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Úlulu: memória, ritual e regeneração na performance de Raquel Lima

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COFFEEPASTE / Pedro Mendes
2 de Abril de 2025

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Úlulu: memória, ritual e regeneração na performance de Raquel Lima

A performance "Úlulu", de Raquel Lima, nasce de um processo criativo pessoal e colectivo, abordando memórias familiares, heranças culturais e pertencimento. Inspirada pelo ritual são-tomense de plantação da placenta, a artista reflete sobre diáspora, ecologia e transmissão ancestral.


O termo "úlulu", que significa placenta em forro ou lúngwa santomé, simboliza a conexão com as raízes e serve como ponto de partida para questionar a relação entre o ser humano e o planeta. A performance integra oralidade africana, circularidade e repetição, rompendo hierarquias entre palavra, movimento e som.


A colaboração com Maria Palmira Joaquim e Okan Kayma fortaleceu a organicidade do processo criativo, enquanto a experiência de Raquel Lima em eventos internacionais, como as Bienais de Veneza e São Paulo, ampliou a sua exploração de mitologias e futuros especulativos. O seu trabalho na UNA – União Negra das Artes reforça o seu compromisso com a valorização da cultura negra em Portugal.


O que te motivou a criar "Úlulu" e como surgiu a ideia de explorar o ritual são-tomense nesta performance?

A motivação responde ao desafio que o Francisco Frazão apresentou para criar uma performance que, de alguma forma, desse continuidade ao Essencial é a Fome - um vídeo em que trabalhei com a minha mãe, Maria Palmira Joaquim, em torno da ideia de "trabalho essencial", durante o confinamento da pandemia COVID-19, no âmbito do projeto Essenciais do Teatro do Bairro Alto.


A ideia de explorar o ritual são-tomense surge por estar grávida, na altura, e por querer voltar a colaborar com a minha mãe. Essa possibilidade de um processo criativo mais familiar era desafiante, mas também a ordem natural do momento, e úlulu engloba todas essas dimensões, de família, de pertença, de raízes, de retorno, de troca nutritiva, de transmissão, de vida e de esperança num mundo entre o colapso e a regeneração.

 

De que forma a prática ancestral de "úlulu" se relaciona com as temáticas contemporâneas que abordas no espetáculo, como a diáspora e a ecologia?

Úlulu, quer dizer placenta em forro ou lúngwa santomé. Segundo uma tradição que tende a desaparecer devido aos partos nos hospitais, mas ainda existe, o úlulu é plantado (entenda-se, enterrado) no quintal da família, normalmente debaixo de uma bananeira ou outra árvore. Existe um mito associado a este ritual que fala sobre a inevitabilidade do retorno ao chão do úlulu e, ainda que seja apenas uma metáfora, a expressão ''sa xitu ku úlulu mu sa nê" (é onde está a minha placenta), é uma forma de sublinhar a relação umbilical com a raiz, com a origem.


Há um certo sentido de ligação profundíssima e absolutamente indestrutível com o lugar de nascença, seja lá onde for que se estiver e mesmo que nunca se regresse ao lugar. Esse lugar poético pareceu-me um bom ponto de partida para pensar em questões de pertença diaspórica, e a placenta e o cordão umbilical como lugares míticos de regeneração. 


Assim, o espetáculo parte do úlulu para refletir sobre dinâmicas de transmissão, nutrição, pertença e um pensamento sobre quais são os rituais que nos mantém conectados ao nosso planeta. Acho interessante a forma como podemos especular alguns desdobramentos do ser humano na preservação da sua existência e valorização do seu território. No espetáculo, falamos da efemeridade do planeta, do extrativismo, do fim do mundo, e da importância da prática ritualística para que a memória coletiva se preserve. 

 

Como foi o processo de colaboração com os outros artistas envolvidos na performance, como Maria Palmira Joaquim e Okan Kayma?

Foi um processo muito leve, rico e lento. Foi preciso tempo. Tempo de nos conhecermos enquanto criadores, de compreendermos o sentido da criação, de escrevermos e cantarmos músicas, de nos sintonizarmos numa familiaridade e uma cumplicidade que pudesse ser consolidada ao longo das residências. A vida e a arte foram-se fundindo e o ambiente foi-se tornando cada vez mais orgânico. O que acontece fora de palco é tão ou mais importante do que acontece em palco - e essa reciprocidade, baseada na confiança, foi algo que fomos construindo ao longo da jornada, e continuamos a construir. Maria Palmira Joaquim é uma anfitriã natural, uma cantora brilhante, uma anciã contadora de histórias, que conhece línguas que desconhecemos e, por isso, tem um papel essencial na narrativa. Okan Kayma também tem uma energia muito acolhedora, nos gestos e na forma de criar a sua música, desde objetos, materiais e instrumentos que dialogam diretamente com a natureza e o natural. De maneira que a construção tem sido marcada pela leveza e pela fluidez.

 

Considerando a tua experiência em poesia e performance, como integras a oratura e a tradição oral africana em "Úlulu"?

Será uma performance muito marcada pela circularidade, a repetição, a ideia de mantra e como isso pode ser evocado nos movimentos, na música, nas imagens, e para além do texto.


