Ana Libório – Entrevista

A 4ª edição do projecto Artista no Bairro – promovida pelo Cão Solteiro e Rua das Gaivotas 6 – é dedicada a Ana Libório e acontece de 9 a 12 de Novembro, no espaço da Rua das Gaivotas 6. Conversámos com a artista para saber mais sobre o seu projecto.

Fala-nos um pouco do teu percurso
O meu percurso artístico é sobretudo transdisciplinar e traduz-se em diversas áreas das representatividades performativas. Comecei no infantário, a cozinhar pastas imaginárias, por sua vez muito boas, e depois fui estudar Teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ao mesmo tempo frequentei o PED, o programa de Estudo Avançado em Dança leccionado por Francisco Camacho. Terminei a licenciatura e trabalhei com artistas cuja prática performativa/ gramática discursiva me interessa, a Sónia Baptista, o Teatro Cão Solteiro, o Tiago Vieira, a Plataforma 285, o Silvestre Correia, a Isadora Nunes, o Garry Hil, entre outros. Posteriormente, mudei-me para Paris e frequentei a pós-graduação em Filosofia Clássica. Regressei a Portugal, e terminei o mestrado em Filosofia Política na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente, estou em Berlim a residir e a estudar Coreografia.

Que te inquietações te levam a criar?
Eu crio porque não concordo. Não concordo com coisas. Não concordo com coisas então crio. Há uma fragilidade inerente que acompanha todo o processo de criação artística. Crio porque não concordo mas também porque não encontro outras alternativas. E existe uma fragilidade quando se diz que não se concorda mas que também não se conhece outras alternativas. Crio porque ainda acredito em espanto. Lembro-me de ver espetáculos incríveis do André E. Teodósio, da Paula Sá Nogueira, do Tiago Vieira, do Miguel Bonneville, da Ana Ribeiro, do Francisco Camacho e de me questionar: Como é que estes objetos performativos criam memória nos corpos do futuro? Era importante que chegassem a todxs. Depois em todos eles, a meu ver, essa fragilidade – questionar a premissa de otimização performativa dentro de com um sistema artístico recorrente/vigente; no qual o objeto artístico é facilmente identificável, executado e vendido a um consumidor que fica sempre satisfeito. Como é que se cria um novo sistema de reconhecimento?

Acho que faz falta fazer o que se quer. Há pouca gente a fazer o que quer fazer.

De que forma a filosofia influencia o teu trabalho?
Creio que a filosofia e o trabalho artístico-performativo estão diretamente ligados. Acho que vejo a filosofia como um query system, um sistema de levantamento e de consulta de coisas que foram re-pensadas, que continuam a ser re-pensadas e que irão ser re-pensadas. Gosto muito desta imagem: a de um burro a olhar para um palácio.

Não procuro respostas ou verdades absolutas mas gostava de aprender a perguntar melhor. Como é que se fazem perguntas? Acho que é aí que as duas se complementam. O processo de transdução de um material filosófico para um objeto artístico é uma prática que desenvolvo e que adquire mais importância no meu trabalho ao invés da “concretização” de um espetáculo final. Gosto de pensar linhas argumentativas, metodologias de subtração, deduções enquanto pequenas coreografias performativas e depois desenhá-las no estúdio, em dispositivos performativos que vão desde o digital, o video-game, o teatral e o coreográfico. A fenomenologia, (infelizmente ainda pensada e desenvolvida em grande parte por uma … Europa cosmoclássica!), tem linhas argumentativas que acho interessantes como base performativa, por exemplo – uma muito básica – as conferências de Paris do Edmund Husserl, no qual ele recua até à Grécia antiga e utiliza como metodologia primeira o processo de Époché. Questionar tudo, colocar tudo em causa, depois suspender atitudes, crenças ou juízos – para reescrever/ re-traduzir numa política/prática artística de inclusão. Acho que a filosofia só tem o seu lugar se for reescrita, se questionar as construções sociais sistêmicas, os processos discursivos hegemônicos e patriarcais do presente, e inclusiva, principalmente se for inclusiva..

