação de momento. Uma terra sem desigualdades, sem egoísmo, sem poluição? Ficara a expetativa aguardando que as mudanças se operassem. Entretanto, no Brasil implantara-se a ditadura militar, os conflitos raciais e xenófobos continuavam no mundo inteiro sem resoluções finais à vista, assim como as desigualdades sociais e, para espanto de alguns, em Portugal a extrema direita alcançava cada vez mais lugares no parlamento.

Dois mil e cinquenta

Levantou o copo em frente a Tânia e sorriu. O vinho, pensou, atravessava os anos amadurecendo, ganhando corpo e aprimorando o seu sabor. Ele e todas as pessoas no mundo envelheciam também naturalmente, mas com o fito da longevidade tomavam suplementos vitamínicos, faziam desporto, mantinham vidas regradas, com agendas diárias intensas. Esperavam desesperadamente não envelhecer, não contrair vírus algum e parecerem saudáveis acima de tudo. O tempo da juventude não podia ser muito saboreado, porque a manutenção da juventude era, ela própria, uma demanda séria.

Tânia, à sua frente, mantinha o sorriso aberto, com as maças do rosto redondas – que sempre lhe pareciam ir explodir de tão redondas – e o seu cabelo demasiado preto, nem encaracolado nem liso, que se alongava até meio das costas, e que ela teimava em manter como se fosse imagem de marca. Artur sempre achara que aquela farta e longa cabeleira lhe dava um ar meio grosseiro, principalmente quando os cabelos soltos caiam sobre os seus ombros, criando uma manta sobre si. De resto, esse toque pouco sublime confirmava-se também no seu gosto por calçado a imitar pele de cobra e blusas com mangas de balão.

Confessava a si mesmo, e por sucessivas vezes, não compreender a origem de tal encontro. Mas, olhando para trás, os relacionamentos mais significativos tinham ficado na adolescência, quando a subversividade de tocar os outros era mais forte do que a etiqueta protocolar. O relacionamento com Tânia e outras jovens mulheres, entretanto, eram efémeros e apenas fruto da necessidade de seduzir e principalmente de ter sexo. De resto, o distanciamento a que todos se haviam habituado colocara as relações completamente no lugar do protocolo. Os primeiros encontros eram, de longe, os mais estranhos. Apesar da grande vontade de se darem umas às outras, pairava entre as pessoas um mutismo desajeitado, mesmo que antes se tivessem deleitado em longas conversas por chat.

Para Artur, não havia animais a viver completamente em isolamento. Por exemplo, o urso, praticamente extinto, quando se encontrava com os congéneres, por exemplo, para pescar, dava provas de uma total indiferença em relação aos seus parceiros, como se a vida social dos plantígrados fosse inexistente. Mas tal como Artur, o urso, porém, não deixava de acasalar. Mesmo aqueles que são maioritariamente solitários por natureza, deve-se admitir que quase nunca vivem em estado de isolamento absoluto.

Com um doutoramento em etologia, Artur considerava-se um urso a maior parte do tempo. Atualmente exasperava em relação a Tânia, uma jovem simpática, sempre de sorriso aberto, mantendo o equilíbrio diplomático nas suas relações, diligente, defensora dos direitos de todas as minorias e causas sociais fraturantes, profundamente dedicada à ideia da reivindicação… e em simultâneo, rendida às marcas, essas outras donas ideológicas, que habilmente produziam novos objetos de desejo ao minuto, a que ela respondia consumindo, aprimorando o seu look, sobretudo, para o digital, a que dedicava horas infindas.

Olhou o plasma ligado no canto da sala. Imagens do planeta vermelho – ainda infografias do paraíso por alcançar –, transportavam-no para a infância, em 2020, quando no meio de múltiplas turbulências pelo mundo inteiro, e de uma pandemia, dois astronautas partiram para o espaço. Agora, o frenesim virava-se para Marte e Artur cogitava: quererá o Homem mudar o mundo por fora? Até então as evidências de vida em Marte eram residuais, mas bem sabia Artur que toda a humanidade estava expectante por haver uma outra espécie para a qual poderia canalizar a sua raiva. Ali, na Terra, a roldana continuava numa inevitabilidade gritante, autofágica, em sustentabilidades frágeis e sempre, sempre gerando um abundante caos social, político e económico. Nos países pobres qualquer calamidade natural ou produzida se transformava em miséria, mortandade e desânimo, enquanto que nos países ricos, normalmente democracias obedientes, mantinha-se o status quo.

Já os seus pais diziam “vivemos um tempo estranho”. Poderia ele dizer outra coisa qualquer? Virou as costas a Tânia e bateu palmas ativando as colunas de onde emergiu o som de Luna, banda bem antiga que a mãe ouvia em tempos de pandemia, fazendo soar a guitarra de Dean Wareham pautando a melodia de Season of the Witch.

O enfado que conhecera em criança, de certa forma, nunca se tinha desvanecido trazendo-lhe um sabor de vida em suspenso. A noção de segurança esfarrapada com que os seus pais tinham crescido nada dizia a Artur.  Ele pertencia a essa outra geração, a da incerteza consciente, pelo que o ritmo normal da sua vida continha um desprendimento feroz, um sentimento concreto de que não haveria diferença substancial entre o passado e as promessas do futuro, sabendo que a matéria delicada de que era feito, a sua fragilidade – ao contrário do proselitismo da inteligência artificial médica – era mortal, sempre com o presságio de novos vírus e, sobretudo, da sexta extinção.

Ocorriam-lhe prementes imagens daquele tempo da infância em que ficava horas a olhar pela janela, observando o silêncio da rua e todos os sons que emanavam dele – os pássaros, a ventania, o restolhar dos restos de lixo movendo-se sobre o chão. Afinal o que outrora lhe parecera tédio trazia-lhe agora um sentimento de conforto e de que a sua humanidade era parte dessa roda dentada, complexa e indefetível, conexa às coisas visíveis e invisíveis, de que inevitavelmente todos faziam parte.

* in Friedrich NIEZTSCHE, Ecce Homo, Edições 70, 2010

Foto por Bence Balla Schottner

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Comments

  1. Elias Barreto says

    Muitos parabéns Inês! Fizeste com que sentisse que este presente é já o futuro, distópico. Eu que cresci com uma serie chamada Espaço 1999. Quando esse ano chegou não senti aquele emaravilhamento da minha infância. Mas através do teu conto, aconteceu o contrário. 2020 de repente tornou-se o futuro, estranho e inquietante. Muito bom!
    Obrigado.
    Elias

  2. Tanta coisa se passou, e tanto coisa se tem passado. Não sei como sairemos de tudo isto, mas uma coisa é certa alguma coisa terá de acontecer. Que está tomada de consciência de tudo o que tem passado aconteça em nós. Obrigada Inês por estes rasgos de humidade em tempos de intenso confinamento

  3. Inês, para além da sagacidade da “ficção cientifica” que nos aguarda, apreciei sobretudo a subtileza do volte-face final, e, apesar de tudo, a esperança que me ficou nessa eterna centelha de humanidade, de que talvez num futuro ainda mais distante, (talvez entre 2070 e 2100… Afinal, Artur ainda é um jovem…) o apreço pela calidez de um toque humano possa retornar, com uma nova volta da roda e o regresso a um novo lugar, onde os ursos e outros bichos ainda por aí andem… 😉

  4. Permite-me Inês que use e louve tua astúcia literária e me fixe em DOIS MIL E TRINTA E CINCO. Tenho então cem anos: – atrás de mim muita juventudes; há frente, foguetões em linha atestam regressos certos à desilusão terrena. Salva-nos a Escrita

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