De facto, o texto não é a dimensão mais importante e procuro mesmo desconstruir essa hierarquia, tornando o momento uma experiência mais expansiva. O oral contamina-se com o animismo, na medida em que questionamos quem pode falar no planeta, além do humano.

 

Que desafios encontraste ao transpor um ritual tradicional para o contexto de uma conferência-performance contemporânea?

O ritual de plantação da placenta e do cordão umbilical é um ponto de partida para especular sobre outros rituais e retirar o carácter tradicional da sua essência. Isto implica um exercício de alargar o âmbito de gestos quotidianos que podem ser ritualizados. Como é possível darmos atenção e intenção a gestos como lavar os dentes, ir deitar o lixo ou ir ao teatro, dentro desta ideia de prática ritualística? Como podemos inventar novos rituais no mundo contemporâneo? Quais são os elementos que devem estar presentes, quais são os critérios e objetivos? O caminho foi também desmistificar a ideia de ritual e sugerir que possam ser essenciais para a regeneração de um mundo em ruína.

 

De que maneira a tua investigação académica em oratura e movimentos afro-diaspóricos influenciou a conceção deste espetáculo?

Durante a pesquisa para a performance, fui compreendendo que outras pessoas negras do Brasil também conheciam esta prática de cuidado com o úlulu e o "umbigo" (ainda que trazendo outras possibilidades, como o lançamento do cordão umbilical ao mar), que o ritual era também ressignificado em contexto quilombola na Colômbia, tal como em Cabo-Verde, Angola, Moçambique e em outros locais, predominantemente do sul global. O movimento desse saber afrodiaspórico poderá ter sido desencadeado pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas através da oratura, da passagem oral de princípios e práticas ancestrais. Um dos pressupostos da criação foi, por isso, encarar a plantação do úlulu como uma prática que se propaga de forma rizomática e que nos sugere uma relação com a fertilidade da terra, desde o potencial de uma cosmovisão indígena que nos ensina sobre a preservação do planeta. Essa premissa, no contexto atual do mundo, de colapso e ruína - ruína de valores, de recursos da natureza, de ligação à natureza - é como um vestígio para imaginarmos a nossa constante regeneração face a essa "Grande Ruína" que atravessamos.


Para além de "Úlulu", tens participado em eventos internacionais como a Bienal de São Paulo ou a Bienal de Veneza. Como é que essas experiências internacionais têm influenciado o teu trabalho artístico?

Essas experiências foram marcantes não apenas pela dimensão dos eventos referidos, enquanto as maiores e mais antigas exposições de arte contemporânea, mas pelo contexto histórico que atravessamos e a programação específica em que estive inserida. No caso da Bienal de Veneza foi o evento Loophole of Retreat, uma extensão do Pavilhão dos EUA representado por Simone Leigh, na qual a curadora Rashida Bumbray, juntamente com Saidiya Hartman e Tina Campt, reuniu académicas, artistas e ativistas negras de todo o mundo para um simpósio de três dias centrado no nosso trabalho intelectual e criativo. No caso da Bienal de São Paulo tratou-se da 35.ª edição, curada por Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel, dedicada a uma reflexão sobre corpos em movimento coreografando o possível, dentro do impossível, um convite às imaginações radicais a respeito do desconhecido, ou mesmo do que se figura no marco das impossibilidades. Para mim, as duas situações foram a materialização de novos mundos, nos quais a concretização de narrativas imaginadas, a contemplação da liberdade poética, o fortalecimento coletivo e o poder da imaginação, ensinaram-me imenso sobre a possibilidade de criar novos mitos, construir rituais coletivos, de engendrar celebrações inesperadas, especular sobre outros planetas, e isso são tudo propostas que também se podem ler no meu trabalho artístico, e em particular na performance Úlulu.

 

Fala-nos um pouco do trabalho da UNA – União Negra das Artes

A UNA foi criada em 2021 no âmbito da luta antirracista e da afirmação de negritude em Portugal, com ênfase nas diversas manifestações e debates recentes em torno da reivindicação de direitos humanos, da descolonização do conhecimento e da valorização do legado artístico-cultural protagonizado por pessoas negras. Temos dedicado os últimos anos a várias iniciativas que promovem, elevam e fortalecem a representatividade negra no campo artístico português, assim como reconhecem a valorização do património imaterial da população negra em Portugal.


As nossas ações vão desde a consultoria, participação em conferências e festivais, formações e workshops e ativismo social, a nível nacional e internacional. Destaco a organização do Terreiro, em 2023, um retiro de dois dias entre artistas negros com várias formações, conversas, marcado pelo cuidado, descanso e fortalecimento interno; o processo de consultoria junto à DGArtes que culmina com o reconhecimento da diversidade étnico-racial como um interesse público enquadrado no Decreto-Lei que sustenta os avisos de abertura de apoio às artes; o Auto-mapeamento de artistas negros, uma plataforma digital e pública, em que diferentes pessoas podem se inscrever de modo a tornar acessível informação sobre profissionais da cultura, de modo a afirmar a necessidade de políticas de reparação e medidas de ação afirmativa. Neste momento, estamos a trabalhar na criação de um Manual Antirracista para as Artes, com o apoio da Culturgest, na criação de uma coleção de feminismo negro com a Rede de Bibliotecas de Lisboa, entre outras iniciativas em curso.

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