Anton Skrzypiciel – Entrevista

O entrevistado desta semana é Anton Skrzypiciel, bailarino e actor australiano que vive e trabalha em Portugal há 10 anos. Já trabalhou com inúmeros criadores portugueses tais como Rui Horta, Patricia Portela, João Garcia Miguel, José Fonseca e Costa, e Tânia Carvalho, entre outros. Aqui, fala-nos sobre a sua carreira e sobre fazer arte em Portugal.

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© Francisco Salgueiro

Que amor surgiu primeiro, a dança ou o teatro?
Lembro-me de, quando era muito novo, ver ballet na televisão e pensar em quão fantástico era.
Mas venho de um passado pobre, por isso nunca esteve nos planos que teria aulas de dança, e não havia subsídios na altura. Foi apenas quando comecei a formação como actor que percebi que não gostava muito de “actores”, e percebi que queria fazer algo mais relacionado com o movimento. Por isso, a certa altura, comecei a ter formação de dança a tempo inteiro, depois da minha formação em representação. Penso que dançar ainda é o que mais gosto de fazer, se bem que se torna mais e mais difícil. Mas são ambas grandes actividades.

A formação foi importante no teu percurso?
Penso que a formação é muito importante, e tive a sorte de ter tido professores extraordinários em várias fases da minha vida. Há algo no treino de representação em que algumas pessoas dizem que é apenas ensinar-te a não ir contra a mobília, enquanto na dança penso que as fundações técnicas são mais importantes. A certa altura, na representação, claro que precisas de formação técnica para permitir representar as tuas ideias e emoções, para não te matares vocalmente, e coisas desse género. Para seres capaz de fazer uma temporada de uma peça que dura muito tempo, especialmente se for violenta na voz, se for um papel grande.

Já viveste um pouco por todo o mundo. Em que é que isso te afectou como artista?
Penso que quanto mais te expuseres a culturas e situações diferentes, mais cresces em todos os aspectos, e és desafiado de formas que por vezes nunca imaginas. A diferença entre viver numa cultura ocidental e viver na Tailândia por exemplo é enorme. E não é que tenha de incorporar essas coisas na minha vida, mas és desafiado a saíres de ti próprio, e a olhar e compreender as coisas pelo que são. É uma boa capacidade.

Como surgiu a tua ligação com Portugal?
Trabalhei com o coreógrafo português Rui Horta em Frankfurt durante alguns anos, e também em Munique. Foi a minha primeira ligação a Portugal. Parei de dançar por volta de 1999/2000. Não queria estar mais no palco nessa altura, então fui viver no Bornéu e trabalhar como guia de mergulho e instrutor. Um tempo depois, o Rui estava a fazer um projecto em Portugal, e eu soube disso. Foi um pouco por piada que lhe escrevi e disse “agora que estás num sítio bonito eu não tenho trabalho contigo!”. Então ele convidou-me para o projecto. Eu vim, e as pessoas continuaram a convidar-me para ficar e fazer vários trabalhos. Tive a boa sorte de acabar por trabalhar com muitas pessoas interessantes e fazer coisas muito interessantes. E acabei por ficar.

Já trabalhaste com inúmeros criadores portugueses. Há algumas características comuns?
A coisa mais espantosa de Portugal, de certa forma, é que apoia tanto a diferença, tendo em conta o tamanho do país. Algumas das semelhanças são que em geral há um certo acreditar na poesia, de todas as formas, seja no movimento, seja no texto. E penso que isso tem a ver com o caracter de Portugal e dos portugueses. Há um certo radicalismo aqui, que é incrível. As pessoas estão muito à vontade para sair das fronteiras definidas, por isso há muitos cruzamentos entre disciplinas tais como artistas visuais a trabalhar com companhias de teatro. Por exemplo a Catarina Campino a trabalhar com o Teatro Praga, e várias pessoas a atravessarem essas fronteiras de diversas formas.
Outra característica das pessoas com quem trabalhei é que estão sempre atrasadas! É um cliché sobre Portugal, mas acho-o bem verdade, especialmente com as pessoas com quem trabalhei.

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© Pedro Mendes

Que áreas ainda queres explorar enquanto artista?
Já fiz muito do que queria fazer. Não é tanto haver uma área diferente em que queira trabalhar. Tenho tido muita sorte. Gostaria de fazer mais cinema. Mas quero continuar a poder fazer bons trabalhos. É o mais importante para mim. Que continue interessado. Porque é demasiado difícil de fazer quando o trabalho não é bom. Não quero fazer trabalhos medíocres só pelo dinheiro, se bem que o dinheiro dá jeito. Há muitas outras coisas para fazer no mundo sem ser má arte.

Quais os teus projectos para os tempos mais próximos?
De momento estou a dançar numa peça da Tânia Carvalho, “A Tecedura do Caos”. Vai haver alguns espectáculos em Fevereiro. E estou também a começar um novo projecto a ser apresentado na Lisbon Week em Abril, dirigido pela Ana Padrão e coreografado pela Catarina Trota. É uma mistura de coisas que espero ser entusiasmante. Na verdade, vou começar o trabalho amanhã por isso não posso dizer muito. A não ser que vou interpretar o inventor da lobotomia, Egas Moniz, um Português que recebeu o Prémio Nobel.

Que balanço fazes do estado da cultura em Portugal?
Há algo podre no Estado de Portugal, no mínimo. Simplesmente que o Governo actual aparentemente detesta a cultura. A ideia de que o Primeiro-ministro esteja numa posição de dizer que este país não precisa de um Ministro da Cultura, e que ele próprio o pode fazer no seu tempo livre, diz imenso da idiotice desse grupo particular de pessoas. A falta de dinheiro leva a todo o tipo de dificuldades.

Também penso que há problemas estruturais na forma como a arte é financiada. As pessoas são financiadas principalmente para produzir trabalho, e há muito pouco dinheiro para digressões. Dado que as pessoas ganham dinheiro por produzir trabalho, as pessoas com mais sucesso tendem a produzir demasiado. Agarram tudo o que podem para os custos de produção e continuam a produzir e a produzir, ao ponto de eu já não ir ver muitas dessas coisas porque me parecem regurgitações. Parece-me que, pessoas brilhantes por esse mundo fora não trabalham dessa forma, por isso dúvido que muitas pessoas em Portugal sejam capazes de criar cinco a seis boas peças por ano.

Além disso, a questão estrutural de se ter de fazer um certo número de actuações torna-se muito difícil quando há teatros que continuamente cancelam espectáculos, e que não programam dança ou teatro contemporâneos. Estruturalmente, a vida é difícil, e a falta de dinheiro torna trabalhar aqui cada vez mais difícil.

Também me parece que a falta de dinheiro fez as pessoas receosas e protectoras dos seus trabalhos. Há um certo aumento de sacanice de certos artistas para com o trabalho de outros artistas que não existia anteriormente. Porque, mesmo apesar de as pessoas nunca terem ficado ricas com o seu trabalho criativo, havia o suficiente para sobreviver. Agora, as pessoas tentam apanhar tudo o que podem, e há uma séria má vontade dirigida às pessoas que têm mais sucesso do que elas. E acho isso uma grande pena.

Interview in English

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