André Mendes – Entrevista

SHOWROOMAndré Mendes é um jovem bailarino e coreógrafo que começa a fazer currículo nas artes portuguesas. Já tem três criações em seu nome e promete não parar. Como bailarino já trabalhou com inúmeros artistas. Conversámos com ele para o conhecer um pouco melhor.

Fala-nos um pouco do teu percurso.
Comecei os meus estudos em Dança Contemporânea em 2009 no Balleteatro Escola Profissional, onde concluí no ano de 2011/12.
Ainda antes de completar o curso, comecei a trabalhar profissionalmente por via da minha professora de contemporâneo na altura, Elisabete Magalhães, no projeto ‘A BALLET STORY’ de Victor Hugo Pontes.
Após concluir o curso, fiz parte de diversos projetos dos mais diversificados formatos, entre os quais, intervenções com a comunidade e cidade, em projetos como por exemplo ‘PROCISSÃO K2’ de Isabel Barros e ‘BODIES IN URBAN SPACES’ da Cie. Willi Dorner; Performance em ‘COMETA’ de Julião Sarmento, numa retrospectiva na Fundação de Serralves; em teatro no projeto  ‘DYSTOPIA’ da Ponto Teatro, 2ª instância da Trilogia do Lugar, que terá como seguimento a estreia da última instância ‘HETEROTOPIA’ em Junho no Teca, Porto; entre outros projetos e colaborações com artistas portuenses e nacionais.
Recentemente, em 2014, fiz parte do elenco da companhia Ballet Contemporâneo do Norte, onde trabalhei com diversos criadores, entre os quais Mariana Tengner Barros, Rogério Nuno Costa e Tânia Carvalho.
Em paralelo tenho desenvolvido o meu gosto pela fotografia de cena, tendo já registado peças tais como ‘NIL-CITY’ de Flávio Rodrigues; ‘UTOPIA’ da Ponto Teatro e ‘BEAR ME’ de Cristina Planas Leitão.

AndreMendes

André Mendes

Começaste como bailarino e mais tarde como criador, O que mais te despertou a criares o teu trabalho?
Desde o início que o Balleteatro incute um grande estímulo para o aluno em desenvolver a sua parte criativa. A formação não incide apenas na técnica clássica e contemporânea, mas também numa aposta forte na componente criativa e de experimentação, possibilitando ao longo dos três anos aos alunos desenvolver as suas ideias e projetos.
Contudo, desde cedo que queria desenvolver um trabalho criativo, enquanto ‘coreógrafo’, termo este que de momento não se enquadra na minha forma de ver o meu trabalho, preferindo o de ‘criador’, pois cada vez mais o meu trabalho vive dos meus intérpretes, do que eles produzem sob a minha orientação, tendo apenas eu o papel de seleção e manipulação do trabalho em bruto que o intérprete produz sobre as minhas premissas.
Sempre fui ciente de querer conjugar os dois campos, o da interpretação e criação.
Comecei a desenvolver o meu trabalho criativo com um carácter mais profissional em finais de 2012, por querer alargar e desenvolver mais a minha Prova de Aptidão Profissional, que contava já com a colaboração de um amigo (Ricardo Pereira), e juntos decidimos unir as nossas provas, ambas explorando temáticas científicas, e assim deu origem ao projeto ‘ENCOUNTERS’, estreado no Balleteatro em Abril de 2013.
Até ao momento, ainda não encontrei nenhum motivo especial para esta necessidade de criar, pois como pessoa deixo que tudo siga o seu ritmo e por isso já é uma coisa inata em mim, uma necessidade básica, como a nossa necessidade de expressão e verbalização. Acima de tudo este despertar vem sempre equacionado com a necessidade de me exprimir e partilhar os meus pontos de vista sobre determinados assuntos ou temas.

Já trabalhaste com inúmeros coreógrafos enquanto intérprete, em que medida essa experiencia influenciou como criador?
Já trabalhei com diversos criadores, entre os quais: Rui Catalão, Elisabete Magalhães, Isabel Barros, Né Barros, Victor Hugo Pontes, Emanuel de Sousa, Mariana Tengner Barros e Tânia Carvalho, entre outros artistas, que sempre admirei o seu trabalho enquanto público e artista, e que me influenciam nos mais variados níveis.
Trabalhar com estes criadores influencia sempre o meu trabalho, primeiro porque cada um têm o seu próprio método de criação e de condução do processo criativo, o que sempre me fascina, pois enquanto intérprete, gosto do desafio de ter que me adaptar às novas linguagens e universos.
Segundo, pois acredito que o meu trabalho é uma influência do que eu vivo e experiencio, leio e conheço, e não há nada mais significativo em termos artísticos do que as minhas experiências enquanto intérprete e espectador.

