Brígida Alves – Entrevista

Podemos dizer que Brígida Alves é uma mulher dos sete instrumentos. À frente dos destinos do Centro Das Artes do Espectáculo de Sever do Vouga, programa, produz, comunica, e organiza inúmeras manifestações culturais ao longo do ano. Já leva 17 anos de trabalho em prol da Cultura descentralizada. Conversámos com ela para saber mais sobre o projecto.

Que balanço fazes do teu trabalho à frente do Centro das Artes do Espectáculo de Sever do Vouga?
São 17 anos em que me foram entregues funções e tarefas distintas e cumulativas de gestão, coordenação geral, programação cultural, comunicação e, até ao início deste ano, de produção executiva. São 17 anos de bamboleios, solavancos, instabilidades e flutuações, muito ritmo, muitas harmonias e muito amor. São 17 anos de muita vontade e de muita resiliência.

São 17 anos com 1870 ações desenvolvidas, correspondendo a uma média de 110 ações/ ano. São 17 anos em que recebemos um total de cerca de 204 000 espetadores, correspondendo a uma média anual de 12 000 espetadores (uns anos com mais e outros com menos).

São 17 anos em que envolvemos cerca de 37 400 pessoas, entre as quais artistas de cariz internacional, nacional e local (participantes ou envolvidos nos projetos artísticos), conferencistas, curadores, elementos das organizações locais, técnicos, produtores, agentes, assistentes de sala, voluntários, estagiários, etc.  ;

São 17 anos de muitas dúvidas e de grandes certezas, entre as quais: “É este um dos caminhos.”

Qual a importância de descentralizar as actividades culturais?
Tornar-se num instrumento eficaz de democratizar a cultura (direito consagrado na constituição portuguesa), permitindo e incentivando, neste caso: o acesso dos severenses à possibilidade de desfrutarem dos projetos de criação artística contemporânea em circulação em Portugal; a formação individual e o alfabetismo cultural dos severenses; a criação, formação e o alargamento de públicos da cultura em Sever do Vouga; o encorajamento à produção local e das expressões culturais severenses; a disponibilização do CAE, com os seus meios físicos, técnicos e humanos especializados, como local de apresentação dos projetos culturais, festas corporativas organizadas pelo tecido cultural, social e recreativo severense; o maior envolvimento e participação da população severense e o seu encontro através da cultura.

Que desafios particulares enfrentam por estarem fora dos grandes centros urbanos?
Principalmente os desafios relacionados com a perda constante do número de habitantes, pessoas que compõem a comunidade local. Há cada vez menos pessoas que se fixam e residem em Sever do Vouga. Os jovens saem para estudar e não voltam, a não ser depois de reformados. Com esta situação é mais difícil captar e alargar públicos.

Pensas que os artistas também enfrentam desafios ao actuarem fora desses centros?
Nota-se alguma insegurança, receio/ medo, em alguns casos, principalmente quando é a sua primeira vez no CAE, de que possam não estar reunidas as condições exigidas pela produção técnica e artística do projeto, aquando da sua chegada e que põem em causa a qualidade da apresentação. Esta sensação começa a ser afastada, à medida que se vão desenvolvendo os trabalhos de preparação e que vai crescendo a confiança na equipa do CAE.

A diversidade nas propostas de programação é um objectivo?
A programação cultural do CAE insere projetos das diferentes áreas artísticas nas artes performativas e visuais.

A música tem uma componente forte na programação. Para além da apresentação regular de diferentes géneros musicais, quer em contexto de auditório, quer em forma de café concerto, apresentamos os seguintes ciclos temáticos: Alter Ego Music Sessions, vocacionado para a apresentação de propostas musicais contemporâneas das áreas do rock, indie, pop, ou folk; FestiJazz, festival Internacional de Jazz e o ciclo de música de câmara Anúncios de Primavera.

A dança e o teatro são áreas que compõem a programação cultural de forma regular, no entanto de forma mais pontual e, vocacionadas principalmente para projetos de participação comunitária, já que são áreas em que se aposta na criação, formação e alargamento de públicos. Criamos recentemente um projeto- laboratório de palco, em que se pretende trabalhar o cruzamento do teatro com outras áreas, mormente a dança e o movimento. Participam neste laboratório cerca de 16 severenses. A orientação está a cargo de um encenador em permanência, coadjuvado com outros profissionais de diferentes áreas. Trabalham para uma produção anual, sob temas que podem ir de textos ou autores clássicos aos contemporâneos, etc.

