Arquipélagos

Por Inês Lampreia

Haverá um momento em que estaremos isolados em ilhas e o contacto humano entrará em rarefação. Foi o que pensei ao observar as pessoas na rua, movimentando-se com cautela, para não se aproximarem ou tocarem, procurando manter os dois metros de distância.

Lembrei-me da história que li no The Guardian. Em 1965, seis jovens, entre os 13 e os 16 anos, que viviam na ilha de Tonga, no Pacífico Sul, lançaram-se numa aventura. Roubaram um pequeno barco e arrojaram mar adentro. A viagem não correu tão bem como esperado e uma tempestade danificou a vela e o leme da pequena embarcação, deixando-os à deriva durante oito dias. Acabaram por ir ter à ilha Ata, uma massa rochosa inabitável. Aí conseguiram armazenar água da chuva e manter um fogo aceso, durante os quinze meses que ali ficaram.

Esta história remeteu-me para uma outra, a do romance O Deus das Moscas, de William Golding, que o escreveu em 1951, catorze anos antes do acontecimento real dos jovens de Tonga.

O Deus das Moscas é uma alegoria que explana as possibilidades da maldade humana. Conta-nos a história de um avião que se despenha numa ilha. Os seus passageiros, um grupo de crianças, começam por se organizar com esperança de sobreviver. Escolhem um líder de forma democrática e aparentemente tudo corre bem. Contudo, aquilo que poderia ter sido uma demonstração de que a natureza do ser humano tende para o bem e para a colaboração, rapidamente se transforma num combate territorial, acabando na ostracização de uns contra os outros, na disputa e na violência.

Esta história nunca aconteceu. William Golding inventou-a sendo hábil a questionar as profundezas mais sombrias da humanidade. Enquanto os rapazes de O Deus das Moscas brigavam por causa do fogo, os de Tonga, cuidaram do seu fogo, para que este nunca se apagasse, por mais de um ano. Os náufragos tonganeses formaram um forte vínculo e, apesar das privações e ferimentos sofridos, cuidaram-se durante os quinze meses de isolamento.

Imagino que nos encontramos também numa ilha. A pandemia trouxe-nos para um lugar onde imperam regras de afastamento social, novos modos de agir, preservando o isolamento dos nossos corpos. Utilizamos utensílios vários de autoproteção alinhados com o medo constante da contaminação. E em simultâneo, mecanismos de vigilância germinam entre nós, uns operativos e a institucionalizar-se, outros subtis que se espraiam no quotidiano, entre uns e outros.

Necessitamos de contacto e mesmo os mais tímidos não deixam de se relacionar. Mas, agora, baixámos o volume do contacto humano. Temos menos vontade de nos aproximarmos, acanhamo-nos facilmente, evitamos abraços e toque, auscultando-nos através do olhar, sem expressões… escondidas que estão por detrás de máscaras.

Desta ilha onde nos encontramos não há fuga possível, como não havia na ilha em que naufragaram as personagens de Golding ou as crianças de Tonga.  Em ambos os casos – na história real e na fictícia – os sobreviventes testaram as suas resiliências… mas só o resgate os salvou do isolamento que lhes aconteceu.

Nós seremos igualmente resgatados, assim esperamos, por uma vacina ou um medicamento. Mas, até lá, viveremos as sucessivas opressões desta ilha pandémica e, voluntária ou involuntariamente, construiremos arquipélagos.

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto por Debby Hudson

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