Ana Pinto Coelho – Entrevista

Ana Pinto Coelho é a curadora do Festival MENTAL, um festival que surge com o fim de abordar as questões da saúde mental sob a lupa da Cultura. Fez-se um balanço das edições passadas dfestival, falou-se sobre saúde mental e de como a pandemia a afecta, sobre a edição deste ano, e sobre o futuro do festival e da saúde mental.

Que balanço fazes das edições passadas do Mental – Festival da Saúde Mental?
As cinco edições foram todas diferentes. Tivemos portas abertas de imediato desde o primeiro dia por parte de algumas entidades, enquanto outras foram totalmente barradas com as desculpas que o tema “não era sexy” ou que “não disponha bem” o público.

Felizmente, também e muito graças à tenacidade e teimosia da equipa que produz o festival e os seus associados, principalmente os co-produtores e sponsors directos, fomos conseguindo pequenos milagres. E com eles, abrindo espaço e portas.

A pandemia que nos custou dois anos e agora uma guerra à porta também obrigaram a que esta realidade tivesse que vir “cá para fora”, pois as pessoas estão a viver problemas complicados e cada vez mais complexos a nível da saúde mental.

Esta realidade reforçou o nosso papel e garantiu-nos alguma visibilidade e, de facto, hoje quando batemos a uma porta e falamos do Festival Mental já sabem quem somos.

Foi meia década de grande esforço mas que, finalmente, começa a ter alguns resultados.

Os objetivos a que se propuseram no início mantêm-se?
Em 2017 não sabíamos onde poderíamos chegar. Apenas quisemos replicar o que se fazia principalmente no Reino Unido e que tanta falta fazia por cá. Se no primeiro ano apenas desejámos conseguir fazer o Festival Mental, no segundo fomos obrigados a requacioná-lo e no terceiro percebemos que já tínhamos posto o comboio em movimento.

O objectivo primordial, que é o de apresentar o Mental em todas as capitais de distrito ao longo do ano, mantém-se. Chegaremos lá.

A pandemia veio agravar o panorama da saúde mental em Portugal?
Naturalmente. Ficar confinado, privado da liberdade que sempre julgámos intocável, não poder estar com amigos, ir à escola, ao trabalho, ao café, ao restaurante, ao cinema, à discoteca, andar com uma máscara que nos tapa emoções, o medo a impor-se à razão, o luto absurdo e solitário, a perda de familiares, amigos, tudo reforçou o nosso mal-estar diário.

E, reparem, Portugal já estava no topo dos países que mais anti-depressivos e outras drogas atenuadoras de emoções naturais usava.

Um país que nunca olhou a sério para a saúde mental de quem estuda, trabalha, vive e produz é um país a viver numa perigosa corda bamba a curto, médio e, principalmente, longo prazo.

Quais os grandes temas a abordar na edição de 2022 do festival?
Para além do M Debate sobre Saúde Digital em que abordamos o direito à provacidade e ao esquecimento, os três grandes temas desta edição são o Medo, Trauma e Superação e Direitos Humanos e Saúde Mental.

O cinema tem um papel de destaque no festival. Fala-nos um pouco do que vamos poder ver
Para além das três longas-metragens associadas a cada M-Talk, que são os filmes Searching (Pesquisa Obsessiva) de Aneesh Chaganty, Mass (Reunião) de Fran Kranz e a estreia nacional de Crip Camp (Revolução pela inclusão) de James Lebrecht e Nicole Newnham, teremos toda a programação do M Cinema, a mostra de curtas e longas metragens, ao longo de três dias em que cada sessão apresentará cinco títulos fantásticos.

Fala-nos um pouco do Mental Jovem
Este ano, a programação do Mental Jovem está reforçada com dua sessões de M Cinema, com cinco curtas especificamente escolhidas para esta faixa etária, para além de duas peças de teatro: “Todas as coisas extraordinárias” com co-encenação e dramaturgia de Jaime Mears e Joana Puro e “Pé no Chão” pelo Grupo de Teatro W+ da SCML.

O que esperar das M-Talks deste ano?
Acima de tudo, uma intervenção mais social com oradores de outras latitudes profissionais que vêm enriquecer toda a conversa sobre os temas que já mencionei. São já um marco do Festival Mental que continuam a ter a sua parte de serviço público ao serem publicadas e com acesso livre no nosso canal oficial de Youtube.

O que podemos fazer como cidadãos para tornar as discussões em volta da saúde mental mais fáceis?
Simplesmente seguir o nosso slogan: “Pense, Fale, Saiba e Reaja”. São os quatro passos para que alguém nos ouça, que perceba que estamos em dificuldades e que nos aponte uma ajuda.

Temos de entender que a saúde mental faz parte da saúde física. O que adianta correr km por dia para ficar em forma se depois chegamos a casa e não conseguimos adormecer devido ao peso dos problemas que nos afectam mentalmente?

Quais os planos futuros para o Festival?
Acima de tudo, continuar com sucesso esta demanda contra o estigma e a vergonha que ainda toldam a razão. Falar mais e mais sobre saúde mental, mostrar que todos nós a temos e podemos sofrer com ela. Faz parte integrante da nossa vida, do nosso ser. E quanto mais olharmos por ela, e para ela, mais facilmente conseguiremos resolver problemas que, sem atenção, podem levar a comportamentos extremos.

Depois é continuar a crescer e a encher salas, mas para isso precisamos de mais apoio e dinâmicas, gerais e locais, porque “Roma não foi feita num dia”.

Peço-te um desejo para as Artes
São as artes que nos elevam enquanto artistas e espectadores. O que seríamos nós sem elas? O meu desejo profundo? É que 10% do PIB fosse gasto em cultura e nas artes, pois isso também é factor de crescimento, evolução social e com consequências óbvias de retorno financeiro.

As artes fortalecem o espírito, dão-nos asas, fazem-nos olhar para dentro para conseguir exclamar algo ao mundo. E isto é também saúde mental.

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