Boca A Boca: Eu já fui à Poesia Incompleta

Take care of my son, Varinia. If he never knows me… tell him who I was and what we dreamed of. Tell him the truth. There will be plenty of others to tell him lies.”
Spartacus para Varinia, no dia anterior à sua derrota em Roma

Não daqui a muito tempo, num futuro quase tão próximo como o presente, Roma (ou Bruxelas, como lhe quiserem chamar) impunha-se como o centro de um vasto Império dito civilizado, o berço da filosofia universal e do romance de bordel. Comandado, desde sempre, por bárbaros, ora de toga, ora de factos e gravatas, o Velho Continente, no auge do seu orgulho, poder e glória, padecia ainda de uma atroz enfermidade: o apreço pela servidão humana, física e mental, oficial ou encapotada. Esta indisposição da sociedade dividia de forma fatal os seus cidadãos: de um lado os que em privado não acreditavam em nada (quando em público acreditavam em tudo e em toda a gente), sabiam que a dignidade era uma forma de encurtar o tempo de vida e a política uma questão de não olhar ao dente para montar o animal; do outro, todos aqueles que por infortúnios vários ou desígnio das musas, lá iam tentando não se deixar cavalgar.

Nesta Comunidade de Europitas Unidas, temia-se a diversidade e a alternativa, e tudo o que não fosse literal ou evidente à primeira vista, e era por isso, e sem que se notasse muito, que alguns hábitos corriam o risco de extinção, tais como o estudo da ciência quântica, a reflexão através da geometria euclidiana ou o exercício da poesia, considerando-se a sua prática um crime e os seus praticantes em inimigos públicos e privados.

Ora, é na periferia desta Comunidade Comum mas pouco comunitária, mais precisamente, na província lusitana, neste tempo tão próximo como se fosse hoje mesmo, que nasce um livreiro analfabeto de seu nome Spartacus. Com um espírito de contradição desadequado ao seu pedigree e à conta com frequência sem saldo, o rebelde tinha, apesar de tudo, um sonho de uma extrema banalidade: o fim da escravidão no Império, de preferência durante os próximos dois mil anos.

Não se pense que este livreiro se encontrava só, digladiando-se contra a poeira das sombras cinzentas que se levantavam à passagem d’A Multinacional-de-Produto-Único-de-marca-branca-para-a-qual-todos-nós-trabalhamos!

Nada disso! Com ele assobiavam, dissonantes, tantos outros quixotes que metiam Dó afinados em Rés de Sis e que se queixavam, aqui e ali, da homogenia geral dos ares e da qualidade da pepsi-cola. E com eles, girando as pás dos seus moinhos cervânticos, mantinha-se a esquerda à tona de água, como  aliás, sempre acontece nestas épocas desanimadas. Uma esquerda que ainda lia de vez em quando e até escrevia melhor do que quando o fazia em latinório, pelo menos a avaliar pela sofisticação do vocabulário e pela quantidade de múltiplas plataformas de conversa em que se espalhavam ao comprido. No entanto, e ao contrário de memórias mais recentes, barafustava-se com mui bela construção gramatical e toneladas de escárnio na Lusitânia, mas praticava-se pouco: a escoliose, os compromissos familiares, o horário dos comboios, a impertinência da sogra, vá lá, sejamos sinceros, a preguiça estrutural e bem alimentada ao longo de décadas de televisão e emojis não nos permitia, a nós, à dita esquerda, afastar-mo-nos muito do conforto das grandes superfícies comerciais, preferindo assinar petições na internet para salvar lojas em risco nas baixas das cidades, ou visitar centros culturais em dias de liquidação total a ter que ir a pé às compras a um qualquer estaminé de bairro e ainda por cima pagar com dinheiro. De resto havia sempre palmadinhas nas costas para distribuir por todos, palmadinha que lá puxavam para cima, mas não pagavam contas a ninguém.

Enfim, neste futuro tão próximo que é já daqui a um bocadinho, e apesar da letargia causar apenas um rumor ínfimo de diz-que-disses e fogos de vista, a maçada que todos juntos infligiam aos governantes aind’ia sendo bastante. Em Roma, onde era obrigatório pensar e ler, pior, comprar e vestir o mesmo, tudo era permitido como espectáculo público, até touradas parlamentares, mas não havia cá tolerância para alimentar nem parvoíces de Alices nem bandalheiras de sagas de Grabatos, nem as porcarias de Bocages, mesmo que para oferecer às escondidas a amantes espigadotes.

