Andreia Pinto-Correia – Entrevista

© Giorgia Fanelli for Civitella Ranieri Foundation, 2015

© Giorgia Fanelli for Civitella Ranieri Foundation, 2015

Andreia Pinto Correia, compositora, vive actualmente em Brooklyn depois de ter estudado saxofone em Boston, tendo mestrado e doutoramento em composição no New England Conservatory. Fez curadoria, ensinou e actualmente dedica-se exclusivamente à composição. Tem encomendas de todo o mundo e foi distinguida com conceituados prémios a nível mundial.

Começaste por estudar jazz e saxofone na escola do Hot Clube. Fala-nos um pouco do teu percurso.
Na realidade, comecei a estudar teoria musical e coro na Academia de Amadores de Música. Só mais tarde é que comecei a estudar saxofone na Academia e no Hot Clube, ao mesmo tempo que fazia o curso de Psicologia na Universidade de Lisboa, curso que não cheguei a concluir.

Fui inicialmente para os Estados Unidos com uma bolsa como solista para estudar com o Joe Viola, um professor de saxofone clássico muito conhecido, e com o Bill Pierce, em Boston. No entanto, interrompi os meus estudos por seis anos devido a um acidente. Anos mais tarde regressei aos Estados Unidos e à universidade já numa vertente bastante mais académica, virada para a teoria e direcção orquestral. Foi nesta altura que comecei a receber as minhas primeiras encomendas.

Fiz o meu mestrado no New England Conservatory com o lendário Bob Brookmeyer, o meu primeiro professor de composição, e o doutoramento em composição “clássica”, na mesma instituição, com o compositor Michael Gandolfi, um grande professor de orquestração. Igualmente tive a boa fortuna de ter estudado com dois conceituados compositores que influenciaram muito a minha música e postura: Elliott Carter, já nos seus últimos anos de vida, e com John Harbison, um dos grandes senhores da música norteamericana, infelizmente pouco conhecido em Portugal.

Depois de terminar o doutoramento, vivi um par de anos em Princeton, onde fiz curadoria para um Festival no Institute for Advanced Study, instituição conhecida por ser a “casa” de Einstein. Ensinei no Departamento de Composição do New England Conservatory, mas eventualmente optei por me dedicar exclusivamente à composição. Actualmente, vivo em Brooklyn, Nova Iorque.

Já foste distinguida com vários prémios e mais recentemente recebeste o Prémio Guggenheim em Nova Iorque. De que forma este reconhecimento é importante?
Quando se ouve uma grande obra escrita por determinado compositor, a última coisa que se pensa é se ganhou este ou aquele prémio. Infelizmente vivemos numa época em que os prémios por vezes são necessários para um determinado compositor dar a conhecer o seu trabalho, ou para ter acesso a oportunidades ou situações financeiras fora do comum. Há que saber pôr as coisas em perspectiva e não deixar que o prémio x ou y fale mais alto do que a própria obra. Tento sempre ter estas ideias em mente, gosto de ter os pés bem assentes na terra, e sei que – com prémios ou sem prémios – terei sempre muito trabalho árduo pela frente.

No caso particular do Guggenheim, é um prémio com história uma vez que grande parte dos seus contemplados mais tarde vieram a receber o Nobel e o “Fields Medal”, entre outros. É, portanto, um prémio com uma vertente mais académica e, no caso da música contemporânea, mais associado a um determinado tipo de estética. É um dos grandes reconhecimentos de maturidade nos Estados Unidos concedido a académicos, cientistas e artistas. Por exemplo, no meu ano, o crítico Alex Ross e o compositor e director do departamento de composição da Columbia University George Lewis, receberam igualmente esta honra. Pessoas mais velhas que eu e com percursos bastante mais completos. Neste sentido, foi um  reconhecimento importante para mim também devido à companhia. Senti o peso de uma enorme responsabilidade. Por outro lado, este prémio é acompanhado de uma considerável quantia monetária, que varia de individuo para individuo, e cuja finalidade é a de financiar um ano de trabalho criativo livre de qualquer tipo de preocupações.

