As abelhas e os arquitetos ou uma carta aberta aos Antónios

Por Isabel Garcez

o que distingue, de antemão, o pior arquitecto da melhor abelha
é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera
(Karl Marx. O Capital. 1996.
São Paulo: Editora Nova Cultural Lda.)

Como se sabe, o primeiro-ministro António Costa convidou o gestor António Costa Silva para elaborar um plano de recuperação económica para o país em contexto pós-pandemia. Das várias entrevistas que já deu, e do muito que se vem escrevendo sobre o assunto, sabemos que, no geral, o António-gestor defende: é necessário aliviar o excesso de regulamentação e as barreiras à entrada de novos players no mercado.

(Não é esta a receita de sempre do capitalismo? Defender a total liberalização, somente regulada por uma meritocracia que é sempre de poucos, argumentando que essa é a única forma de beneficiar a maioria – porque esta última nunca consegue ter mérito para nada?)

Porque vivemos na hegemonia do capitalismo, tudo tem um referente capitalista. Senão vejamos: a cultura pertence à esfera do capitalismo estético (Gilles Lipovesky e Jean Serroy. 2014. O Capitalismo Estético na Era da Globalização. Edições 70) e o mercado da cultura tem mesmo, não uma mas quatro formas de capital – social, cultural, humano e estrutural ou institucional (Relatório das Nações Unidas de Economia Criativa 2010). Mas serão estas quatro formas de capital equivalentes? Claro que não, o capitalismo não sobrevive sem hierarquia. Mesmo que o quarto tipo de capital não possa existir sem os três primeiros, o certo é que é ele quem controla os outros.

E a quem responde o capital estrutural ou institucional? Sem surpresas: ao mercado.

Claro que o António-gestor diria que o seu mercado não é despótico e que também ele tem contas a prestar. A quem? Ao consumidor, ou melhor, às necessidades dos consumidores. O que é falso porque uma das primeiras lições do marketing é saber criar necessidades que têm de ser satisfeitas através do mercado que cria essas necessidades…

Enfim.

Temos assim a cultura integrada numa economia criativa que, por sua vez, está baseada na ideia de capital criativo. Mas a criatividade na economia não é uma ideia absolutamente nova, pois o consumo sempre dependeu de novos produtos que respondem a velhas necessidades ou criam novas. O que é novo na economia criativa é a relação entre os diferentes agentes e a forma como todos estão obrigados a criar valor diferenciado que se reflita em riqueza. Se este valor diferenciado é facilmente contabilizado nos produtos, através do volume de vendas, o mesmo não acontece quanto à diferenciação das capacidades artísticas dos criadores ou das competências criativas dos diferentes elementos da cadeia de produção. Aqui, o valor de cada um resulta de uma amálgama qualitativa e quantitativa de propriedades, sendo muito difícil definir o valor da contribuição de cada elemento em cada fase da vida do produto. E, como é difícil, regressamos à hierarquia, e quem define esse valor é a já mencionada quarta forma de capital no mercado da cultura.

(Não, não vamos repetir o resto do ciclo; já sabemos que é um ciclo e que os ciclos se repetem.)

São as indústrias culturais e criativas pérfidas porque existem neste ambiente? Não, até porque elas promovem, idealmente falando, sociedades com bons níveis de literacia e culturalmente conscientes, e estes dois aspetos contribuem decisivamente para boas performances socioeconómicas, sejam elas culturais ou não. Portanto, as indústrias culturais e criativas contribuem em muito para o desenvolvimento das sociedades em que existem. Além disso, este desenvolvimento tem bons níveis de sustentabilidade, e o capital cultural, seja material ou imaterial, é tendencialmente diversificado e preservado para futuras gerações, da mesma forma que os recursos naturais e ecossistemas. Este tipo de economia só será pobre se não considerar uma aproximação real à arte e à ciência, pois são elas o grande motor e não (apenas) um produto.

Se a única filosofia inerente a esta economia é a capitalista, então sejamos capazes de criar uma economia em que o capitalismo seja realmente simbólico e realmente estético e realmente científico. Não aceitaremos inscrevermo-nos num falacioso e pernicioso sistema de pseudomeritocracia.

O que pode a Cultura esperar deste Portugal que agora se desenha? Retomamos a epígrafe de Marx para responder: Num contexto em que ostensivamente se privilegia a atitude das abelhas, a mente dos arquitetos fica a perder. E a cultura é só a mente dos arquitetos. Não é mais nada e não tem de ser mais nada.

Isabel Garcez
É investigadora no Centro de Culturas e Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (CLEPUL). Trabalha em edição desde 1993 (Editorial Caminho: 1996-2016). É membro fundador da Associação Cultural Prado.

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