Berlim – Um tónico democrático

Grafitti com o texto "Berlim"Por Andréa Zamorano

Não precisei  andar  mais do que dois quilómetros de bicicleta para chegar a Bernauer Straβe naquele domingo. Não precisei andar mais do que dois metros para me aproximar do primeiro local onde se lia numa placa de bronze: 25.09.61 «Fluchtversuch und Festnahme; Wilfried K» ou «Tentativa de fuga e prisão; Wilfried K.» Não precisei mais do que aquela leitura para ser avassalada por uma fragilidade.

Era difícil acreditar que ali tivesse existido um muro que primeiro dividiu as famílias, depois a cidade, o país e que terminou por dividir o mundo inteiro. Ainda mais obscura foi a tentativa de compreensão do que levou alguém a formar um governo que privou os seus concidadãos dos mais básicos direitos humanos. Da primeira vez  que estive em Berlim, há  dezoito anos, os meus sentimentos pela cidade  foram vincados pela incredulidade e pelo horror. Não é possível ser-se indiferente a tudo o que aconteceu naquele local durante o século xx.

Em 1999, dez anos depois de A Queda do Muro, estávamos convencidos de que a lição fora aprendida: o mundo não regressaria a um sistema que colocasse em causa o valor supremo das recentes democracias. Naquela  altura, parecia inimaginável a possibilidade de num futuro próximo serem eleitos governos que – outra vez – promovessem a perseguição religiosa ou pusessem em causa a liberdade de imprensa e as liberdades individuais em nome da salvaguarda nacional. Não na Europa, não nos Estados Unidos, aquele passado ignóbil nunca mais. O novo milénio estava à porta e era promissor.

Ainda se respirava de alívio pelo fim da Guerra Fria; no entanto, o capitalismo, euforicamente  celebrado e necessariamente atrelado aos  sistemas democráticos, já acusava o desapontamento. Nunca compreendi a estranha relação de contradição entre os dois sistemas. Nas palavras de Boaventura de Sousa Santos «o capitalismo só se sente seguro se governado por quem tem capital ou se identifica com as suas “necessidades”, enquanto a democracia é o governo das maiorias que nem têm capital nem razões para se identificar com as “necessidades” do capitalismo, bem pelo contrário.»

Quando regressei a Berlim, na semana passada, os meus sentimentos já não foram de incredulidade e horror, como há dezoito anos, mas de credulidade e pavor. Tudo me pareceu de novo possível. A ganância nos trouxe até onde nos encontramos hoje. A democracia foi corrompida.

Aliados num consórcio de interesses com as grandes corporações e os bancos, servindo aos imperativos das plutocracias ao invés de zelarem pela coisa pública, os políticos têm delapidado a democracia. Escândalos de corrupção e de promiscuidade sucedem-se um pouco por todo o mundo. Políticos, banqueiros e grandes empresários, quase sempre saem impunes das acusações que lhes são feitas. Eventuais condenações de exceção são obtidas, confirmando a regra geral.

Daí o esvaziamento das urnas, a falta de apetência do cidadão que sabe que pouco  ou  nada  mudará  num  contexto  de  ambição  desmedida dos vários governos oligárquicos que legitimam os lobbies e praticam descaradamente o nepotismo. O cidadão – também conhecido por consumidor – desistiu dos políticos que fazem eternas promessas que ficam por cumprir. Talvez, por tudo isso, muitos de nós se recusem a nos reconhecer nessa forma de democracia depreciada ou, como diria José Saramago, «uma democracia sequestrada».

Pouco a pouco vamos abandonando a política que se exauriu de sentido. Os cidadãos que ainda se preocupam procuram usar as suas vozes nas redes sociais, nos seus grupos de influência, onde alimentam a ilusão de estarem a participar ativamente no processo político.

Contudo, e apesar de manietada, a democracia ainda é o único sistema que permite a isenção das instituições. Como tal, vale reiterar que nos regimes totalitários – como no período da ditadura militar brasileira ou na ditadura salazarista – não houve denúncias de corrupção e, obviamente, não foi por não ter existido.

Tamanho desalento tem permitido o ressurgimento da pior invenção europeia, o fascismo. Líderes fortes com discursos carismáticos de proteção dos interesses nacionais contra os invasores – imigrantes e refugiados – que nas suas óticas distorcidas só servem para aumentar a criminalidade e tirar postos de trabalho das já depauperadas economias. Paradoxalmente, são os apoiantes dos partidos e dos políticos fascistas que com mais fervor acreditam no sistema político apesar de desprezarem as regras democráticas.

Então, nesse meu regresso a Berlim, num primeiro momento fiquei assustada. Não  por  Berlim que se transformou numa cidade ainda mais fantástica, consciente da sua importância para o mundo e que continua a expiar, com humildade, a sua culpa por uma tragédia de dimensões colossais. O que me apavorou foi ter sido confrontada com  a violência  das marcas de um passado ainda bastante próximo em  contraponto com a crescente apetência pelo regresso aos regimes populistas. Tive medo.

Em certa medida, é bom que o tenhamos. Berlim tem a virtude de nos deixar alerta para a fragilidade do nosso imperfeito sistema democrático. Desperta-nos os sentidos para nos precavermos contra as tiranias, ao mesmo tempo que nos preenche com a esperança de que tudo acabará bem se não tivermos medo de lutar. Sem esquecer o passado, a cidade pulsa com liberdade que transborda pelas suas avenidas. Tomar uma colheradas de Berlim «é ferro para o sangue e fósforo para os músculos» da democracia.

Andréa Zamorano
Andréa Zamorano nasceu no Rio de Janeiro e vive há tantos anos em Portugal quantos os que viveu no Brasil. A Casa da Rosas é o seu primeiro romance, foi publicado em Portugal em 2015 pela prestigiada editora Quetzal e será lançado no Brasil, no próximo mês de Julho, pela Tinta Negra Bazar Editorial. A obra foi vencedora do Prémio Livro do Ano pela Revista TimeOut Lisboa.
A sua escrita é resultado das suas vivências nas duas variantes da língua. Sem as fronteiras impostas pelo formalismo, a língua portuguesa em que escreve é um caso singular de hibridismo.
Uma escrita livre, ritmada, sem preconceitos linguísticos, com a coexistência das linguagens e referências portuguesas e brasileiras – Revista Visão
Cursou Língua e Literaturas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da UFRJ e licenciou-se em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa. Frequentou o Mestrado em Literatura Comparada na Universidade de Lisboa.
Tendo trabalhado na área da Comunicação Empresarial em diferentes multinacionais, é atualmente proprietária de restaurantes em Lisboa, entre os quais, a famosa Hamburgueria Gourmet – Café do Rio.
Assina ainda a coluna chamada “A Casa da Andréa” na revista Blimunda da Fundação José Saramago. 

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Março de 2017.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.