Anozero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra – Entrevista

João Gabriel

Conversámos com os responsáveis pela “Anozero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra” para saber mais sobre o evento, os artistas, o envolvimento com a comunidade local, e as Artes em geral.

Que balanço fazem das edições passadas da Anozero?
Há dias alguém me disse que a bienal se está a transformar num transatlântico no rio Mondego. É manifestamente exagerada esta imagem, mas admito que me encanta a possibilidade semântica da bienal permitir a navegabilidade do rio, desde o porto da Raiva em Penacova até à Figueira da Foz, como o era no tempo dos Fenícios e dos Romanos, quando o rio se chamava Monda, que significa claridade.
Resposta de Carlos Antunes, director da bienal

Quais as palavras-chave da edição deste ano?
Silêncio, Passagem, Marginalidade, Invenção, Militância.

Belén Uriel

Belén Uriel

Esta edição tem o título “A Terceira Margem”. Que margem é esta?
Esta edição da Bienal de Coimbra toma emprestado o título do conto “A Terceira Margem do Rio”, escrito em 1962, por João Guimarães Rosa. O narrador deste conto é um homem que narra a história do seu pai, que, vivendo com a sua família numa aldeia junto ao rio, decide mandar construir uma canoa, pequena como para caber justo o remador, para no seu curso entrar e dele nunca mais voltar a sair, permanecendo, para sempre, rio abaixo, rio acima. Esta autorreclusão a céu aberto, decisão individual do protagonista para a qual não oferece nenhuma explicação à sua família ou à comunidade, configura um gesto radical de ocupação irreversível. É esse gesto que define o território — tremendo, instável, insondável e indizível da terceira margem, que é a nossa contemporaneidade. A arte contemporânea é a margem mais avançada, a terceira margem da nossa sensibilidade e da nossa expressão. Na exposição, no livro e no programa de ativação, os artistas, suas obras, autores, alunos, comunidade de Coimbra e todos os atores, são participantes ativos desta terceira margem.

De que forma vão os 39 artistas ocupar a cidade de Coimbra?
A exposição apresenta trabalhos, metade dos quais comissionados, que ocupam diferentes lugares da cidade, ativando o seu património arquitetónico e imaterial, em consonância com a missão inicial do Anozero. Além da ocupação, pela segunda vez, do espetacular Convento de Santa Clara-a-Nova, a Bienal espraia-se pelas ruas do centro da cidade (Edifício Chiado, Sala da Cidade, Cinema Avenida e em Billboards), pelos edifícios da Universidade de Coimbra (Colégio das Artes e Museu da Ciência — Laboratorio Chimico e Galeria de História Natural) e pelos espaços do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (Sede e Sereia).

Erika Verzutti

Erika Verzutti

Como vai ser envolvida a comunidade local?
A comunidade local é essencial para o desenvolvimento da Bienal e é um trabalho que se inicia meses antes da abertura oficial da parte expositiva. Ela é formada pelos voluntários, técnicos, especialistas, montadores, organizadores e trabalhadores que a concretizam fisicamente. De maneira a envolver a comunidade também na visitação da exposição, uma parte fundamental desta edição do Anozero é o envolvimento dos alunos do Mestrado em Estudos Curatoriais da Universidade de Coimbra. Este programa, desenvolvido por eles em colaboração com Esfera CAPC, pretende tecer diálogos e encontros entre a Bienal e as diferentes comunidades locais. O programa fortalece o vínculo do Anozero com a cidade, os seus moradores e a Universidade, oferece aos alunos formação em contexto e garante a ativação laboratorial dos seus conteúdos expositivos. A equipa de curadoria, todos de fora de Coimbra, gostaria de que a Bienal – sua ativação – fosse feita para e pela comunidade.

Em que direcções pode crescer a oferta cultural na Região Centro?
A “eventização” da oferta cultural é um fenómeno que está a dominar a oferta cultural do país, com resultados desastrosos para a sedimentação séria e estruturada das praticas culturais. São respostas precipitadas à competição entre regiões ou cidades, que nada deixam. Em produção cultural é necessário substituir os velocistas pelos corredores de fundo, mas é preciso também ser local para ser global. Entre uma e outra posição não encontramos nenhuma contradição.
Em resumo, é fundamental investir nas estruturas, reforçando a a sua capacidade de produção através da formação dos seus elementos constituintes. Isso faz-se convidando formadores e outros profissionais reconhecidamente competentes, sejam eles curadores, cenógrafos, músicos, artistas ou outros que se considerem relevantes.
Estabelecida esta prática, a oferta cultural seguirá certamente as direcções mais improváveis e surpreendentes.

Bruno Zhu

Bruno Zhu

Como levar mais público a interessar-se pelas Artes?
Essa resposta passa por uma ação ampla, organicamente gerada pela união dos grupos diretamente ligado à formação das pessoas, e que envolve profissionais de todas as áreas, insatisfeitos com o rumo que as sociedades vêm adotando para si, orientadas para o consumo excessivo, sem pensar num modo de se relacionar com mundo que seja saudável, sustentável e fundado no respeito aos outros. A arte convida à reflexão e à imaginação, porque estimula a percepção e com ela o pensamento, o que é essencial para todos, sem exceção. Os artistas seguem cumprindo seu papel, alguns deles realizando trabalhos de primeira grandeza. É preciso respeitá-los, apoiá-los e divulgá-los. Sua produção é capaz de catalisar a nossa sensibilidade e com ela nossa expressão. Na produção artística reside, potencialmente, o melhor do nosso ser.
Resposta de Agnaldo Farias, curador geral do Anozero’19

Na foto de destaque: João Gabriel

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