Autoexploração

Por Ivo Saraiva e Silva

A irresistível velocidade de um quotidiano que multiplica informação, a confunde e a distorce, e a vulgariza por motivos sensacionalistas, sob pena de polarizar as leituras dos destinatários, influencia os comportamentos das pessoas para as introduzir num formato muito particular e (im)pessoal de comunidade e à qual Byung-Chul Han designa de sociedade do cansaço.

A perversidade desta acelerada conjuntura, que molda os nossos dias e as nossas noites, concentra-se na delimitação de um espaço aplanado que confunde o recetor e o coloca numa postura de permanente insuficiência face aos estímulos que o rodeiam. À força de não se conseguir aprofundar cada estímulo com alguma propriedade, sobra o pousio de curta duração em cada informação, levando o destinatário de novidade em novidade, de imagem em imagem. Este percurso predispõe-se a assegurar uma menor atenção, reflexão e pensamento acerca de cada uma das novidades, fixando-as como superficiais, detentoras de recados efémeros e simplistas, que tendem a incitar o recetor no imediato, para de seguida o abandonar, e vice-versa. Mais ainda, porque a sucessão de novidades urgentes e pouco desenvolvedoras faz com que todas as matérias assumam o mesmo valor, adivinha-se que, na leitura fáceis das mesmas por parte dos destinatários, leve estes últimos a ir sedimentando um pensamento assaz descomplicado, e por isso simples, reduzido.

A sociedade caraterizada por Byung-Chul Han, a do cansaço, como denomina, desvela uma circunstância que discorre desta conjuntura acelerada e alucinatória de novidades multiplicadas. Nela, as pessoas acabrunhadas e solitárias, debruçadas sobre os seus smartphones, a olhar para o seu reflexo (os seus black mirrors privados), enquanto fazem scroll, share ou sexting, parecem manter um diálogo com o outro e, por sua vez, com o mundo, como motivo primeiro de, na verdade, o manterem consigo próprias o tempo todo, dentro da sua redoma intimista do ser individualista.

O estado exangue deste exercício individual revela-se no cansaço dos corpos e dos intelectos, dos seus traços e dos seus procedimentos; ainda assim, permanece a vontade inveterada de se continuar a fazer, a cumprir, a exercitar. Pode parecer uma atitude poética, mas o que Byung-Chul Han vem enunciar evidencia um modus vivendi continuado de cansaço nas pessoas, que é sintomático de um comportamento invulgar que se assiste nas sociedades contemporâneas: o da autoexploração.

A lógica estabelecida na contemporaneidade percorre um discurso acerca da produtividade, na qual as pessoas se assumem voluntariamente responsáveis por produzir numa constância célere, isto é, concretizar tarefa após tarefa desenfreadamente, rumo à sua realização individual. Ora, este comportamento verifica uma soberba dependência do ser social para com o trabalho, e denota um vício face ao cumprimento das mesmas, que é cíclico, e ao qual todos se vão habituando.

Esta habituação ao estatuto de pessoa produtiva compraz-se com uma postura de insuficiência imanente, que vinca um trajeto de tarefa em tarefa, porque as circunstâncias sociais assim o exigem, mas sobretudo porque nada se assume suficiente para a realização do que se pretende alcançar. É aqui que se atesta uma exploração em que a pessoa se obriga a si mesma, denotando uma importante transmutação do caráter do poder que Han vem sublinhar: a ação perniciosa do poder já não passa pela imposição autoritária, clara e objetiva, mas invisibiliza-se nos comportamentos das pessoas que as inclui num modelo de autoexploração que, por sua vez, versa uma necessidade constante de cumprir ostensivamente.

Ao observarem-se continuadamente insuficientes face a tudo aquilo que realizam e que cumprem, as pessoas desenvolvem um cansaço que se cura com mais tarefas, com mais trabalho – portanto, com mais autoexploração – até acusarem depressões profundas e muito sólidas, sem que disso se dessem conta. Neste sentido, é legítimo afirmar que, havendo forma de se solucionar situações como esta, a resposta do nosso quotidiano seria a de que a depressão se cura com mais trabalho, delimitando um circuito cíclico que torna todos dependentes e entregues de e a um sistema com um poder sem rosto que, ao invés de oprimir pela coação, oprime pela autoexploração.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

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