O que procuras nos teus intérpretes?
O que procuro nos meus intérpretes é uma multidisciplinariedade, e acima de tudo novos estados de presença em palco.
Em todas as minhas peças procurei nos meus intérpretes novos olhares sobre as temáticas que abordo, por exemplo em SHOWROOM (2014), um projeto sobre moda relacionado com questões de identidade, tinha como intérpretes um bailarino/manequim, um ator e um bailarino.
Já em TROJAN HORSE (2015), um solo para uma atriz, substituí a virtude do corpo de uma bailarina, do movimento codificado por um corpo ausente de técnicas clássicas ou contemporâneas de movimento.
Acima de tudo, questões como a naturalidade e a simplicidade, ganham extrema importância no género de intérpretes que procuro e escolho para cada projeto, pois procuro cada vez mais a essência das temáticas, estando cada vez mais próximas da vida quotidiana.
Com o desenvolver dos meus projetos, denoto que este vai ficando toldado com algumas particularidades, como por exemplo o ‘erotismo’, a ‘naturalidade’ e a ‘identidade’, temas esses que de uma forma ou de outra questiono sempre, e trabalho.

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TROJAN HORSE. Foto por Pedro Mendes

Como se processa a colaboração com outros criativos que integram as tuas equipas?
O processo de colaboração artística processa-se sempre de formas diferentes, seja pela relação que tenho com o colaborador, ou até pelo facto de ser uma colaboração à distância, entre outros aspectos.
Por exemplo, em SHOWROOM colaborei com uma dupla de fotógrafos Ellie Uyttenbroek e Ari Versluis, responsáveis pelo projeto ‘EXACTITUDES’, um projeto reconhecido internacionalmente. Esta colaboração à distância, maioritariamente via email, antevia uma manipulação em vídeo da própria obra fotográfica, respeitando sempre as indicações dos criadores na utilização das séries fotográficas.
Recentemente, em TROJAN HORSE, colaborei com o músico Ghuna X aka Pedro Augusto; na co-criação e interpretação com Marta Cunha, e também em Dramaturgia com Emanuel de Sousa, colaboração essa que já remonta ao projeto SHOWROOM (2014).
No que diz respeito ao processo em si, inicialmente dou liberdade aos criadores envolvidos, até porque estes trazem as suas abordagens à peça, e têm um olhar e perspectivas diferentes da mesma temática.
Com o desenvolvimento do projeto é necessário delimitar o caminho do projeto, e é nesse sentido que em estrita colaboração com os restantes membros desenvolvemos a Banda sonora original da peça, a dramaturgia, entre outras coisas, entre sessões de estúdio e sala de ensaios, etc.
Penso que só assim as colaborações podem ter um caminho positivo, pois caso seja algo imposto desde cedo por mim na totalidade, o produto não deriva de uma colaboração mas sim talvez de uma ‘encomenda’.
Acima de tudo acho que os processos de colaboração assentam no diálogo e troca de opiniões entre os criativos e mesmo amigos ou pessoas que possam assistir aos ensaios, aspecto que tento ter sempre em atenção, equacionando todas as opiniões para o crescimento do projeto.

A tua anterior peça “SHOWROOM” foca o universo masculino, e “TROJAN” o feminino, A condição humana é uma das tuas preocupações?
Em SHOWROOM (2014), o projeto debruçava-se sobre o universo masculino, tendo de temática a ‘moda’, direcionado para questões de identidade. Em TROJAN HORSE (2015), focei-me no universo feminino, através do universo mitológico de Homero, sobre a Guerra de Tróia, explorando temáticas como ‘violação’, ‘invasão’ e ‘destruição’.
A condição humana é uma preocupação no meu trabalho desde que comecei a desenvolver o meu trabalho criativo. Esta preocupação já remonta ao meu projeto ENCOUNTERS (2013), na qual trabalhei sobre as temáticas dos ‘encontros’, e ‘relações’ entre pessoas que se cruzam (in)conscientemente.
Penso que estas preocupações são inerentes na minha forma de pensar e trabalhar em qualquer projeto, e nas formas como as relaciono com as diversas temáticas que exploro.
Atualmente, mergulhei no universo mitológico e da poesia clássica grega, e mesmo neste universo debruço-me sempre sobre o carácter das personagens, desde Helena, Hécuba, Hector, entre outros.
É difícil não pensar em emoções, na condição humana por excelência. Eu próprio como pessoa sou bastante sensível, embora não aparente este lado.

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SHOWROOM. Foto por Pedro Mendes

Quais os planos mais próximos para o TROJAN HORSE?
Os planos mais próximos para TROJAN HORSE são de momento, fechar a produção, no que diz respeito à pós-produção, dar seguimento aos contactos com os teatros, para agendar futuras reposições desta peça. Será sempre um percurso difícil, mas que têm que ser feito, para que os projetos não estagnem depois de estreados.

Como vês o panorama cultural no porto?
O panorama cultural no Porto têm-se desenvolvido ao longo destes últimos anos, nas várias áreas por via das instituições que fazem parte do centro do Grande Porto.
Mais especificamente neste ano, o TMP – Teatro Municipal do Porto . Rivoli . Teatro Campo Alegre, têm feito uma enorme aposta na cultura, o que faz com que os Teatros comecem a ter de novo os seus públicos específicos, oferecendo diversos focos que se diferenciam da restante oferta a Norte.
Um dos pontos fortes desta programação no Porto, não apenas por via do Teatro Municipal mas também por via Fundação de Serralves, entre outras estruturas envolvidas, parte da aposta em artistas nacionais e estrangeiros, possibilitando a apresentação na maioria dos casos, estreias nacionais dos seus trabalhos.
Penso que o Porto está a viver de novo da cultura, e isso para os criativos do Porto, ou para os que estão envolvidos nos projetos que decorrem e vão decorrer é uma mais valia para a cidade.

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