Anette Dujisin – Entrevista

Numa época em que o mundo atravessa uma crise pandémica, as plataformas digitais assumem um papel de ainda maior importância na nossa vida. As plataformas de video on demand não são excepção. Conversámos com Anette Dujisin, Directora da plataforma online de cinema Filmin. Falou-se das origens da plataforma, do que estão a fazer nesta altura de crise, do papel do Digital, e de cinema independente.

Fala-nos um pouco sobre as origens da Filmin
A Filmin Portugal nasceu da constatação de uma lacuna. Enquanto que no resto da Europa começaram a surgir plataformas VoD de cinema independente (muito antes da chegada de Netflix ou HBO, Amazon ou Disney), deparámos-nos com o facto de em Portugal não haver nada que avançasse nesse sentido.

Foi assim que com os meus colegas decidimos averiguar qual a possibilidade de abrir uma plataforma VoD em Portugal.

Os custos técnicos de uma plataforma de streaming são muito maiores do que aquilo que se pensa, e construir uma plataforma do zero, para um mercado do tamanho de Portugal teria sido muito complicado, não teria compensação, basicamente.

Foi assim que entramos em contacto com a Filmin Espanha, que existe no país vizinho desde 2008 e que tinha recentemente lançado uma plataforma no México. Com eles decidimos estudar o mercado português e analisar a viabilidade de lançar também em Portugal uma plataforma como a Filmin. Tínhamos a possibilidade de contar com uma estrutura técnica robusta e o know-how de muitos anos de experiência, seja com a Filmin Espanha seja com Universcinè França e Bélgica, que também formam parte desta família de plataformas VoD.

Mas a estrutura técnica e o know-how por si só não bastavam para entrar no mercado português. A Filmin Portugal nunca teria sido um sucesso se não tivesse tido o apoio e a colaboração dos mais importantes distribuidores e produtores nacionais de cinema independente. E foi graças a eles que a Filmin Portugal se tornou numa realidade, graças ao facto de apostarem e acreditarem na necessidade de em Portugal também termos uma plataforma VoD nacional que reunisse os catálogos de cinema independente, e muito importante também, que reunisse num lugar só, títulos de produção nacional que de outro modo não se poderiam encontrar.

Começamos modestamente, com cerca de 500 títulos, e uma versão beta, que aos poucos foi crescendo, fomos melhorando o serviço e fomos percebendo não só qual é o nosso público, mas também que tipo de filmes precisávamos e como devíamos organizar e programar o catálogo.

Depois de 3 anos e meio, chegamos aos 2.500 títulos, e continuamos a aumentar o catálogo todas as semanas.

Mosquito, de João Nuno Pinto

Em que é que a Filmin se distingue das restantes plataformas de streaming?
A principal diferença é que o foco da Filmin é o cinema, ao contrário das restantes plataformas de streaming que se concentram nas séries, e têm um target mais televisivo.

O nosso target é o cinema, e mais especificamente, cinema independente e de autor. Filmes que passaram pelos maiores festivais de cinema do mundo, e uma atenção particular ao cinema de produção nacional. O nosso público é um público cinéfilo, que procura cinema de qualidade.

Tomaram medidas específicas para se adaptarem a esta época de crise pandémica?
Sim, a primeira foi agilizar o reforço do catálogo e ter espaço e abertura para aqueles filmes que tiveram de sair das salas de cinema prematuramente (como foi o caso do Mosquito, ou do J’Accuse, ou do belíssimo documentário Para Sama). Passado algum tempo, começamos também a coordenar diretamente estreias nacionais, filmes que simplesmente não vão poder estrear numa sala de cinema, e que vão estrear na Filmin, como é o caso do Quarto 212 de Christophe Honoré e dos filmes da BOLD (Monos de Alejandro Landes, Salve Satanás? de Penny Lane, Rainha de Copas de May El-Toukhy, 100% Camurça de Quentin Dupieux, Liberdade de Kirill Mikhanovsky e Ema de Pablo Larraín) que irão estrear todas as quintas-feiras nas próximas 6 semanas.

Tivemos por esta razão, que potencializar a nossa capacidade de resposta à procura por parte de distribuidores e produtores que queriam estrear na Filmin, agilizando o processo de entrada dos filmes, e ao mesmo tempo, ter o cuidado de dar o devido espaço a cada uma das estreias.

A gestão editorial foi potencializada, assim como criação de parcerias com colaboradores externos, e também visto que tivemos um aumento substancial de subscritores – já mais que triplicamos num mês – tivemos de reforçar a nossa capacidade de resposta à procura.

J’Accuse, de Roman Polanski

Que solução te ocorre para os inúmeros festivais de cinema que estão a ser cancelados ou adiados?
Esta questão é muito delicada. A maioria dos festivais que sofreram o duro golpe do estado de emergência (o primeiro foi o Monstra, a uma semana de começar, depois foi a Festa do Cinema Italiano, as Curtas Vila do Conde, o Indie Lisboa, o FestIN) decidiram não cancelar, mas adiar. Mas o adiamento nunca se vai traduzir numa cópia exacta do que o festival teria sido se tivesse acontecido na altura certa. Todos estes festivais vão sofrer, não só economicamente – porque a maioria já tinha feito despesas relativamente à edição a fazer agora na primavera, e são despesas que não se podem recuperar, mas as próprias programações, que respondem a uma lógica de calendário, também irão sofrer. Além do perigo de se concentrar tudo no fim do verão e outono.