Compões para pequenos grupos, grandes grupos, orquestras. Como é o teu processo criativo?
O meu processo criativo tem variado de acordo com as diferentes fases do meu crescimento como compositora. No entanto, há algo que se mantém: a minha necessidade de usar lápis e papel. Tenho uma enorme quantidade de cadernos cheios de anotações e ideias, algumas abandonadas, outras para recuperar.

Gosto muito de estudar repertório e, quando tenho uma encomenda para determinado grupo de instrumentos, passo os meses anteriores a ouvir e estudar partituras relevantes para a formação em questão. Gosto de criar com uma forte consciência do que foi escrito antes de mim, da tradição. Neste aspecto, sou bastante conservadora.

Normalmente escrevo longe do piano. Depois do acidente, a minha mão direita nunca recuperou completamente e fiz questão de me habituar a esta rotina. No entanto tenho peças, como Xántara, Timaeus, ou Dalla Legenda aurea (a ser estreada este Maio), cujo plano harmónico inicial foi concebido ao piano.

Quando estou a escrever uma obra, as paredes do meu estúdio ficam cheias de esboços, partituras e gráficos estruturais que vou pendurando à medida que esta vai sendo construída. Construo uma espécie de casulo musical – reconheço que quiçá um pouco claustrofóbico –, mas essencial para mim. O momento em que a obra está acabada é o momento em que retiro todos os papéis e que fico com as paredes em branco. É uma ideia um pouco de artesão mas existe de facto um grande trabalho bastante detalhado por detrás de cada obra.

Como defines a tua música?
Esta é uma das perguntas mais frequentes que me fazem e talvez uma das mais difíceis no que diz respeito a resposta. Creio que a forma mais adequada de responder é a de falar sobre as minhas preocupações enquanto compositora.

Dou uma grande importância a cores instrumentais, a timbres e principalmente à harmonia e ao detalhe. Uma das minhas grandes paixões é a orquestração e procuro constantemente novas combinações timbricas. Gosto que cada obra tenha algo diferente, uma nova forma de pensar a estrutura, construir harmonia ou de combinações de orquestração que não tenha feito até então. Ou seja, um novo passo. Por outro lado, sou muito influenciada por literatura, sou uma leitora obsessiva e, se possível, leio vários livros por semana.

O que te inspira a criar?
Um quadro, um livro, um filme, uma palavra, um lugar, uma obra de música… Crio a minha visão do mundo, transformo-a, repensando, reconstruindo.

Quando vivia em Princeton ia a muitas palestras no Instituto e era fascinante ouvir especialistas de areas científicas com que normalmente não colaboro como a física, a matemática e sociologia. Dei-me conta de que o processo de criação de um compositor não é assim tão  distinto. É um processo de tentativas, descobertas, falhas, sucessos, alegrias e muitas angústias mas, acima de tudo, um processo bastante solitário.

Gosto de estar a par do que se passa no mundo artístico e, neste aspecto, viver em Nova Iorque é um luxo. Todas as semanas faço questão de frequentar concertos de música contemporânea, orquestral ou ópera, mas também vou a museus, teatro, espectáculos de dança, salões de poesia…um mundo.

Tens encomendas para trabalhar em Portugal?
Sim, neste momento tenho o meu calendário alivanhado até 2020. Tenho várias encomendas para Portugal, mas infelizmente não poderei falar sobre elas, pois ainda não foram anunciadas oficialmente.

Quais os teus próximos projectos?
Tenho várias obras a ser estreadas na próxima temporada: uma obra para os solistas principais da Boston Symphony Orchestra, uma obra orquestral para a League of American Orchestras, uma peça para um piano trio (violino, violoncello e piano) fabuloso com base em Nova Iorque, e uma peça mais pequena para harpa solo, também para uma solista extraordinária de NYC. Irei ser compositora em residência de vários festivais. E, se tudo correr bem, irei gravar um novo cd daqui a um ano.

http://andreiapintocorreia.com/

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