André Murraças – Entrevista

André Murraças é um artista multifacetado. Tem levado à cena alguns solos, mas também espectáculos com outros intérpretes. Esta semana mostra, no Teatro São Luiz, o seu “Espectáculo Guiado”, em que o espectador é levado numa visita aos bastidores daquela sala de espectáculos histórica. Falámos disso, e de mais, nesta entrevista.

Tens sido encenador, dramaturgo, cenógrafo e intérprete. Em que papel te revês mais?
Como dramaturgo, porque escrever é um caminho só por si monumental. Mas também como encenador. Vejo sempre o espectáculo como um todo. Quando penso no texto, chegam as imagens. Ao mesmo tempo a forma e no fim a interpretação, se é que podemos chamar interpretação quando faço os mesmos solos: faço sempre de mim mesmo… Mas também podem vir as imagens e depois as palavras. Não consigo separar as áreas. Está tudo ligado.

Fala-nos um pouco do projecto Queerquivo.
Tal como este ESPECTÁCULO GUIADO é um registo. No caso do Queerquivo um arquivo criado no ano passado – o primeiro, penso, português do universo LGBT. Tem a particularidade de ser escrito a mil mãos, sem filtros. Pedi a várias pessoas para escreverem sobre quem os moldou, sobre a importância que essas pessoas tiveram na sua formação como indivíduos. Pode ser lido online ou como livro que está à venda. Não havia um registo destas pessoas.

Sem revelares muito, o que podemos esperar do “Espectáculo Guiado”?
Não é uma visita, nem um espectáculo. É qualquer coisa lá no meio. Uma deambulação por vários espaços do São Luiz, alguns deles normalmente inacessíveis ao público. São reveladas estórias no meio da História do teatro. Pormenores, contos e ditos. E há excertos do passado, fantasmas que se atravessam pelo público. Recriam-se momentos que dão oportunidade ao espectador de reviver espectáculos e eventos, como por exemplo, vemos o primeiro filme mudo que passou em Portugal, e que foi naquela sala. O público sente a mesma sensação de ver algo raro em estreia.

© Lisboeta Italiano

A história do Teatro São Luiz surpreendeu-te?
Claro. Muito pela sua variedade. Era um lugar elitista de início. Depois moldou-se aos tempos, sobreviveu a um incêndio e foi-se adaptando. Curioso como um teatro é uma maneira de imortalizar a história do país. Tudo o que se passou por lá, reflecte o que passou cá fora. Como diz o nosso actor: já pensaram na quantidade de pessoas que passou pela aquela porta? Já pensaram que o lugar onde estamos já foi isto tudo?

Como correu o processo criativo?
Foi intenso na investigação. Frustrante na selecção dos factos que queríamos mostrar. Depois foi muito gratificante trabalhar com os actores Vítor d´Andrade (que fez a primeira versão), o Francisco Goulão (o actor desta nova versão, revista e alargada), a Carla Flores e Ana Teresa Magalhães. E criar esta espectáculo no contexto d´Os Dias do Público – um evento no teatro onde o público escolhe o que quer ver. Escolheram-me a mim, fiquei comovido.

Que temas te interessa abordar no teu trabalho?
Tudo o que me diz qualquer coisa. Sejam referências ou textos que me questionem os seus sentidos cénicos.

Mais sobre André Murraças em https://ositedoandre.wordpress.com/

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