Boca A Boca: Ou “e” ou não é

Mónica Lapa (1965-2001). Foto de Mark Deputter

– 1 piruette, 1 ruble, 2 piruettes, 2 rubles, and on and on.

– And what do I get if you lose?

– That is a good question, they took my money.

Depois das aulas, dos testes, dos t.p.c’s, das reuniões de turma, das rifas da associação de estudantes para angariar fundos para uma mesa de ping pong para a sala de convívio e para a organização do concurso de arte com apresentação das melhores bandas no cinema império; depois dos livros que se têm de devorar, depois dos rascunhos que se deitam para o lixo e de uma hora e meia entre autocarros e filas de espera, o dia, enfim, começa: duas horas de barra no chão, uma aula de nível I de ballet clássico com quem[1] cedo (mas tarde para as convenções) me ensina que não há corpos nem idades para isto ou aquilo, logo seguida de uma aula de ballet avançado impossível de acompanhar, um workshop de dança contemporânea com um bailarino catalão que atira aspirantes a coreógrafos pelos ares, três quartos de hora livres enquanto decorre uma reunião nos escritórios onde se discute a criação de uma associação para a dança, um festival para a dança, uma escola nova de dança, quarenta e cinco minutos esses mui bem aproveitados para comer uma sopa no café dos  bombeiros e tapar buracos no linóleo com fita quase gaffer para  ganhar umas aulas avulso extra e trocar de sapatos para a tão esperada aula de sapateado de Miss Liberty[2].

Chegar a casa dos pais e contar sempre a mesma história:

– Estive com uns amigos à conversa na rua e esqueci-me das horas –

porque isto de aspirar à inutilidade das artes é segredo.

Contar os dias para ter mais de 18 porque de certeza por essa altura, exactamente a 16 de março pelas 12 horas e 10 minutos, vou poder ser, fazer, dizer, correr tudo o que quero sem pedir autorização a nada nem a ninguém. Eu sei que em 1999 acaba o milénio, acabam os muros, o estado-nação, a forretice, a mesquinhez e a morte, e eu quero e sou e vou ser o Fred Astaire, A Pavlova, uma cantora de ópera-bossa-nova e a primeira Maria Parda High-Tech. Vou escrever as noites brancas de Dostoievsky como se fosse o Luiz Pacheco a viver em Nova Orleães. Vou desenhar como o Léon Bakst e sentir como o Rothko se fosse o Stig Dagerman publicado pela Fenda, assinando como se fosse o Córtazar. Vou construir foguetões em russo como se fosse o Gagarine. Vou adivinhar todos os universos paralelos (que como se sabe começam todos na rotunda do Marquês de Pombal e não são muito diferentes do que se consegue ler se semicerrarmos os olhos ao folhearmos e desfolhearmos qualquer livro aos quadradinhos) e alimentar-me apenas de arroz branco e dim-sumes, sempre e só com pauzinhos.

O meu lugar é um elástico onde coabitam ilusão e factos embaraçados pela força das múltiplas melancolias que ainda ignoro e julgo poder superar com facilidade sem analgésicos, um espaço de tendências artístico-económico-sociais mescláveis e variáveis que conto atraiçoar.

O mundo tem tudo o que é preciso. Só lhe falta uma vontade comum de quereres e estares distintos que há de chegar.

O meu lugar é o da não mentira.

– Where are you going?

– What do you mean? We are landing in Russia.

Um problema eléctrico obriga um avião comercial a desviar a sua rota e a aterrar de emergência em solo soviético. Estamos em 1984. Enquanto todos os passageiros apertam os cintos e colocam máscaras de oxigénio, o bailarino clássico de renome (na vida real e na vida cinematográfica) levanta-se do seu lugar, corre para a casa de banho para destruir o seu passaporte e é abalroado por um carrinho de vendas que o deixa inconsciente.

Enquanto isso, Raymond Greenwood, mais conhecido por Gregory Hines, sapateia-se por Gershwin frente a uma entusiasta audiência siberiana e canta a boat is leaving soon to New York, come with me, that is where we belong, sister.

