As Gaivotas, de Teatro Praga

Não uma nem duas vezes, vários artistas que passavam pelo Pólo Cultural das Gaivotas ficavam com um arrepio no pescoço e com uma vaga sensação de serem observados; relatos corriam de sons vindos das paredes e de misteriosas presenças sentidas em todas as salas, independentemente da hora ou do dia. Apesar de tudo este ambiente, digno da série Arrepios, não demovia aqueles que procuravam ensaiar os seus projetos artísticos com as mínimas condições, e a preços que não implicassem o despedimento de elementos da equipa artística. E porque na luva do mito cabe sempre a mão da verdade, descobrimos com a mais recente criação de Teatro Praga a origem do clima de terror que tem assombrado este versátil espaço de ensaios.

A Praga tem habituado o seu público a amassar na mesma cuba a sátira, a elevação, a comédia e a referência. O bolo final tem saciado um vasto espectro de públicos e integra programações que vão do infantil ao erudito – não que sejam mutuamente exclusivos. Dando continuidade ao caminho no humor, trilhado em títulos como Tropa Fandanga e Worst of, criaram agora uma nova paródia. Mas se neste último, Worst of, a proposta era arqueológica, no sentido de fazer um levantamento de textos canónicos do teatro português, de qualidade potencialmente questionável, os Praga viram-se agora para o futuro, deixando Gil Vicente e Sttau Monteiro a descansar nas tábuas dos respetivos caixões, trazendo para as outras tábuas, as do palco, uma sátira mordaz às novas dramaturgias.

Não se espante o espetador, caso seja artista e o seu plano de ensaios tenha passado nos últimos anos pelo Pólo das Gaivotas, se algumas das ideias, movimentos, sons ou frases do espetáculo lhe forem familiares. É que os Teatro Praga, numa ambiciosa operação de larga escala, basearam-se em centenas de horas e páginas de registos de ensaios captadas e bisbilhotadas nos recantos no Pólo.  Pelo menos, é essa a premissa com que abrem o espetáculo: aliados a uma equipa de investigação profissional, numa coprodução inédita da companhia de teatro com o Serviço de Inteligência Português — se é verdade ou se é mais uma das farsas Praguenses resta ao espetador decidir — Teatro Praga oferece-nos um retrato cartoonesco do estado da Arte em Portugal usando como matéria-prima os processos artísticos desenvolvidos debaixo das suas barbas.

Obviamente que, como é seu apanágio, não o fazem sem requinte. Apoiando-se no clássico de Tchékhov, A Gaivota, delegaram naturalmente no personagem de Treplev a responsabilidade de viver todas as amarguras, indecisões, eurecas e incongruências que auscultaram dos jovens artistas no Pólo das Gaivotas. Assim, Treplev canaliza bloqueios criativos de alguém que ensaiava um Ibsen, discorre sobre a falta de precisão do movimento de Nina, num possível ensaio de dança, e desespera por aquecedores que lhe aqueçam a sala de ensaios naquela gelada Rú(ssi)a das Gaivotas nº8. Já Irina e Trigorin, no tom que nos habituaram, canalizam o ideário das gerações anteriores que ora consideram risíveis algumas das lutas dos jovens artistas, ora julgam as suas criações por serem demasiado crípticas e experimentais, ora as condenam por teimarem em não conhecer a própria História do Teatro nacional. Nina, por sua vez, representa a ideia e a utopia do derradeiro espetáculo, imaterial e fugidia. É ela que lança a dúvida sobre Treplev e o envolve num manto melancólico que, inevitavelmente, o fará questionar as suas opções de carreira. Toda esta trama conta com uma demão agressiva de cor, luz, referências pop contemporâneas e citações literárias de autores mais ou menos conhecidos.

Durante duas horas de bom teatro, o espetador pode acompanhar as caras conhecidas de Teatro Praga a personificar questões que, para o olho desavisado nada importam, mas para artistas são dilemas que roçam a vida e a morte: a crueza da queda de uma bailarina, a cor da camisa da atriz, o tom da entrada em cena de um ator, as vírgulas, os penteados, as pausas. Esta endoscopia do processo criativo permite, sob o esqueleto d’A Gaivota, um retrato fiel aos temas contemporâneos e às fórmulas teatrais que estão correntemente a ser testadas. Em resumo, As Gaivotas não são senão um jogo de espelhos que Teatro Praga criou para falar acerca do seu tema favorito: o Teatro.

Critic@ Sombr@
sombra.critic@gmail.com

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