Marcus Licinius Crassus achou que era chegada a hora de “pôr termo à ramboiada – deveria escrever-se Rimbaudiada – e aos ilícitos parlapiés”, e exigiu mais do que uma simples carnificina por ocasião dos festejos anuais. Com poucas palavrinhas apenas, e nenhuma delas excepcional, ordenou, implacável e numa frase, “a captura imediata de todos aqueles que cirandam por recintos de leitura com menos de dez metros quadrados ou bebem copos em lugares impróprios onde se fuma e se declama pela noite dentro sem obedecer ao PCL, Plano Continental de Leitura.”

Foi assim, com inesperado sucesso, que se lançou uma operação relâmpago à escala planetária à qual se deu o nome de código de EuroDisney. Numa tarde varreram-se todos os elementos suspeitos de tiques subversivos na capital lusa que se atrevessem a ostentar um livro ou um copo de whisky. Na realidade, não sobrava ninguém que tivesse saído à rua, todos desprevenidos e apanhados a discutir o sexo dos anjos, as tabacarias deixadas ao abandono, os seus proprietários a viver da metafísica de outros chocolates.

Na praça central jaziam agora, mortos, os resistentes, e reuniam-se os prisioneiros. Marcus Licinius Crassus, estratega desta operação, acabava de chegar para se congratular de mais uma vitória. Eis se não quando recebe um recadinho em papel quadriculado:

– Raios e Coriscos! Não basta perseguir os leitores? Não basta perseguir quem escreve, nem acabar com os jornais, nem comprar as distribuidoras? Logo agora que prendi todos, abre a porra de uma xafarica literária na Lapa? Sem serviço de bar nem brindes turísticos, nem latas de atum? Ó-m’essa! Então não tínhamos dado cabo do tolo da Poesia Incompleta lá no Brasil? Mas onde é que fica essa inaudita livraria que não tem filas de clientes à porta para tirar selfies na escadaria, nem vende best sellers?

O arauto segreda-lhe ao ouvido que fica na Rua de São Ciro nr 26 ali à Estrela mas que hoje está fechada, é segunda feira, noutro dia ouviu para lá umas cantorias.

Ávido de mais uma chacina, Marcus Licinius Crassus promete a si mesmo que não se deterá até fechar a última livraria com as suas próprias mãos! É necessário um exemplo para que nada disto volte a acontecer!

– Tragam-me a cabeça de Spartacus! – vocifera, qual Rainha de Copas – Cortem-lhe a cabeça!

Marcus Licinius Crassus queria a cabeça de Spartacus porque sim, porque quando se tem o suficiente, porque não querer mais? Porque para um imbecil não basta esbarrar contra um muro para se saber quando se perde ou quando é que a história, nos seus eternos ciclos, se repete.

Não! Irado, Marcus Licinius Crassus desenha novo plano infalível e informa de imediato todos os presentes com a seguinte mensagem:

O silêncio que não se fez desencadeou um xinfrim que desorientou os guardas. Soltos os prisioneiros, largaram todos a correr para a Rua de São Ciro, nr26, decididos a esvaziar a mais recente livraria.

Para trás, sozinho na praça, e de lagrimita no olho, ficou o seu livreiro.

Não, não estava só, atrás do livreiro, surgia alguém, meio perdido, acabadinho de chegar do estrangeiro:

Antónia – Cum caralho, filhos da puta! Ai, perdão, falo sempre de deuses nestes momentos de pequenas vitórias.

Spartacus – Antónia, achei que nunca mais te tornava a ver… Naquele dia do torneio…

Antónia – Spartacus, cortaste o cabelo? Nunca leste a história de Sansão e Dalila?

Spartacus – … Como escapaste tu lá dos países baixos?

Antonina – Não escapei… Saltei do carro em andamento…

(ambos riram, algo raro, conhecendo-os, era costume competirem pela gargalhada que provocavam um no outro. Depois calaram-se, não que não houvesse imenso para pôr em dia, mas os tempos, apesar de outros, ainda não eram para amenas cavaqueiras…)

Spartacus – Magoaram-te?

Varinia – Não tudo o que podiam, mas sabes o que se diz… é mais fácil saltar de barco em barco do que saltar do barco para o alto mar…

Spartacus – Odeio provérbios…

(Caminham juntos, mãos nos bolsos, o resto à deriva e a comparar fachadas de prédios e nomes de pastelarias, nunca se sabe quando é a última vez.)

Antónia – Posso juntar-me à tua quadrilha?

Spartacus – Não, que disparate, isso não faz sentido nenhum, e fazias o quê?…

Antónia – Não menosprezes as minhas faculdades, sou grande leitora, sei cantar, desafino lindamente. Também sei usar facas, com elegância, para cortar legumes, peixe, ou mesmo gargantas se mal dizentes, passo muito bem cortinas amarrotadas a ferro e já sou mãe, não menosprezes o que uma mulher como eu passou para te pôr aqui neste mundo. Ah! e sei contar pelos dedos, já trabalhei em três mercearias. E depois sou bruxa, e mágica, sei preparar venenos que indispõem cínicos, burocratas, e até chamam clientes para qualquer estabelecimento…

Spartacus – Consegues fazer desaparecer Romanos?