Nas artes visuais temo-nos focado na apresentação regular de exposições com trabalhos de artistas emergentes portugueses de diferentes áreas (instalação, fotografia, escultura, pintura, etc). Também procuramos apresentar, em diferentes ocasiões, o trabalho realizado por severenses com trabalhos relevantes nas várias áreas.

De que forma é que a formação de novos públicos é uma preocupação?
Ao longo dos vários anos de funcionamento e prestação de serviço público do CAE que a formação dos públicos, a criação de novos públicos e o alargamento dos públicos (em termos de número), têm sido as maiores preocupações, no contexto da definição de linhas de orientação e programação cultural.

Desde há muito tempo que é recorrente a planificação e apresentação regular de atividades como: workshops, ensaios assistidos, conversas antes e depois dos espetáculos, espetáculos com a participação dos elementos da comunidade local, concertos comentados, etc. Para além da planificação e apresentação regular destas atividades paralelas aos espetáculos, para a temporada que agora se inicia, estabelecemos como alvos principais da programação, os eixos escolas e associações culturais, uma vez que foram identificados como os focos do nosso trabalho de formação, criação de novos e o alargamento dos públicos. Para estes dois grupos definimos 16 projetos/ ações para realizar até julho de 2020, o que significa que num contexto global de programação é uma grande parte. Estes projetos são:

eixo escolas: ações de formação, sessões de leituras encenadas, sessões de pensamento, projetos de criação artística, espetáculos, oficinas, percursos artístico- literários, sessões de contos;

eixo- associações/ coletividades:  criação de coro concelhio, coleção de autobiografias severenses, percursos artísticos, espetáculos com a participação de elementos das associações e restante comunidade local;

O que podemos esperar do CAE nos próximos meses?
Nos próximos meses e até dezembro a programação do CAE de Sever do Vouga prevê a apresentação de mais três cafés- concerto com as bandas: Barry White Gone Wrong, Hot Air Balloon e A Jigsaw, do concerto de Linda Martini, da ação de formação De Lápis na Mão dirigida aos professores e educadores, do workshop de dança contemporânea Pensado para Adultos, orientado por Paula Moreno, do espetáculo de dança contemporânea Muiças, uma criação de Tânia Carvalho para a Aza Companhia, do espetáculo de comédia Casal da Treta e dos concertos da Banda Sinfónica do Exército e da Filarmonia das Beiras, por ocasião da celebração dos 30 anos da Comunidade Intermunicipal de Aveiro (CIRA).

Em novembro, dias 15 e 16, celebraremos o 18º aniversário de abertura ao público do CAE. Nesta celebração iremos dar ênfase aos projetos produzidos no último ano  e que envolveram a participação comunitária: Do Sacro ao Profano: Ecos de Um Povo- um espetáculo multidisciplinar sob direção artística do maestro e compositor Carlos Marques,  que parte do cancioneiro popular para constituição do seu repertório e também das vivências e de rituais locais (trabalho, romaria, amor e religião) e que conta com cerca de 60 severenses em palco, Quedas d’Água d’Amor- um espetáculo de teatro encenado por Joana Figueira e com dramaturgia de Jorge Louraço Figueira, a partir de textos de William Shakespeare e que conta com a participação de 16 severenses e Naturália, uma instalação de panos bordados/ performance com direção artística Vera Alvelos que parte das vivências de algumas mulheres severenses e o seu contato com os elementos da natureza severense e de outros lugares por elas cruzados. Terminamos ambas as noites desta celebração com os cafés concerto de Rui Oliveira e Madrepaz.

Em março de 2020, retomamos o ciclo de música de câmara Anúncios de Primavera, em abril a 3ª edição do FestiJazz- Festival Internacional de Jazz e no outono o ciclo de música Alter Ego Music Sessions.

Para além da programação própria do serviço do CAE, são inúmeras as vezes que o CAE é o local de apresentação dos projetos de produção local. Só até dezembro estão previstas 12 apresentações, com o apoio total da autarquia e dos meus existentes.

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