ArtWorks – Entrevista

A ArtWorks é uma organização sem fins lucrativos que se estrutura entre a produção de obras de arte e outros tipos de projectos de carácter artístico e experimental. Faz parte do Grupo Ecosteel. Conversámos com os responsáveis pelo projecto para saber mais das suas origens, missão e valências de actuação, de Indústria e Arte, de mecenato, e de muito mais.

Como surgiu e qual a missão da ArtWorks?
A ArtWorks surgiu como parte integrante do Grupo Ecosteel que agrega diferentes sectores fabris que partilham entre si recursos para a fabricação de diversos produtos. Os recursos disponíveis, ainda antes da existência da ArtWorks, bem como o contacto com alguns artistas, activou sinergias que deram sentido à criação deste projecto. Actualmente a ArtWorks é uma organização sem fins lucrativos que se estrutura entre a produção de obras de arte e outros tipos de projectos de carácter artístico e experimental.

No que à nossa missão diz respeito não sabemos bem. É muito mau não termos uma missão definida, mas sim presentida? Numa estrutura tão interdisciplinar, onde aparecem vários tipos de trabalhos, escalas, autores, materiais, técnicas, é por vezes difícil criar uma gaveta maior onde colocar o importante. Poderíamos dizer que o importante é fazer bem o nosso trabalho, algo que pensamos ser comum a todas as empresas, organizações ou instituições. Poderíamos também dizer que parte importante do nosso trabalho – e isto talvez tenha que ver com essa “missão” – é proporcionar aos artistas um espaço onde possam produzir com qualidade, algo que, por diversos motivos, e em muitos casos, é impossível fazer no seu próprio atelier. Há uma parte pela qual nos debatemos e que temos vindo a cuidar cada vez mais que tem que ver com os apoios dados a vários artistas e espaços independentes que não possuem recursos necessários para produzir os seus projectos. Sentimos cada vez mais essa responsabilidade de poder ser uma parte importante para que muitos projectos não se percam. Continuar a dar esta atenção a estes apoios é, por um lado, uma responsabilidade e, por outro lado, uma forma genuína de querermos, através do que melhor sabemos fazer, tornar possível a criação de uma obra – ou apenas e uma ideia – que em muitos casos não seria possível sem esta vontade de responder de forma afirmativa aos desafios que nos propõem.

Quais as valências de actuação do projecto?
Actualmente a ArtWorks estrutura-se entre a produção de projectos, o apoio a artistas e instituições, a parecerias com diferentes agentes culturais e o projecto No Entulho. Tendo como centro a produção, a ArtWorks actua como uma plataforma híbrida que permite a criadores de diferentes áreas desenvolver projectos. Temos como objectivo sermos facilitadores de recursos para a criação transversal, tentando criar condições que artistas em diferentes fases das suas práticas podem dispor. Neste sentido, existe uma atitude bastante exploratória e disponibilidade para receber desafios. É uma forma de desenvolvermos as nossas próprias competências. Cada obra tem três componentes que nos parecem comuns a todos os projectos: conceito, material e processo e muitas das vezes auxiliamos cada um delas com o objectivo de complementar a visão do artista. Uma visão que é por vezes meticulosamente concebida, outras vezes abstracta do ponto de vista construtivo e processual. Pensamos que a relação entre o artista e a ArtWorks deve, ou pode ser, íntima ou, no melhor dos casos, simbiótica.

O que é o programa No Entulho?
O programa No Entulho tem a sua origem nas Residências Artísticas No Entulho, orientadas para a exploração do excedente industrial por artistas emergentes. Após dois anos de Residências, vimos que a premissa de abordar estes materiais fazia sentido no contexto de projectos com outros objectivos, o que deu origem ao Entulho enquanto um programa alargado. Além das residências, estamos a explorar a criação de capas de transporte para obras de arte com recurso a excedentes de produção têxtil e, em conjunto com parceiros estratégicos, a criar uma plataforma para o acesso alargado á comunidade artística destes mesmos recursos.

É um programa que cruza a nossa prática de produção com preocupações ambientais, reflectindo sobre o contexto em que nos inserimos e o que dele podemos criar.

O facto de actuarem fora dos grandes centros urbanos é uma mais valia ou um desafio?
Um pouco dos dois, mas sobretudo uma mais valia. Foi algo que aconteceu de forma natural e não ao abrigo de uma estratégia específica. O facto de estarmos sediados numa zona industrial, inserida num meio rural, permite-nos operar em estrita proximidade com diferentes técnicos especializados e ter acesso a uma grande variedade de materiais. O Norte de Portugal é uma zona bastante rica no que diz respeito à industria. Expandir as nossas relações e conhecimentos potencia o nosso trabalho. Parte do que fazemos tem que ver com o desenvolvimento de soluções técnicas específicas para cada obra e a experimentação a partir do saber técnico de quem a executa.

A descentralização destes saberes mais manuais, que são passados muitas vezes entre gerações e encontram hoje um lugar em indústrias como a nossa, fazem do lugar onde operamos uma boa base para a exploração criativa que está no cerne do que fazemos.
Existem depois outras vantagens, como o espaço para trabalharmos em grande escala e podermos, por exemplo, fazer a instalação de protótipos na fábrica antes de instalarmos uma obra no local de exposição. Estas valências são uma grande vantagem para garantirmos um nível de qualidade elevado nas nossas produções.

Como é que a industria se relaciona com a Arte no vosso caso?
Pensamos que nas questões anteriores ficou clara essa relação. Existe um vínculo fundamental entre o trabalho da ArtWorks e o meio industrial.

Como vêem a evoluir o mecenato em Portugal?
É algo a que não estamos preparados para responder. Faltariam dados e informação. No entanto, mantemos e procuramos estabelecer políticas de mecenato e apoios que, no nosso caso, estão intimamente ligadas ao volume de produções que vamos tendo. Cada projecto, a partir dos lucros que este possa gerar, possibilita o apoio a artistas e instituições independentes. Muitos projectos ligados à arte motivados pela paixão são perdedores de dinheiro. Tentamos que exista um equilíbrio que nos permita continuar estas lógicas e apoiar cada vez mais projectos artísticos.

Peço-vos um desejo para as artes para os próximos tempos?
Que se criem plataformas de produção transversais a artistas que operam a partir de contextos periféricos, para os quais existem poucos lugares de representação. Parece-nos urgente não só criar condições para a interdisciplinaridade, formal e disciplinar, mas também criar espaço para que narrativas periféricas sejam visíveis, sobretudo no contexto do território nacional. Vivemos um momento em que estão activos vários movimentos de recomposição social e outras temáticas que devem ser acompanhadas e integradas de forma estruturante no campo da produção artística. Isto passa por um trabalho interno das instituições, que devem re-avaliar a forma como operam para que seja possível um tecido cultural realmente diverso fluir de forma cada vez mais orgânica.

Fotos: Bruno Lança / ArtWorks

Mais sobre a ArtWorks em https://artworks.pt/

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