(novo silêncio, acho que para fumar um cigarro, mas só ele, ela ainda não fuma nesta parte da sua história mas distrai-se com facilidade com qualquer outro assunto ou petisco).

Antónia – Toma.

Antónia estende o seu mealheiro a Spartacus:

Spartacus – Não preciso de esmola.

Antónia – Não é esmola, é a minha mesada, gostava de oferecer uns sonetos de Petrarca a um amigo que não acredita em revoluções. Tenho dezoito euros, chega?

Spartacus – Não, mas se levares também o Nuno Bragança, dá conta certa.

(Ela dá-lhe a mão e sorri, mas com cuidado, para que ele não note nem leve a mal. A mão dele aceita a dela, até porque não está ocupada, nem com livros, nem com copos, nem com garfos, nem com o isqueiro, é óptimo não irmos para novos quando nos acompanham amigos de longas datas.)

Spartacus – Anda, acelera o passo e ainda chegamos a tempo de abrir a Poesia Incompleta antes das 19h49m, assim não dou o dia por perdido e ainda te leio um ou dois poemas do Mário.

THE END

Dobragem russa: Célia Fechas (a esquerda), Steven Brys (Licinius Crassus), gravado na cozinha da Rua dos Antigos combatentes nr56, com um abraço especial para o livreiro portuense Anselmo Fechas e a consultadoria de Zoë.

*****

Poesia Incompleta – livraria dependente da venda de livros (palavras do livreiro) a gente livre e livrada da breca. Ideal para quem se recusa a consumir em grandes superficies, cadeias ou franchisingues do que quer que seja, e prefere empregar com irresponsabilidade os seus poucos tostões em obras máximas e no prazer (sempre que possível, diário) de criar um leve ruído na fácil engrenagem do mundo-sempre-igual.

Onde: Rua de São Ciro nr 26, à Estrela, das 11h às 19h49,
(folga às segundas para ir ao cinema – não sei se é verdade, mas era o que eu faria)

(Atenção: Dia 17/2 pelas 18h, o livreiro gladiador vira bardo pelas pautas de Cesariny)

Nota: Outras livrarias em Lisboa onde os livreiros se chamam Spartacus
Letra Livre, Cç. do Combro, 139, Lisboa > T. 21 346 1075 > seg-sáb 10h-13h, 14h-19h
Baobá, Rua Tomás da Anunciação, 26B, Lisboa > T. 21 192 8317 > ter-sáb 10h-19h30
Tigre de Papel, Rua de Arroios, 25, Lisboa > T. 21 354 0470 > seg-sáb 13h-20h
Ler, Rua Almeida e Sousa, 24C
Livraria Snob da Cossul, Rua Nova da Piedade, 66 > +351 968 752 147 > a partir das 15h

E por outras e também belas bandas:
Almanaque 23, Rua da Ramada,nº 52 Guimarães 4810-427 > +351 918 110 758
Centésima Página, Avenida Central, 118-120 Braga, 253267647 e 937852996 > 9h-19h30
UNICEPE – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL – No 56º ano de atividade. Medalha de mérito, grau ouro, da Câmara Municipal do Porto, 2014. Praça de Carlos Alberto, 128-A, Telefone (351) 222 056 660
Livraria Poetria, Rua das Oliveiras 72, Porto, +351 22 202 3071> seg-sáb 10h-19h
Livraria Fonte de Letras, N.º 8, R. de Vasco da Gama, Évora > +351266899855> das 10h às 19h, fecha ao domingo

E aquele abraço para aqueles que abrem e mantêm novos lugares no Brasil a todo o custo!
Editoras Dublinense+Nós abrem espaço na galeria PLEXI Rua Patizal, 76, São Paulo, (Vila Madalena), Brasil > das 19h às 22h
Livraria Taverna Rua Fernando Machado, 370 – Centro Histórico Porto Alegre, 90010-320 +55 51 3221-2510 > das 10h às 20h

Este Boca a Boca serve de amuse-bouche para:
 Obra Completa de Nuno Bragança (o belo autor faria 90 anos por estes dias);
–  Spartacus, versão restaurada de 1960, realização de Stanley Kubrick, com o belo Kirk Douglas como Spartacus e Tony Curtis como seu companheiro Antonino;
Sobre a tagarelice e outros textos e Vidas Paralelas (em especial a de Crassus) de Plutarco.

Patrícia Portela nasceu em 74. Vive entre Lisboa e Antuérpia. Escreve para vários formatos. http://www.patriciaportela.pt/

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