As moscas

Por Isabel Garcez

Como sabemos, estamos num momento civilizacional em que qualquer coisa pode tornar-se famosa de um momento para o outro – ou de um like para 1.293.480 likes em menos de 15 minutos. E recentemente, se ainda fosse preciso comprová-lo, uma mosca demonstrou-nos isso mesmo.

Muitos comentários, memes e afins se fizeram acerca desta mosca, tanto indicando possíveis causas como apontando especulativas consequências, mas, no meu caso, levou-me a recordar uma outra mosca famosa porque esta outra mosca famosa tem muito a ver com o que se vai passar, na próxima semana, no país da segunda – a mosca de Atenas, também conhecida por Sócrates.

Porque o mundo sairia muito beneficiado se muitas Moscas de Atenas encontrassem pouso na cabeça de muitos dos líderes mundiais atuais e aí ficassem ad eternum a incomodá-los persistentemente com perguntas e perguntas e perguntas até que esses líderes 1) ganhassem consciência da sua ignorância; 2) caíssem em si, deixassem de se autopromover como energúmenos sem vergonha e apoiassem a existência de todas as Moscas de Atenas que o seu país pudesse criar; ou 3) nos desamparassem a loja porque a impertinência resiliente de muitas e muitas Moscas de Atenas seria o suficiente para que este tipo de líderes não mais ganhassem eleições; pelo menos isso.

Continuando com a metáfora e a apologia das moscas, cheguei à conclusão de que, na verdade, não faltam moscas neste mundo, que as temos até de mais, e que nunca se cansam de nos zumbirem incessante e descaradamente todo o tipo de impropérios junto dos nossos ouvidos digitais. Então, o que fazer? Delimitamos-lhes um tempo máximo para darem largas à sua ruidosa ignorância e tiramos-lhes o telemóvel durante o resto do dia? Bloqueamos todas estas moscas e mantemo-nos felizes, mas não conscientes, na nossa cada vez mais pequena ciberbolha? Mantemos as janelas abertas, como, aliás, nos aconselham, para dissipar todos os vírus maléficos deste mundo, e deixamos que hordas destas moscas entrem em nossas casas, conspurquem as nossas paredes e nos ensurdeçam?

Já perceberam que não tenho uma convicção forte nem suficientemente esclarecida sobre a melhor maneira de lidar com estas moscas, mas, descrevendo um caminho de aproximação a todas as Moscas de Atenas da nossa História, é bom assumir que nada sei e que não é deixando de fazer perguntas que vou passar a saber. Por isso, resolvi desenvolver um pequeno exercício de lógica (perdoem-me os filósofos por este uso popularucho da palavra):

  • Todas as moscas sabem ler, tanto as de Atenas como as outras;
  • Toda a gente sabe que ler é muito importante, e muitos defendem que não é importante o quê desde que se leia.

Mas, se assim é, se o número de cidadãos que sabe ler e que lê é cada vez maior, porque é que há cada vez menos Moscas de Atenas e cada vez das outras? Só pode ser porque saber ler e ler não é o suficiente. Assim sendo, o que falta? Claro que não cheguei sozinha a estas perguntas nem muito menos à resposta: É preciso literacia, pois claro! Também não preciso de chegar sozinha aos muitos desenvolvimentos desta resposta, e nem sequer preciso de ser uma Mosca de Atenas para isso – basta não ser uma das outras. Mas acrescento isto: a literacia não pode ser alheada do conjunto de práticas sociais que a acompanham. As práticas de literacia são modeladas por instituições políticas, económicas, culturais e sociais com o poder de dominarem as escolhas culturais feitas pelos consumidores, porque estes só podem escolher entre o que existe e, entre o que existe, o que lhes é dado a conhecer.

A literacia é uma forma de ecologia, um ambiente onde as ações individuais se inscrevem numa rede com outras literacias, com outras ações individuais. A literacia crítica é mais importante do que nunca, no atual ambiente de multiplicidade e diversidade de (con)textos. A literacia não é uma competência inócua ou neutra, é uma prática socialmente definível e está presente em todas as vivências e atividades humanas. Está também intimamente relacionada com a ideologia e o posicionamento social de um indivíduo. É preciso que cada vez mais as pessoas tenham a noção de quais são os seus níveis de literacia em cada domínio onde atuam, assim como é necessário que compreendam qual o nível de literacia que potencialmente poderiam ter e o que isso lhes permitiria conhecer e alcançar.

Saber ler não é o suficiente para se ter um bom nível de literacia. Às Moscas de Atenas deste mundo cabe a função de declarar guerra à mediocridade e à mediania através da estimulação da natural inquietação e de insatisfação que todos temos perante o mundo e perante nós próprios. Até lá «This democracy is a tramp».

Isabel Garcez
É investigadora no Centro de Culturas e Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (CLEPUL). Trabalha em edição desde 1993 (Editorial Caminho: 1996-2016). É membro fundador da Associação Cultural Prado.

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