Quis o destino o encontro destes dois bailarinos a viver num lugar de onde não vêm. O destino, não. As leis estúpidas, as guerras estúpidas, as divisões de terra estúpidas, os contratos estúpidos, as ideias…

…umas ideias sobre o assunto com dificuldades de várias ordens práticas.

O bailarino russo não quer voltar a dançar no Bolshoi de Moscovo.

O bailarino americano não quer regressar ao Apollo de Harlem.

Helen Mirren e Isabelle Adjani entre os dois. Uma bailarina que ascendeu a directora da maior companhia de ballet do mundo porque se tem de fazer pela vida, uma mulher que diz I wish we could just disappear porque o mundo se tornou um lugar onde não há lugar para ninguém que não sirva ou seja servido.

Todos peões e rebeldes, prisioneiros da conjunção “ou”, a dúvida que sempre quis ser a soma de um “e”.

E o “e” é o que sou.

E o “e” é só o que se pode ser, quando ainda não se tem contratos de rendas, seguros, filhos, pais doentes e outros assuntos importantes que nos fazem escolher de outra maneira que não a nossa.

– I have no choice, I have to trust you!

Diz o bailarino clássico depois de uma fuga sem sucesso para o bailarino de sapateado, que, não se sabe, pode ser um espião, um traidor, um desertor, um utopista, um inadaptado, dependendo do contexto, época e de quem paga a produção do filme. Quando dançam, dizem outras coisas que passam despercebidas no guião e que só quem as vê as reconhece.

A Mónica Lapa é o meu “e” fora do ecrã de cinema. O meu Baryshnikov Hines. Ali, onde chego com aquela idade em que tudo parece gritar tens de ser isto ou aquilo, a Mónica sapateia-se com os joelhos. Deitada no chão. Ruge ao lado de Francisco Camacho. Tem os cabelos desgrenhados. Faz aulas de ballet (as tais que eu mal acompanho). Dá aulas de sapateado. Dirige um festival que acontece em todo o lado. Assina petições. Vai a reuniões de condóminos, de bombeiros e de artistas ditos independentes. Com ela coabita-se. Existe-se entre. Como o Gregory Hines coabita com o Baryshnikov pela mão de Twyla Tharp, ao lado de Phill Collins e música tradicional russa, com o muro de Berlim em Lisboa, Nova Iorque no Kremlin e até com Lionel Richie a cantar aquela música say you, say me, que não dava para dançar porque não era só slow nem só pop divertido. A Judith Butler quando se passeia na Duque de Loulé é uma menina ao lado de uma danças na cidade, ao lado de uma escola de dança, de uma sala de ensaios de um teatro, de um computador onde se pode escrever o que se quiser, de uma livraria que só venda livros, de uma casa que só acolhe amigos, de um sou eu que ninguém sabe e é alberto-pimentiano, isadoraduncquiano, punk e rock n’ roll. Nós somos o que performamos. Mesmo quando queremos muito (e por razões que para aqui não são chamadas), nunca seremos uma constituição, uma lei, uma proibição. E quando performamos dentro e fora dos vários palcos (oficiais, íntimos, virtuais) somos mais do que um e menos, felizmente, que um projecto concreto. Somos uma viagem. No tempo, que, como se sabe, não é nem relativo, nem existe. Continuamos todos por aqui. Continuamos. Mesmo depois de nós.

Um beijo,

[1] Este quem deve-se sobretudo a Sofia Neuparth, professora de dança e directora da actual escola C.E.M.

[2] Miss Liberty é o título do último espectáculo de Mónica Lapa, um duo com Marta Lapa.

Patrícia Portela nasceu em 1974. Vive entre Lisboa e Antuérpia. Escreve para vários formatos. http://www.patriciaportela.pt/

Comments

  1. Fernanda Lapa says

    Obrigada

    • patricia portela says

      Nós todos é que temos de agradecer. Não seríamos nós sem todas as possibilidades que a Mónica nos ofereceu sem pedir nada em troca. Um grande bem haja!

  2. Grande, grande abraço, Fernanda.

  3. sao jose lapa says

    Muito bonito.

  4. Susana Domingos Gaspar says

    Que lindo texto. Cheio de energia. Muita energia. Da boa.

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