Artistas de todo o mundo, uni-vos

Por Isabel Garcez

Mesmo que Camões tenha tentado colocar Portugal noutro ponto da anatomia do continente, ao proclamar, n’Os Lusíadas: «Eis aqui se descobre a nobre Espanha[1], / Como cabeça ali de Europa toda», a verdade é que a posição anatómica que quase sempre vingou foi a da cauda continental. Também por isso, os movimentos artísticos, culturais, sociais e ideológicos que nascem ou florescem do lado de lá chegam ao lado de cá atrasados e quase sempre desgastados pela travessia dos Pirinéus. Mas há atrasos bons. Há mesmo coisas que poderiam nunca cá chegar…

Quantos de nós não quiseram acreditar que o vírus de uma direita desavergonhada mas com muita esperteza saloia nunca chegaria? Mas chegou. E nem se desgastou com o caminho. Ao invés de perder forças, na pressa de chegar, fez couch surfing – descansou, alimentou-se, aproveitou até para umas voltinhas de sightseeing bus pelos cenários mais atrativos das outras direitas, fez uns workshops de fins de semana do tipo DiY e navegou pelos tutoriais do YouTube. Enfim, preparou-se o mínimo para aproveitar o máximo…

E cá está, entre nós, tão desavergonhada como todas as outras. E, infelizmente, parece poder tornar-se tão bem-sucedida como todas as outras suas irmãs de criação.

Tal como todas as sementes, acredito que estas direitas só florescem em terrenos apropriados. Mas esta perspetiva levanta uma questão pertinente mas desconfortável: Por que razão estas direitas prosperam em todo o mundo? Por que razão há terrenos apropriados em todo o lado? Serão estas direitas como aquelas sementes ultrarresistentes, muito geneticamente transformadas, que sobrevivem quase sem água, quase sem sol e quase sem terra?

Talvez. Mas isso não explica totalmente o fenómeno. É verdade que estas direitas são todas populistas. Isto é, pop; isto é, simples; isto é, com poucos e repetidos ingredientes. É verdade que estas direitas se aproveitam de momentos históricos em que as tensões sociais são mais graves e difíceis de resolver. Mas, mesmo assim, isso não justifica que prosperem em tantas e tão diferentes realidades. Não, estas direitas vingam em mentes pouco questionantes, pouco reflexivas e muito pouco treinadas para a solidariedade. (Levante-se o primeiro que conheça um caso diferente!) E para que não nos fiquemos apenas pelas impressões, vejam-se os estudos que descrevem o perfil dos apoiantes de Trump ou Bolsonaro…

Portanto, outra questão pertinente e incómoda se levanta: Qual a razão de existirem tantas mentes pouco questionantes, pouco reflexivas e tão pouco treinadas para a solidariedade?

Se virmos os estudos mencionados, chegamos facilmente à conclusão de que o fator determinante é o nível sociocultural – e não o económico, muito embora este arraste tantas vezes o outro.

Sociedades que investem na educação e na cultura de todas as comunidades que as compõem têm uma maior imunidade às direitas aqui focadas. Não uma educação nem uma cultura de carneirada, bem entendido. Não, a educação e a cultura de que aqui falamos servem para desenvolver todas as inteligências – mas a esperteza saloia não é uma delas.

Estou convicta de que a forma mais rápida, eficaz e bonita (porque não?) de aumentar e alargar os níveis de educação e de cultura é através da arte. Qualquer tipo de arte e mesmo que acreditemos que a arte não tem de servir para nada.

Os artistas não têm de ser ideólogos, mas sabemos que a sua esmagadora maioria não compartilha do ideário de direitas sem vergonha mas com muita esperteza saloia. Por alguma razão será, não é?

Por isto, termino com os versos de uma poderosa canção de um poderoso artista que nos deixou há um ano, pedindo a todos os artistas (suplicando, mesmo) que se unam num dos lados da trincheira ideológica em que a nossa sociedade se vai dividindo. Precisamos de artistas que, mesmo nas dificílimas condições deste agora, continuem a defender o papel da arte, porque a arte, em alturas como esta, já não pode ser outra coisa senão questionante, reflexiva e solidária. E porque acredito que a sociedade, mais cedo do que tarde, saberá reconhecer e retribuir o que agora nos dão.

Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

[1] Aqui, sinónimo de Península Ibérica.

Isabel Garcez
Estuda Literatura Portuguesa no CLP-UC. Trabalha em edição desde 1993 (Editorial Caminho: 1996-2016). É membro fundador da Associação Cultural Prado.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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