Tenho questionado ultimamente – a ideia de arte, a ideia de que a arte deve voltar à natureza, ou ser pensada num estado puro/natural, um regressar ao passado. Acho que é importante pensar o presente com as ferramentas que temos no presente, não sei.. não sei até que ponto sobrevive uma arte pensada no passado…

Como encaraste ser uma artista no bairro?
O Artista no Bairro é um projeto que proporciona um envolvimento (imersivo) no bairro (LITERAL) – desde a pastelaria Nita (o que ainda resta de uma Lisboa que conheci- super inspiradora) até aos novos buffets decorados em “pós-modernistas suecos”.. (suspendo a frase aqui). O projeto tem um contexto específico: a criação de espaço para a criação artística, acho que é importante criar estes espaços e pensá-los como interdependências ou até confluências; a Rua das Gaivotas 6 e o espaço de Residências do Cão Solteiro têm essa particularidade. Lugares que servem de suporte para micro/macro universos de pesquisa e de criação artística.

Como surgiu a performance, quais as grandes questões que levanta, e qual a relação esperada com a audiência?
O projeto Capturing you|| Fictional politics of movement surge de encontros mas de encontros em lugares. Surgiu também por causa do apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, do Self- Mistake, da Rua das Gaivotas 6, da Plataforma 285, dos Teatro Cão Solteiro e da TRUST. Começou em Portugal e depois foi-se complementando em Berlim. Surgiu de encontros com corpos, paisagens, livros e ruínas de uma cidade industrial, a cultura da rave, mas sobretudo do conceito de inclusividade, Berlim é mesmo muito inclusiva. Surgiu com a pergunta: Como se torna algo visível? Dada a quantidade de informação, sequências visuais e sonoras, armazenamento de dados, estruturas algorítmicas, colonialismos digitais, romances, aplicações de dates, reality shows, break ups, desejos, parece-me difícil tornar algo visível, ainda que tudo tenha um potencial representativo. Questionei formas de representatividade, os dispositivos sistêmicos que legitimam o ato de reconhecimento. What´s under that ou o que está por baixo disso. Depois sou millenial e a cultura do video-jogo no espaço tecnológico é uma das interfaces que utilizo como dispositivo de exibição – também para este processo artístico – refletindo sobre questões: Como é que continuo a desejar no espaço digital ou de que forma o meu corpo sofre transduções e resulta em figurações ou incorporações ausentes de historicismos e categorizações sistémicas.

Peço-te um desejo para as Artes, para os tempos mais próximos
Não costumo ter desejos “artísticos” porque acho que, agora, precisamos de encontros, de interdependências e de lugares seguros.
O artístico está em tantos dispositivos, por exemplo, nas relações sociais; se recorrer à paisagem, aos corpos, ao digital, recorro também às inter/intra estruturas de sistemas sociais, seja em micro ou em macro, e depois reconheço uma necessidade, no próprio discurso artístico, para a inclusão desses corpos/estruturas margem, tornar universos visíveis, o que nem sempre acontece… Ainda há estruturas artísticas nacionais que reforçam o que falo em termos de relações de poder, estruturas dominantes, etc…

Uma reinscrição de todxs os que querem ser reinscritxs. Na arte, aqui em Lisboa, é-me ainda difícil entender o lugar para a queda, a experimentação, a falha e é tão preciso cair… O questionamento da relação de poder estabelecida entre performer e audiência, o consentimento, o sistema de suporte e o lugar seguro é ainda pouco referido enquanto mecanismo de suporte para um próximo passo – a desmistificação do conceito de otimização performativa como um ato de resistência (e isto não é um facilitismo teórico-conceptual mas uma inclusão social que serve como potência para questionar moldes sistémicos/elitistismo/padrões reconhecíveis/ e mecanismos de exclusões.
Gosto desta pergunta: O que fazer daqui para trás? Nada.

Foto de Alípio Padilha

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