Acho que tem de haver uma resposta muito concreta das autoridades, nomeadamente do ICA e do Ministério da Cultura, através de um fundo de apoio a estas realidades que sofreram com a pandemia. E este fundo tem de ir além a ajuda aos festivais que normalmente já têm o apoio financeiro do ICA. Tem de ser um fundo de emergência que apoie o setor, e que seja transversal a todos os eventos que sofreram este duro golpe.

Entretanto, a Filmin abre as portas também a estas realidades. Com a Festa do Cinema Italiano decidiu-se fazer uma edição virtual do festival.

A Filmin criou um canal dedicado ao evento, com uma programação própria, e todas as terças feiras são lançados dois filmes italianos inéditos que irão enriquecer o programa ao longo do mês de abril e maio (títulos como Fortunata de Sergio Castellitto ou Amore Molesto de Mario Martone).

É uma porta que deixamos abertas também aos outros festivais.

Qual o papel que o Digital assume na corrente situação?
O digital nesta altura está a ter um papel importante ao dar resposta face às dificuldades oriundas do estado de emergência, como o fecho das salas e o adiamento ou cancelamento de festivais, mas esperamos sinceramente que este não se torne num substituto. É verdade que estamos a estrear filmes a nível nacional diretamente na Filmin, e nalguns casos até de modo exclusivo (como será o caso do último filme de Christophe Honoré, Quarto 212, que estreou no Festival de Cannes e que devia ter tido a sua estreia em sala nos finais de março), mas digamos que estas são situações sui-generis. Esperamos que uma vez que se volte à normalidade, o digital volte a ser o complemento às estreias em sala e aos festivais de cinema, e nunca o seu substituto.

Quarto 212, de Christophe Honoré

Quais os vossos planos a médio prazo?
Por enquanto tentamos dar resposta seja ao aumento dos pedidos de inserção de títulos no catálogo, como gerir este aumento de subscritores que tivemos no último mês. A ideia é manter o ritmo e a qualidade das entradas de títulos, assim como continuar a alcançar novo público, que acho que ainda não chegamos a todo o nosso potencial. Assim como continuar a desenvolver a parte tecnológica, dando mais funcionalidades nas apps, como por exemplo a possibilidade de fazer download de títulos para ver sem conexão, entre outros avances tecnológicos e disponibilização da app Filmin noutros dispositivos.

Como vai o cinema independente?
Esta situação pandémica vai certamente ter repercussões muito fortes no cinema independente, especialmente se não houver uma resposta por parte das autoridades para apoiar o setor. É ainda cedo e prematuro poder dizer quais os efeitos e o que vai acontecer. Mas com certeza os efeitos vão-se sentir a 360 graus, desde a produção até à distribuição, passando pelos festivais de cinema, etc.

Em termos gerais, há duas questões que acho que estão a afastar o público do cinema independente, uma é muito simples, o público está demasiado habituado aos blockbusters e ao cinema comercial norte americano. Por outro lado, não existe o conceito de educação cinematográfica, pois nas escolas o cinema se é abordado, é usado como complemento das matérias, mas não como uma disciplina em si. Estão a começar a fazerem-se alguns esforços neste sentido, como com o Plano Nacional de Cinema, mas a realidade e o alcance deste programa vai muito além dos objetivos do mesmo, ainda. É preciso educar o público, aproximar os mais jovens do cinema independente e trabalhar o públicos. Porque se não, podemos lamentar o facto de os números espectadores de cinema independente estarem a descer, mas se não fizermos nada para os atrair, a situação só vai piorar.

Outra grande questão do cinema independente são as dificuldades que tem na sua distribuição. Acho que a Filmin pode colmatar algumas das lacunas neste aspeto, sendo que os filmes independentes mesmo tendo oportunidade de sair em sala, normalmente a janela é muito curta (salvo exceções), e muitas vezes não dá o tempo para conseguir alcançar o seu público. Por outro lado, há muitas localidades que não têm salas de cinema ou cineclubes, e aqui também a Filmin pode chegar onde as salas de cinema não chegam.

Também sou da opinião que há um desfasamento quanto aos fundos disponíveis para a produção e as capacidades de distribuição. Ou seja, produzem-se um grande número de filmes com financiamento público, mas depois não há capacidade de resposta distributiva, e muitos destes títulos, mesmo tendo tido estreias mundiais em importantes festivais de cinema, não conseguem encontrar espaço nas salas. E se a isto adicionarmos o facto de as salas independentes estarem a fechar, o cenário só vai piorar. É verdade que o digital e as plataformas como a Filmin podem dar alguma resposta, assim como os festivais de cinema, para poder fazer chegar ao público cinéfilo, filmes que de outro modo nunca chegarão às salas, mas seria importante reforçar as mesmas. Abrir mais salas de cinema independentes (o fecho do Monumental foi um golpe duro), para poder dar resposta ao engarrafamento que existe com as estreias de filmes independentes. Ao fecho das salas soma-se o facto de os multiplex e as salas de cinema dos centros comerciais estão cada vez mais a fechar as portas ao cinema independente. No futuro, será preciso dar uma resposta concreta a esta tendência, com a disponibilização de salas dedicadas ao cinema deste tipo.

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